
 

 Prola
   Ruth Langan
   Jias do Texas 2



    Prola era uma dama e deixou Boston para prestar homenagens ao pai. Decidiu ficar na terra que Joseph chamava de sua. Para dar um rumo  vida, resolveu usar
seus talentos e abrir uma escola em Hanging Tree. Alm de enfrentar a oposio dos moradores, que achavam um absurdo ensinar s crianas, ela teve que lutar para 
convencer o capataz Cal McCabe de que a empreitada valeria o sacrifcio. Acrescente duas crianas vtimas da violncia paterna e veja o que vai dar...
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    
    Prlogo
    
    Hanging Tree, Texas
    1870
    
    - Oh papai! O que fiz? 
    A figura solitria estava parada no alto da colina, o olhar preso numa elevao de terra coberta por pedras. Prola Jewel tinha a mesma aparncia de dois meses 
atrs, quando descera da carruagem que a trouxera de Boston. O vestido era impecavelmente limpo e muito bem passado; o cabelo era mantido preso por uma fita e a 
inseparvel sombrinha protegia sua pele contra os raios do sol inclemente.
    Ainda no conseguia acreditar na espantosa reao que tivera  notcia sobre o assassinato do pai nesse local distante chamado Texas. A primeira idia que havia 
ocorrido  jovem recatada e sria fora trancar-se com a prpria dor. Em vez disso, agindo de maneira completamente estranha  prpria natureza, comprara uma passagem 
na primeira carruagem com partida prevista para o mesmo dia, determinada a visitar o tmulo paterno. E aqui, nessa terra estranha, descobrira muito mais do que o 
esperado. Trs irms, todas muito diferentes uma das outras. Esmeralda, nascida e criada no Texas, era dura, forte e desafiante. Jade era uma frgil beleza oriental 
com a mente to afiada quanto  adaga de cabo incrustado que levava presa  cintura. Rubi era uma jovem sedutora cujo corpo curvilneo atraa os olhares de todos 
os homens. 
    Mas o melhor havia sido descobrir que tinha um lar, a Fazenda Jewel. O testamento do pai determinara que cada uma das filhas possusse uma parte igual do imprio 
que ele construra no Texas, bem como uma poro de seu devotado capataz, Cal McCabe.
    Ento, por que se sentia to perturbada?
    - Sinto-me intil aqui. - Corou, caindo de joelhos - Tudo  muito estranho para mim aqui em seu lar. - pensou na poeira, na pequena cidade sonolenta, to diferente 
das ruas de Boston. - No sei se algum dia me habituar a esse lugar primitivo. - Ela suspirou. - O clima... Todos dizem que essa  uma tpica primavera texana. 
Chuva. Aridez. Calor. Frio. No sei o que esperar para o dia seguinte. E tambm temos os animais selvagens. Alguns deles aproximam-se da casa e dos celeiros. E a 
pessoas. To rudes. To... Incivilizadas. O medo tornou-se meu companheiro constante. - Um tremor a sacudiu. - Talvez tenha cometido um terrvel engano. 
    Perola tocou a pedra que marcava o local onde repousavam os restos mortais d me, que ela mandara vir de Boston a fim de que os pais pudessem estar unidos na 
morte.
    - Ser que errei em vir para c, mame?
    Ainda podia ouvir as palavras da me, temerosas, precavidas, sempre que mencionara a possibilidade de ir encontrar o pai no Texas. 
    -  um local selvagem e perigoso, Prola. Mulheres como eu s encontraria o sofrimento e a morte em paragens to primitivas. 
    Mulheres como ns.
    Ela estremeceu novamente. Lgrimas queimavam seus olhos, e foi com esforo que as conteve. 
    Tocando o grande monte de pedras sobre o tmulo do pai, sussurrou:
    - Oh, papai, se pelo menos voc estivesse aqui para me dizer o que fazer.
    No silncio que seguiu-se, o vento soprou mais forte, e levou uma mecha de cabelos a pousar sobre seu rosto. Fechando os olhos, teve a impresso de sentir o 
carinho da forte mo paterna. Firme. Seguro. Doce. 
    Ela foi sacudida pela lembrana sbita.
    Tinha oito anos de idade. O pai havia ido a Boston para uma de suas raras visitas. Como sempre, a me vestira a filhinha com seu mais fino vestido, arranjando 
os longos cabelos loiros em grandes cachos perfeitos, e prevenindo-a para receber o pai com um poema decorado. Com voz clara, Prola dissera os primeiros versos 
de Augrios da Inocncia, de William Blake.
     "Ver a mundo num gro de areia e o cu numa flor do campo, segurar o infinito na palma de sua mo e a eternidade numa hora..."
    Sentado, boquiaberto, o pai acompanhara fascinado enquanto a filha recitava todo o poema com perfeio impressionante. 
    Ora, isso  surpreendente, Prola - ele dissera. - Que criatura sria e deliciosa voc . O que pretende fazer com essa mente prodigiosa, minha criana?
    Ela olhara para o cho, lutando contra as lgrimas. 
    - Mame diz que no possuo talentos dignos de serem desenvolvidos. No tenho ouvido para msica, nem pacincia para costurar um tecido fino. Mame afirma que 
sou intil. 
    - Intil? - Ele a tomara nos braos e depositara beijos carinhosos no rosto infantil e triste. - Tem idia de como me orgulho de voc?
    A garotinha solene e sria balanara a cabea. 
    Oh, minha pequena adorada. Uma mente refinada  um dom valioso. Se me prometer uma coisa, ser capaz de retribuir minha promessa com outra?
    Prola afirmara com um movimento de cabea, surpresa com a excitao que vibrava na voz paterna. 
    - Prometo que voc ter a educao que eu jamais tive. E peo que, um dia, use seu conhecimento para ensinar outros seres humanos. Ah, Prola! No h chamado 
mais nobre que moldar a mente de uma criana, elev-las de suas vidas dirias e vazias para conduzi-las a lugares que jamais vero, seno nos livros. Far isso? 
Usar essa mente to prodigiosa para ensinar os outros?
    Prola abriu os olhos. Estava sozinha. Com exceo do vento, o silncio era completo. Mas ouvira a voz do pai, to ntida quanto se estivesse ali, falando com 
ela, em vez de viver apenas em sua memria. 
    Uma Lgrima brotou no canto do olho. Sem tentar cont-la, ela inclinou-se e beijou a sepultura gelada. 
    Talvez fosse a imaginao. Ou um sinal. A nica coisa que sabia era que experimentava uma rara sensao de paz. Num piscar de olhos, recebera a resposta que 
pedira ao cu. 
    - Obrigado papai. Farei o que me pediu. Saberei merecer seu orgulho.
    
    
    Captulo 1
    
    - Se no se importam, fomos convidados a permanecer juntos depois do servio religiosos para uma reunio de cidados.
    Lavnia Thurlong parou de abanar-se e olhou em volta, surpresa. Vrias outras mulheres fizeram o mesmo, e a congregao ouviu com ateno.
    No que houvessem estado atentos durante os sessenta minutos de culto. O reverendo Wade Weston, um jovem carismtico com cabelos loiros e voz forte, atraa uma 
legio de seguidores. Pessoas da cidade e fazendeiros reuniam-se todos os domingos para submeterem suas conscincias aos benefcios da f.
    O servio era realizado nos fundos do Armazm Durfee. A sala era o nico espao disponvel em Hanging Tree grande o bastante para acolher a multido crescente. 
Alm do mais, Rufus Durfee concordara em ser prefeito no ano seguinte, j que ningum mais aceitara o cargo.
    Ele mesmo percorrera a cidade, trazendo todos aqueles que no costumavam atender aos cultos dominicais.
    - Algum problema, Quent? - Gladys Whiterspoon encarou Quent Regan, o chefe da polcia federal, que ocupava uma cadeira no fundo da sala. Ele era responsvel 
pela maior parte do territrio do Texas, e decidira instalar-se em Hanging Tree.
    - No que eu saiba - foi  resposta enftica.
    - Rufus Durfee no convocaria uma reunio de cidados se no houvesse ms notcias - Millie Potter comentou em voz alta. Millie era a dona da hospedaria no final 
da trilha poeirenta que formava a rua principal de Hanging Tree. - Aposto que vamos enfrentar problemas. 
    Um murmrio ergueu-se entre os presentes e cabeas moveram-se em sinal de apoio.
    - Ei, no so ms notcias - o revendo Weston apresentou-se para garantir. - Na verdade, a novidade  muito boa para todos ns. - Ele olhou para o prefeito. 
- Rufus, quer que eu faa as honras?
    Ao ver que o poltico e comerciante afirmava com a cabea, o reverendo tossiu para limpar a garganta.
    - Srta. Jewel, se puder vir aqui, por favor...
    Todos se viraram para estudar a jovem que caminhava at a frente da sala. Como sempre, Prola Jewel estava vestida e penteada de maneira impecvel. Hoje ela 
usava uma confeco num tom plido de rosa com uma gola alta, cintura marcada e uma saia ampla. Fitas da mesma cor mantinham os cabelos loiros e longos longe de 
seu rosto. Nas mos ela carregava uma elegante sombrinha cor-de-rosa, cuidadosamente fechada e apontada para baixo, como uma bengala. Apesar de ter chegado dois 
meses antes, a pele ainda no fora maculada pelo forte sol do Texas. Era to fresca e plida como quando desembarcara da carruagem que a trouxera de Boston. Teria 
sido elogiada por sua elegncia na cidade onde crescera, mas Hanging Tree parecia apenas frvola. Todos sabiam que a poeira do oeste jamais fizera diferena entre 
seda e a juta.
    - A srta. Jewel ofereceu-se para ensinar nossas crianas. - A voz do religiosos transbordava de orgulho.
    - O que ela pode ter para ensinar aos nossos filhos? - Algum quis saber.
    - A srta. Prola freqentou... - O reverendo Weston olhou para a jovem em busca de auxlio.
    - A Escola Feminina da srta. Trackery - Prola concluiu.
    - Sim, isso mesmo. Trata-se de uma excelente escola em Boston, onde ela conquistou o diploma de professora. A srta. Jewel  habilitada para ensinar leitura, 
redao, matemtica e coisas do tipo.
    - E para que as crianas precisam disso? Rollie Ingram, um fazendeiro valento que j havia enterrado a mulher e trs filhos, levantou-se e dirigiu-se  porta, 
fazendo um sinal para que os dois meninos o seguissem.
    Rollie nunca freqentara os cultos dominicais. Na verdade, Rollie nunca dera muita importncia ao eventos ou habitantes da cidade. A nica ocasio em que era 
visto por ali era quando precisava de suprimentos, ou quando conseguia economizar o suficiente para visitar o saloon de Buck.
    O filho mais velho, um palmo mais alto que o pai, mas to musculoso quanto ele, apoiou um brao sobre os ombros do irmo caula, que parecia ter cerca de seis 
ou sete anos. Os dois abaixaram as cabeas, evitando encarar as pessoas que lotavam a sala.
    - Esperem. - O jovem pregador ergueu a mo. - Acho que no compreenderam a oferta que estamos recebendo. - Ele olhou os membros da congregao. - Uma cidade 
como a nossa nunca poderia pagar ma professora, ou construir uma escola! Mas a srta. Jewel no espera se paga por seu servio. Est disposta a ensinar nossas crianas 
pelo simples prazer de lecionar.
    - E quanto  escola? - uma das mulheres perguntou.
    O reverendo virou-se para Prola.
    - Eu... - ela pensou depressa - espero poder converter um dos edifcios da fazenda para esse propsito.
    - Na sagrada terra dos Jewel? - O ton de Rollie Ingram era carregada de sarcasmo. - O que o todo poderoso Cal McCabe pensar sobre o assunto?
    Prola mordeu o lbio ao ouvir o nome do capataz da propriedade da famlia. Cal ficaria furioso quando tomasse conhecimento da notcia. Mas isso no erra novidade. 
Ele parecia sempre zangado em sua presena. Sentia a desaprovao do sujeito sempre que tentara impor um pouco de ordem e civilidade a essa terra rude.  mesa do 
jantar, enquanto bebia ch, ele franzia a testa. Na sala, quando abria um livro, erguia a cabea e o surpreendia observando seus movimentos com expresso carrancuda. 
Sempre aborrecido.
    O que ele via quando a fitava? No tinha idia. Mas, qualquer que fosse a imagem que invocava, devia ser muito desagradvel. Pensou nos primeiros dias que sucederam 
sua chegada, depois do brutal assassinato do pai. Durante todo esse perodo, no recordava uma nica vez em que Cal McCabe houvesse oferecido um sorriso. Oh, ele 
era corts, educado, mas no ia alm disso.
    - Cal est... Acampando numa das fronteiras - Prola respondeu. - Ele no sabe sobre minha idia de abrir uma escola. - Viu como os presentes trocavam sorrisos 
debochados e apressou-se em acrescentar: - Mas, assim que ele retornar, sei que dar sua aprovao.
    - S acreditarei quando ouvir essas palavras dos lbios de McCabe. - As palavras de Rollie foram seguidas por gestos afirmativos de outros paroquianos.
    - No importa - Prola ergueu a cabea. - Esmeralda, Jade e Rubi j aprovaram.
    Lavnia Thurlong torceu o nariz e cochichou para a amiga Gladys.
    - Aquelas arrogantes!
    Ao ouvirem o comentrio, vrias mulheres concordaram com um gesto na cabea.
    Prola tentou ignorar o n de tenso que comeava a enrijecer seus ombros e pescoo. Embora ela e as irms tivessem crescido ignorando a existncia uma da outra, 
j existia um forte lao de afeio a uni-las, e esse sentimento crescia e fortificava-se a cada dia de convivncia. Um lao que comeara na dor, e agora tornara-se 
alegria. Apesar do choque da descoberta, aos poucos se transformava em uma famlia.
    No entanto, aos olhos dos habitantes da pequena cidade, as irms Jewel seriam sempre objeto de riso.
    - Pelo que acabou de dizer, srta. Jewel, parece que voc e suas irms esto planejando permanecer em Hanging Tree. - Charles Spitz, assistente do inspetor, cutucou 
a esposa com o cotovelo e os dois trocaram um olhar cmplice.
    - No posso falar por minhas irms, mas afirmo que decidi criar razes aqui. - Prola olhou em volta, vendo a dvida e a suspeita nos olhos dos presentes. - 
Gostaria de set til, e acho que a melhor maneira de servir  cidade  dividindo meus conhecimento com sues filhos.
    - Escola  para crianas ricas - Rollie disparou. - Somos fazendeiros simples, e lutamos para arrancar a sobrevivncia da terra. Precisamos de toda a ajuda de 
que pudemos dispor. Caso no tenha notado, senhorita da cidade grande, estamos em plena primavera.  hora de plantar
    Ele ouviu os risos abafados dos paroquianos e viu o rubor que tingiu o rosto da professora, e a reao o fez prosseguir.
    - Nossos filhos trabalham conosco sol a sol. No h tempo de ir  escola. Alm do mais, as coisas que pode ensinar s nossas crianas jamais sero usadas aqui 
no Texas. Quer-se lecionar, senhorita Jewel, volte para Boston.
    Ele virou-se e saiu, empurrando os dois filhos em direo da porta.
    Prola viu que os outros fazendeiros preparavam-se para imit-lo e comeou a falar depressa, esperando poder convenc-los.
    - Sei que no escolhi o melhor momento, mas pretendo levar adiante o plano de abrir uma escola na Fazenda Jewel. Espero que alguns de vocs mandem seus filhos.
    - Obrigado, srta. Prola. - O reverendo Weston deixou-a sozinha no palanque improvisado e correu at a porta, onde se despediu dos que partiam com rpidos apertos 
de mo. 
    Quando decidiu deixar o armazm, Prola tambm disse adeus ao religiosos com um cumprimento formal.
    - Espero que compreenda - ele ofereceu com gentileza - que essas pessoas no esto rejeitando sua oferta delicada. E nem so egostas. Todos precisam realmente 
da cooperao de todos os membros da famlia para garantirem a sobrevivncia. A escola  um luxo com que muitos no podem sequer sonhar.
    - Eu entendo. Mas essas crianas merecem uma chance de construir algo melhor. O que estou oferecendo  uma viso de tudo que existe alm das fronteiras do Texas.
    O reverendo afagou a mo plida e fina.
    - Nesse caso, desejo que tenha toda a sorte do mundo. E rezarei por seu sucesso.
    Obrigado.
    Gostaria de acreditar que o Texas possua ministros em nmero suficiente para suavizar coraes to duros e independentes.
    Do lado de fora, as esposas dos fazendeiros retiravam cestas de comida das carroas e as levavam para um jardim cheio de rvores, onde se reuniam a outras famlias. 
quela hora breve e festiva era a nica interrupo que se permitiam na vida de tarefas interminveis.
    Prola deixou-se ficar por ali durante alguns momentos, esperando que algum se oferecesse para conversar ou convidasse para almoar. Mas, embora algumas mulheres 
sorrissem antes de afastarem-se, a maioria recusava-se at mesmo a encar-la.
    E o que esperava? Era filha do homem mais rico do territrio. Talvez de todo o Texas. O dinheiro era uma barreira concreta entre ela e essas pessoas, que mal 
conseguiam sobreviver. E, como se no bastasse isso, era uma forasteira. Uma mulher do leste, como alguns diziam, usando um tom reservado para os vilos e os fora-da-lei.
    Com um suspiro resignado, Prola subiu na carruagem e sacudiu as rdeas. Em minutos a cidade de Hanging Tree desaparecia atrs de uma cortina de poeira.
    Quando chegou  casa da fazenda, teve a feliz surpresa de ver o cavalo de Esmeralda. Essa jovem generosa, que abrira o lar e o corao para uma irm que nem 
sabia existir, sempre tornava o dia de Prola mais brilhante. Sorrindo, entregou as rdeas a um peo e entrou apressada.
    Esmeralda, Jade e Rubi ergueram os olhos para v-la passar pela porta da cozinha. No mesmo instante, Carmelita Alvarez, cozinheira e governanta da Fazenda Jewel, 
colocou uma panela com leite sobre o fogo para preparar o chocolate que Prola costumava beber no meio do dia. Jade preferia ch. Esmeralda gostava de caf forte 
e amargo. E Rubi tinha o hbito de beber limonada para aplacar a sede.
    Ao notar a expresso no rosto da recm-chegada, Esmeralda perguntou:
    - Pelo visto os habitantes da cidade no souberam apreciar sua oferta.
    - Palavras amenas para descrever a reao daquela gente. Acabei de saber que os moradores de Hanging Tree no querem uma professora. - Prola sentou-se  mesa. 
- Conhecem um homem chamado Rollie Ingram?
    Esmeralda afirmou com um movimento de cabea. Vestida nos costumeiros trajes de camura e couro, ela saboreava uma xcara de caf quente e forte.
    - Um homem duro com uma lngua muito ferina. Papai costumava dizer que a mulher dele s encontrou paz depois de morta.
    Prola estremeceu. Depois de um momento de silncio, disse:
    - A caminho de casa, estive pensando...
    - Oh, no! No outra vez! - exclamou um coro de vozes debochadas.
    Ignorando a provocao das irms, ela continuou:
    - Decidi que a melhor maneira de lidar com o problema  instalar a escola em algum lugar da fazenda, e depois convidar as pessoas para virem ver o que tenho 
para oferecer a seus filhos.
    - Corre o risco de ter muito trabalho por nada - Esmeralda apontou com a doura que sempre demonstrava em famlia. -  melhor estar preparada para no receber 
nenhum aluno.
    Por que perder tempo? - Jade perguntou. A beldade oriental bebia ch e sorria sempre que pensava no negcio lucrativo que a me havia administrado em San Francisco. 
Uma empreitada que pretendia duplicar em Hanging Tree. - Por que no construir um palcio do prazer, em vez de pensar nessa gente egosta e rude?
    - Ou contratar uma costureira capaz de criar elegantes vestidos de cetim e boinas de feltro, como dita a moda, chrie? - Rubi ofereceu. Essas eram as coisas 
de que mais sentia falta desde que deixara a vida anterior. No Texas era forada a tomar de linha e agulha para criar os prprios vestidos e no andar coberta de 
panos grosseiros e sem estilo, como faziam as mulheres da cidade.
    Ela abaixou o xale de franjas de cetim vermelho para revelar um vestido da mesma cor que moldava sua figura exuberante com uma segunda pele.
    - As mulheres de Hanging Tree a agradeceriam de joelhos.
    Prola permaneceu em silncio, rangendo os dentes.
    Esmeralda no conseguia conter o riso sempre que pensava nas diferenas entre das trs jovens. Agora que ela e Adam Winter eram marido e mulher, no as via com 
freqncia desejada, e sentia falta da constante batalha de estilos.
    - J encontrou um local adequado aos seus propsitos? - quis saber.
    - Estive explorando a fazenda. H um pequeno galpo vazio perto do riacho. Sabe para que ele  usado?
    Esmeralda afirmou com a cabea.
    - Foi  primeira cabana de papai, onde ele morava antes de ter dinheiro suficiente para construir a casa. No momento, creio que o lugar est abandonado.
    -  afastado da fazenda o suficiente para impedir que meus alunos perturbem os empregados, e perto o bastante para que eu possa cavalgar at l diariamente a 
tempo de me preparar para a aula.
    - Aula... - Esmeralda estudou a jovem sria e discreta que ainda parecia completamente deslocada em seu novo lar. - Sabe que as crianas de Hanging Tree precisam 
ajudar seus pais nas tarefas dirias? No acredito que tenham muito tempo ou energia para coisas como ler e escrever.
    - A vida  muito mais que arar a terra e alimentar o gado .- Prola olhou para Jade e Rubi em busca de apoio. - No concordam comigo?
    - Eu concordo - Rubi respondeu enftica. - A vida tambm  vestir roupas finas, calar sapatos elegantes e...
    - Desfrutar de todos os prazeres - Jade acrescentou.
    - No acredito em vocs! - Prola exclamou com um misto de frustrao e desnimo. - No pensam em nada alm de roupas e prazeres?
    - No percebe que elas esto apenas brincando? - Esmeralda interferiu, olhando para as outras duas com ar de censura. Incapaz de conter-se, deixou escapar um 
riso que at ento havia dominado e levantou-se para ir depositar um beijo carinhosos no rosto de Prola. - Se quer transformar a velha cabana de papai numa sala 
de aula e encher as cabeas das crianas com letras e nmeros, pode contar com meu apoio. Seria bom ver o velho lugar servindo para algum propsito. - E vocs, o 
que dizem? - Ela olhou para Jade e Rubi.
    As duas sorriram e concordaram com entusiasmo.
    - Faa como quiser, chrie. - Rubi terminou de beber a limonada. - Desde que no pea a minha ajuda... Nunca gostei muito de ir  escola.
    - Nem eu - Jade apressou-se em revelar com uma expresso de desgosto. - Mas creio que lecionar  uma tarefa nobre.
    - Bem, ento s precisamos ouvir o volto de Cal. - Prola olhou para Esmeralda com ansiedade. - Voc o conhece desde que nasceu. O que acha que ele dir?
    O sorriso desapareceu dos lbios dela como que varrido por um vento gelado. Podia imaginar qual seria a reao do capataz quando soubesse que a fazenda seria 
invadida pelas crianas da cidade. Os empregados costumavam dizer que Cal McCabe era um chefe muito duro, exigente, e que possua um temperamento explosivo. Um homem 
competente com os punhos e as pistolas. E um indivduo que, uma vez decidido, era intransigente como uma rocha.
    - Ele vai protestar. Violentamente. Acho melhor nos reunirmos com McCabe assim que ele voltar do acampamento na fronteira. Assim ele ter tempo para ouvir os 
nossos argumentos e pensar no assunto com calma, ponderando todos os aspectos da questo.
    Notando a expresso desanimada de Prola, ela seguiu:
    - No se preocupe. Seremos trs a apoi-la. Com o tempo, Cal ouvir a voz da razo. - Melhor cruzar os dedos s costas para no ser castigada pelo pecado de 
mentir. - Agora preciso ir. - Depois de abraar as trs irms, beijou os rosto de Carmelita e dirigiu-se  porta. - Prometi a Adam que o acompanharia at a margem 
sul.
    Todos tinham conscincia da ternura que vibrava em sua voz sempre que referia-se ao marido. Casados h menos de dois meses, tornaram-se inseparveis. Era evidente 
que o amor havia enriquecido suas vidas. A fazenda do casal, vizinha  terra dos Jewel, j comeara a prosperar.
    Prola acompanhou a irm e a viu montar com elegncia e experincia. Em silncio, abriu a sombrinha cor-de-rosa de que jamais separava-se e usou-a para proteger 
a pele dos raios do sol inclemente.
    - Espero que esteja certa sobre Cal. Essa escola  meu maior sonho. Receio que ele a despreze como uma fantasia tola.
    - Jamais pense que seus sonhos so tolos, Prola. - A voz de Esmeralda assumiu uma nota solene. - Papai costumava dizer que os texanos so diferentes do restante 
da humanidade. E talvez sejamos. Mas creio que o que nos torna to especiais  a possibilidade de conhecermos todas essas pessoas que vm para c com a cabea e 
o corao cheio de sonhos. Adam  um bom exemplo. Ele chegou em busca de paz e de um pedao de terra ainda melhor do que aquele que havia deixado em Maryland depois 
da guerra. E o seu sonho de abrir as portas do mundo para as nossas crianas. Continue perseguindo seus sonhos, minha querida e transforme-os em realidade.
    Com as palavras de Esmeralda ecoando na memria, Prola partiu para ir examinar a velha cabana. Agora, mais do que nunca, estava disposta a transform-la numa 
escola. A primeira morada de seu pai seria o lugar onde dividiria tudo que aprendera com as crianas de Hanging Tree.
    
    
    Captulo 2
    
    Cal McCabe esfregou os olhos cheios de areia. A metade inferior de seu rosto estava coberta pela sombra escura da barba. Passara a semana anterior carregando 
suprimentos para Will Culver, que trabalhava no isolado acampamento montado na fronteira noroeste da vasta Fazenda Jewel. L chegando, emendara cercas e cortara 
lenha para a construo do novo galpo que seria usado como depsito. Na viagem de volta, reunira um rebanho de reses perdidas e comeara com menos de uma dzia 
e ultrapassara a casa do cem. Os animais seguiam  frente dele, movendo-se numa onda negra preguiosa e relutante.
    Quando o cavalo terminou de vencer a ltima encosta, Cal deixou-se inebriar pela viso da grande casa da fazenda e dos galpes que a cercavam. O lugar era seu 
lar desde que completara doze anos de idade. Joseph Jewel acolhera o moleque magro e faminto e o transformara no mais duro e competente vaqueiro do Texas. Mais importante, 
confiara nele a ponto de encarreg-lo do mais precioso tesouro que conseguira conquistar: a fazenda. Pensar que agora era um dos proprietrios daquela terra abenoada 
o enchia de felicidade.
    Estava ansioso para chegar em casa. S pensava num bom banho quente, em roupas limpas e numa garrafa de usque.
    O rebanho, sentido cheiro de comida ao final da tediosa jornada, atirou-se em uma corrida desenfreada. A montaria de Cal imitou as reses.
    De repente,  frente da longa esteira de cabeas escuras, ele viu um vulto cor-de-rosa. Uma mulher descuidada colocara-se diretamente no caminho do gado enlouquecido, 
e agora estava paralisada pelo terror, as mos agarradas numa ridcula sombrinha e os ps cravados no cho da terra.
    - Prola! - O nome foi arrancado de seus lbios, embora soubesse que ela jamais poderia ouvi-lo acima do som ensurdecedor da correria dos animais.
    Cal praguejou em voz alta, furioso, e cravou os calcanhares nos flancos do cavalo, que lanou-se num galope veloz. Cortando caminho por entre as dezenas de vacas 
assustadas, cavalo e cavaleiro voavam como se fosse carregados pelo vento. E durante todo o tempo, Cal enxergava apenas o vulto cor-de-rosa.
    Quanto mais rpido o cavalo galopava, maior era o desespero do gado para super-lo. O lder do rebanho atirava-se na direo de Prola, seguido de perto por 
todos os outros animais.
    Sentindo que o cavalo comeava a dar sinais de cansao, Cal decidiu lanar mo de um truque desesperado para obrig-lo a prosseguir sem perder a velocidade. 
Inclinando-se at apoiar o rosto na crina macia, deu alguns gritos no ouvido da montaria, que reagiu conforme o esperado. Alcanando uma velocidade assustadora, 
o cavalo ultrapassou o boi que conduzia o rebanho e seguiu em frente na direo da silhueta rosada.
    Estavam quase chegando... Cal jogou o corpo para a esquerda, soltou uma das mos que at ento mantinha firme nas rdeas e, com um movimento firme e rpido, 
enlaou a figura frgil e apavorada, erguendo-a no ar como se fosse uma boneca de pano. O cavalo obedeceu ao comando do cavaleiro e virou  esquerda, parando de 
repente enquanto o rebanho passava disparado.
    Sem uma nica palavra, Cal a colocou no cho e escorregou da sela. Seu rosto era o retrato de fria, e o fogo que iluminava os olhos profundos escondia o terror 
que at pouco antes o dominara.
    - Maldio, mulher, tem idia de como esteve perto de ser pisoteada?
    - Eu... - Ela levou a mo  garganta, tentando respirar. A cor abandonara seu rosto. Era evidente que ainda estava tomada de medo, e que s mantinha-se em p 
a custa de muito esforo.
    Queria atirar-se nos braos do caubi e agradecer por ter salvado sua vida. Queria chorar de alvio. Mas o orgulho e o comportamento sempre impecvel a impediram 
de ceder aos impulsos naturais. Em vez disso, ergueu a cabea e encarou-o com uma expresso que podia ser interpretada como arrogante. 
    - No... Consegui sair do lugar. Nunca me senti ta impotente em toda minha vida.
    - Impotente. - Cal no conseguia esconder o desgosto. - No h lugar no Texas para mulheres impotentes. - Ele olhou em volta, e por isso no notou a expresso 
ferida que passou pelo rosto plido. - O que est fazendo aqui, to longe de casa?
    - Queria... Examinar minha nova sala de aula.
    Cal virou a cabea como se houvesse sido atingido por uma chicotada. Os olhos tornaram-se mais estreitos, atentos e cautelosos.
    - Sua... O qu?
    Prola engoliu em seco.
    - As crianas de Hanging Tree precisam aprender algumas coisas bsicas. E eu sou professora. Ento pensei...
    - Voc pensou? - As mos ainda tremiam de medo, raiva e nervosismo. Para escond-las, cerrou os punhos com fora. - Duvido que seja capaz de um ato to simples. 
O que temos aqui  uma fazenda! - O tom de voz e postura tornaram-se to ameaadores que ela encolheu-se. - No quero meus empregados servindo de babs para uma 
mulher intil e um punhado de crianas sujas e choronas.
    - Mulher intil? - Prola cerrou os lbios, apertando-os at ficarem sem cor. No havia sido exatamente essa a reao que antecipara? Sabia que um homem grosseiro 
e rude como Cal McCabe jamais entenderia a importncia do aprendizado. Mas de todos os insultos que ele poderia lanar, esse fora o pior. Um rubor intenso coloriu 
seu rosto e ela levou as mos  cintura. - As crianas de Hanging Tree merecem uma educao apropriada.
    Os efeitos cumulativos da longa e cansativa viagem e o medo que experimentara ao v-la parada diante do rebanho deram um toque ainda mais rspido ao temperamento 
de Cal.
    - Recuso-me a discutir esse assunto com voc. Resolverei a questo com Esmeralda. Pelo menos ela entende como uma fazenda funciona.
    Mais um golpe contra o j to ferido orgulho de Prola.
    - Esmeralda concorda comigo. Ela sugeriu que fizssemos uma reunio.
    - Uma reunio? Para que?
    - Para... Persuadi-lo sobre a convenincia de instalarmos a escola dentro dos limites da fazenda. - A situao no estava de desenvolvendo conforme havia esperado. 
Escolhera o lugar errado e momento inadequado para debater o tpico de importncia vital. A cada palavra que pronunciava, aumentava o abismo de diferenas que os 
separava. Mas agora que comeara, no seria capaz de parar.
    Cal resmungou um palavro.
    - Joseph Jewel voltaria do alm-tmulo se soubesse que a fazenda que construiu com esforo e trabalho seria transformado num playground. Esmeralda tem o dever 
de honrar os desejos do pai.
    - Devo lembr-lo do que Joseph tambm era meu pai. E no permitirei que me trate como uma... Como uma forasteira. - Perdida em meio  prpria frustrao, esqueceu 
de controlar o sotaque de Boston, que tornou-se mais marcante.
    Cal quase comentou que ela era realmente uma forasteira, mas de repente os olhos foram atrados pelas manchas escuras no vestido cor-de-rosa. Ndoas provocadas 
por suas mos quando a erguera do cho para salv-la dos bois. Pareciam estranhas em algum sempre to perfeita e impecvel. Como ela reagiria se arrancasse aquelas 
fitas inteis e despenteasse seus cabelos? Ou, o que faria se abrisse a interminvel fileira de minsculos botes que iam da gola  barra do vestido? Gostaria de 
saber se o corpo sempre to bem escondido era perfeito como os trajes que o protegiam.
    A idia provocou uma fina camada de suor que lhe cobriu a testa e distendeu seus lbios num sorriso suave.
    Imediatamente, Prola franziu a testa.
    - Est rindo de mim?
    McCabe baniu o sorriso do rosto, aborrecido com a direo dos prprios pensamentos.
    -  claro que no! Por que faria tal coisa? O que aconteceu aqui, ou quase aconteceu, graas a Deus, no  motivo de riso. - Ele abaixou-se para recolher o que 
restara da sombrinha. As varetas estavam arruinadas alm de qualquer possibilidade de reparo, e o tecido pendia em tiras. Ao ver o aparato destrudo, sentiu que 
a raiva crescia. Podia ter sido ela. Podia ser o tecido de seu vestido cor-de-rosa rasgado em pedaos, ou o corpo delgado estraalhado de maneira irremedivel. O 
pensamento provocou um tremor violento que o sacudiu. Mal podia controlar a fria que o tomava de assalto.
    - Isso  o que acontece com qualquer coisa ou pessoa descuidada o bastante para permanecer na frente de um rebanho enlouquecido. - Cal sacudiu a sombrinha destruda 
diante do nariz dela.
    - Tentarei me lembrar do que disse. - Prola estendeu a mo para o artefato.
    A raiva de Cal cresceu. A mulher era fria como um bloco de gelo! E no tinha a menor conscincia do quanto estivera perto de...
    Em vez de devolver a sombrinha, ele a segurou pelo brao e puxou-a.
    Viu os olhos de Prola aumentarem de tamanho, invadidos pelo medo, e praguejou contra a prpria insensatez. Mas no conseguia se conter-se. Pensar no que quase 
acontecera o deixava descontrolado.
    - Se tivesse um mnimo de bom senso, embarcaria na primeira carruagem de volta a Boston.
    Ela tentou empurr-lo, espalmando as mos em seu peito.
    - Vai acabar descobrindo que no me assusto com facilidade.
    Cal puxou-a de encontro ao corpo, prendendo as mos delicadas junto ao peito. Prola sentia o hlito quente no rosto, e estremeceu ao ouvir a voz grossa e furiosa.
    - Mais uma prova de sua falta de juzo.
    Devia t-la soltado nesse momento. Devia ter se virado e partido sem sequer olhar para trs. Mas era impossvel. O temperamento explosivo, to conhecido em todo 
o territrio de Hanging Tree, finalmente o dominara. Alm do mais, o calor da pele em suas mos e do corpo colado ao dele aquecia seu sangue, dificultando a simples 
tarefa de respirar.
    - Devia estar morta de medo. - Os dedos enormes a calejados seguraram uma mecha de cabelos mais suaves que a seda. Afastando-se alguns centmetros, encarou-a 
e viu que os olhos claros estavam tomados por um misto de choque e apreenso. Sem pensar no que estava fazendo, Cal provou o sabor dos lbios rosados e descobriu 
que estava perdido.
    Prola deixou escapar um gemido e tentou afastar-se, mas ele foi mais rpido e muito mais forte.
    Podia sentir o gosto do medo. Do ultraje. E de algo mais que no saberia identificar. Sob o verniz de frieza e controle existia paixo. Oh, ela a mantinha escondida, 
trancafiada, mas o sentimento estava l. E quando o beijo aprofundou-se, pode sentir a emoo borbulhando, lutando para vir  tona. Era a coisa mais sensual que 
jamais experimentar.
    Os dedos, apoiados sobre o peito, aos poucos agarraram a camisa. O som de protesto transformou-se num suspiro antes que ela pudesse dominar-se e engoli-lo. Embora 
o beijo fosse estranho e os lbios tremessem levemente, eles moviam-se sob os dele, acelerando sua pulsao at quase fazer o corao explodir de paixo e desejo.
    Sabia que isso tinha que acabar. Mais queria mais um segundo de prazer. Depois de absorver o calor, o sabor e o cheiro da mulher que tremia em seus , Cal ergueu 
a cabea e deu um passo atrs, rompendo o contato. Viu o brilho confuso nos olhos dela. Prola piscou e a expresso suave desapareceu substituda pelo desdm de 
um professora austera cujo aluno acabara de cometer uma falta imperdovel
    - Existem muitos perigos a serem evitados no Texas. - Estava surpreso com a dificuldade que encontrava para pronunciar as palavras. Especialmente com o gosto 
dela ainda nos lbios.
    - Vou me lembrar disso. - Sentia a garganta seca como se houvesse acabado de engolir um punhado de areia, mas no daria a ele a satisfao de saber que a abalara 
to profundamente. - No so apenas serpentes e escorpies que vivem atrs das rochas, espreitando e esperando por uma presa, no ?
    Cal levantou uma sobrancelha. Tinha de admitir que a professora era mais dura do que imaginara a princpio.
    Contendo um sorriso de admirao, ps os restos da sombrinha na mo dela e, sacudido por um violento tremor ao sentir o contato entre os dedos, virou-se apressado.
    Prola o viu dar alguns passos e disse:
    - Vou pedir a Esmeralda para comparecer  reunio essa noite.
    - Lamento, mas estarei ocupado - ele respondeu sem encar-la ou parar.
    - Ento marcaremos o encontro para uma hora menos importuna. Antes do jantar. Precisamos resolver essa questo o mais depressa possvel.
    - Creia-me, senhorita, esse assunto ser decidido muito mais cedo do que imagina.
    Ela o viu montar com um movimento rpido e gil. O corpo do caubi era musculoso, firme, esguio e bronzeado.
    Um animal magnfico. 
    Um oponente perigoso.
    Cal tocou a aba do chapu numa saudao silenciosa e desapareceu em meio a uma nuvem de poeira.
    
    Cal obrigava a montaria a seguir numa velocidade espantosa rumo ao rebanho. Enquanto cavalgava, censurava-se pela cena ridcula que protagonizara pouco antes. 
Em que estava pensando, afinal? Por que deixara-se dominar pelo temperamento explosivo? Uma mulher como Prola estava fora de seu alcance. Jamais se interessaria 
por um grosseiro como ele. No que isso tivesse alguma importncia. Pensando bem, ele tambm no era seu tipo de mulher. Educada demais, recatada em excesso, sempre 
to sria e carrancuda... Perfeita. Preferia as garotas do saloon. Elas conheciam as regras. Sem promessas. Sem complicaes. Apenas um pouco de prazer e uma despedida 
ainda mais rpida.
    Cal decidiu tirar Prola da cabea, mas no era fcil. O sabor de seus lbios, fresco como uma chuva de primavera, estava gravado para sempre em sua boca. O 
cheiro dos cabelos sedosos entranhara-se em suas narinas, enchendo os pulmes a cada vez que respirava. Olhou para as prprias mos, speras e calejadas. Mo que 
havia sujado o vestido fino da dama da cidade. Embora estivessem segurando as rdeas, podia imagin-las em torno daquela cintura delgada e tentadora, ou afagando 
a pele plida, macia e perfumada. As batidas de seu corao tornaram-se mais rpidas.
    Aborrecido, fez o animal cavalgar mais depressa e ocupou-se com a tarefa de tocar o rebanho para um curral. Um grupo de pees j esperava com a porteira aberta.
    - Ei, Cal! - Um deles gritou.
    McCabe tocou o chapu e acenou. Satisfeito, notou que mais caubis aproximavam-se para auxiliar na rdua misso de cercar animais at ento habituados  liberdade.
    - Contei cento e vinte e um. - Um dos rapazes avisou pouco depois, montado na cerca do curral. - Parece que esteve ocupado.
    Cal afirmou com um movimento de cabea e desmontou.
    - Vim reunindo esses animais ao longo do caminho. Providenciem para que sejam mascados amanh cedo. Vamos acrescent-los ao rebanho do pasto norte
    - Certo. Como Culver est se saindo no acampamento - o mesmo caubi perguntou.
    O sorriso de Cal foi lento, debochado.
    - Acho que o pobre coitado est feliz com a aproximao do fim do perodo de isolamento. Sente saudade dos amigos e est ansioso para passar algumas noites em 
Hanging Tree. Na verdade, sou forado a admitir que tambm experimentei a mesma ansiedade.
    O vaqueiro deu uma palmada em sua costas.
    - Pensei que, agora que se mudou para a casa da fazenda, is preferir passar as noites saboreando os pratos deliciosos de Carmelita e dormindo no colcho macio 
do velho Joseph. Com aquela coleo de bebidas finas, por que submeter seu estmago ao usque barato de Buck?
    McCabe levou sua montaria para o estbulo e, enquanto caminhava, respondeu por cima do ombro:
    - Buck tem muito mais a oferecer naquele saloon que algumas doses de usque.
    Todos os empregados riram e correram a terminar suas tarefas. Se o chefe pretendia seguir para a cidade mais tarde, no perderiam a oportunidade de se divertirem.
    No estbulo, Cal escovou o cavalo e serviu a rao de feno e gua fresca dentro da baia. Depois de cumprir cada passo da operao sem nenhuma pressa, bateu o 
chapu contra a coxa, espalhando um nuvem de poeira  sua volta, antes de sair pela porta que havia ao ptio.
    Estava passando pela frente do alojamento dos empregados quando notou que Cookie assava um pedao de carne sobre o fogo aceso no cho.
    - Culver passa o tempo todo falando no seu tempero - comentou.
    O homem com pele grossa e escura como o couro envelhecido tirou o cachimbo da boca e riu, revelando uma falha onde deveriam estar alguns dentes.
    - Aposto que minha comida o faz pensar na mame e em como era bem tratado antes de sair de casa.
    Cal afirmou com a cabea.
    - Para ser bem franco, ele diz que a me foi a pior cozinheira que conheceu. Por isso o coitado  to apaixonado pela comida que voc prepara. Digamos que  
um substituto e tanto.
    Cookie riu e deu uma palmada nas costa do caubi, divertindo-se com a piada.
    - Vamos  cidade mais tarde?
    -  claro que sim! Mal posso esperar para me divertir um pouco. - McCabe despediu-se com um aceno e dirigiu-se  casa da fazenda.
    Era difcil acreditar que passara do alojamento  sede num espao de quinze anos. Ainda se surpreendia sempre que pensava que agora era um dos proprietrios 
do magnfico pedao de terra, graas ao testamento generoso de Joseph Jewel. Mas a verdade era que teria trocado toda essa prosperidade pela companhia do velho Joseph. 
Se pudesse t-lo de volta... Nenhum homem havia sido to importante em sua vida, e ningum jamais o tratara melhor. Como um irmo, ou um filho. Por causa de Joseph, 
o passado fora enterrado e o futuro estava garantido.
    - Seor Cal! - A governanta exclamou ao v-lo passar pela porta.
    - Ol, Carmelita. Humm! Esse cheiro  delicioso! Melhor que o da comida de Cookie.
    Carmelita abaixou a cabea, constrangida com o elogio inesperado. Embora ela e Cookie dividissem as receitas e os suprimentos, sabia que a culinria do alojamento 
era simples e medocre, tolerada apenas pelos vaqueiros. Os pobres coitados no tinham outra escolha, e por isso comiam o que havia na mesa.
    -Preparei tortilhas. E rosbife para a srta. Prola.
    - Ela ainda no aprendeu a saborear os pratos do Texas?
    A cozinheiro negou com um gesto da cabea.
    - Ela resiste, mas um dia acabar cedendo. Voc vai ver. E agora suba. Preparei uma tina de gua quente e deixei a toalha em seu quarto.
    Cal beijou-a no rosto.
    - Voc  um anjo de misericrdia. De quanto tempo disponho?
    Carmelita ergueu a tampa da panela sobre o fogo e mexeu um molho borbulhante, espalhando uma nuvem aromtica por toda a cozinha.
    - Uma hora. No, duas.
    Ele serviu-se de um biscoito quente deixado num prato sobre a mesa e dirigiu-se  porta.
    - No sei se poderei esperar tanto tempo.
    Mas quando subiu a escada e entrou na sute que um dia havia pertencido a Joseph Jewel, Cal esqueceu o tempo. Era suficiente saber que estava em casa. Seu lar. 
Olhou em volta e examinou o quarto espaoso como se entrasse nele pela primeira vez, apreciando a grande cama de casal, as cortinas pesadas e a lareira construda 
com pedras. No aposento contnuo havia uma escrivaninha e vrias cadeiras confortveis, algumas estofadas. Janelas amplas ofereciam uma viso fascinante das montanhas 
brilhando sob a neve acumulada no topo do pico da Viva, que erguia-se majestoso sobre a superfcie espelhada do riacho do Veneno.
    Cal despiu-se e acomodou-se na tina de gua morna. Usando a caixa de fsforos que deixara num banco prximo acendeu um cigarro, deu uma tragada e fechou os olhos. 
Era como estar no paraso.
    O som de risadas femininas e os passos no corredor indicaram que Prola e suas irms passavam pela porta de sua sute, falando como papagaios excitados. 
    Ah! At mesmo o paraso tem suas pequenas imperfeies.
    
    
    Capitulo 3
    
    - Desculpe arruinar sua primeira noite em casa com assuntos desagradveis - Esmeralda murmurou ao beijar o rosto de Cal. - Mas essa reunio nos deu uma tima 
desculpa para ficar para o jantar.
    Adam Winter, seu marido, apertou a mo do capataz e disse:
    - Decidi vir tambm para no deix-lo em desvantagem numrica.
    - No estou preocupado. - Cal olhou para Prola, que sentara-se entre Jade e Rubi em busca de apoio. - J enfrentei coisas piores.
    - No estamos aqui para brigar! - Esmeralda parou de falar quando Carmelita movia-se pela sala, oferecendo vinhos s mulheres e usque aos homens. Assim que 
a governanta saiu, ela continuou: - Mas como ns cinco temos partes iguais na fazenda,  justo que todos aprovemos quaisquer mudanas.
    - Concordo. - O tom de Cal era surpreendentemente cordial, e ele sorriu antes de beber um gole do usque.
    - Acho que devemos ouvir os motivos de Prola para desejar abrir uma escola. - Esmeralda virou-se para a jovem que mantinha as mos cruzadas sobre os joelhos.
    -  uma tima idia. - McCabe disparou um olhar de desafio na direo dela.
    Com esforo, Prola encarou-o e desviou os olhos antes de levantar-se. Era impossvel deixar de notar a beleza do capataz. E o perigo que o cercava. Gotas de 
gua ainda cintilavam em sues cabelos escuros. Com o rosto barbeado, todas as cicatrizes e marcas de pele pareciam mais definidas, e realavam o queixo forte e orgulhosos. 
No era um homem realmente bonito, ela corrigiu-se em pensamentos. Mas imponente. Poderoso. Os olhos escuros eram o trao mais marcante, desafiando qualquer ser 
humano encar-lo. A camisa branca contrastava com a pele bronzeada. Sem contar com a musculatura, que se destacava ao menor movimento dos braos.
    Prola irritou-se com a tranqilidade de Cal, especialmente porque sentia-se tensa e agitada. Ruborizava cada vez que olhava na direo dele, lembrando-se do 
beijo que haviam trocado. Esperava que se mostrasse constrangido em sua presena, arrependido pela ousadia, ou pelo menos frio e evasivo, mas ele parecia satisfeito 
com o que devia considerar uma grande proeza.
    - Como minha me, estudei na Escola Feminina da srta. Thackery, em Boston, e sou professora diplomada. - Enquanto falava, Prola percebeu que devia soar arrogante 
e presunosa. - E, como minha me, anseio por uma oportunidade de moldar os coraes e mentes dos mais jovens. Quero encher suas cabeas de conhecimento. Alargar 
seus horizontes e ampliar o pequeno mundo em que vivem, levando-os a reconhecer a existncia de dimenses muito maiores alm dessas fronteiras.
    Meia dzia de argumentos flutuavam na cabea de Cal. Mas a idia de alargar o horizonte de uma criana o tocara mais profundamente do que gostaria de admitir. 
Alm do mais, olhar para Prola era o suficiente para coloc-lo em desvantagem. Essa noite ela usava um vestido azul-claro com botes de madreprola que iam da gola 
alta at a cintura. Os cabelos dourados eram mantidos longe do rosto por pentes incrustados de pedras que refletiam a luz dos lampies. Era uma dama perfeita. E 
completamente intocvel. Segurando o copo com mais fora para no perder o domnio sobre as mos, ele desviou os olhos da figura tentadora.
    -Suas intenes so muito nobres. Mas por que aqui na fazenda? - perguntou com tom de desaprovao. - Por que no pode instalar uma escola na cidade?
    Os outros ouviam atentos, sem interromper a discusso. Todos compreendiam que o duelo entre Cal e Prola, e ningum estava disposto a conceder vantagem a qualquer 
uma das partes.
    - Como a maioria das fazendas localiza-se nessa regio, nossas terras representam uma localizao mais central e favorvel. Alm do mais, no h nenhum espao 
disponvel na cidade. - Agora ela estava mais perto, as mos cruzadas  frente do corpo. De acordo com os clculos que fiz, a maior parte dos alunos chegar aqui 
depois de uma hora de cavalgada, no mximo.
    - Uma hora para vir, outra para voltar. - Cal balanou a cabea. - Tempo demais para quem tem tarefa a cumprir. 
    Mais uma vez aquela irritante nota de desaprovao.
    - Entendo que os habitantes de Hanging Tree sobrevivem com esforos, mas esse  o preo pequeno comparado ao conhecimento que podero adquirir.
    - No  um preo pequeno para as famlias envolvidas. Muitos desses fazendeiros mal conseguem ganhar o suficiente para a sobrevivncia. Cada minuto que passam 
acordados  utilizado para arar a terra e cuidar dos animais. Poucos podem se dar ao luxo de dispensar um trabalhador.
    - Estamos falando de crianas, Cal!
    - Numa fazenda, as crianas fazem o trabalho dos adultos. Quanto mais filhos tm um homem, mais terra ele pode trabalhar. Uma menina de oito anos pode cuidar 
de um beb e preparar o jantar, enquanto a me planta o milho ao lado do pai. E um garoto de dez anos pode realizar as tarefas de um homem, especialmente se o pai 
estiver fora, tocando uma boiada para ganhar algum dinheiro extra e comprar comida.
    - Eu... No havia pensado nisso. - Prola havia tido uma viso rpida de algumas fazendas da rea, e vira casas que mais pareciam barracos e rebanhos espalhados 
por grandes extenses de terra que um homem levaria dias para percorrer a cavalo. - Entendo que pode ser difcil para algumas famlias enviarem suas crianas  escola, 
mesmo que s por algumas horas. Mas e quanto aos outros, os que podem dispor de tempo? Est dizendo que no devo me colocar  disposio deles?
    - De jeito nenhum! - Cal protestou com veemncia. - Minha maior objeo  abrir a Fazenda Jewel para tantas pessoas estranhas. Por uma questo de segurana, 
gostaria de manter nossa propriedade fora do alcance dos habitantes da cidade.
    - Segurana? - Prola olhou as irms em busca de esclarecimentos.
    - As ordens de papai eram claras. Qualquer pessoas que tentasse invadir o territrio Jewel deveria ser detida. - Esmeralda explicou.
    - Mas por qu?
    - Ganncia - Cal respondeu com objetividade. - Quando um homem alcana o sucesso que Joseph Jewel conseguiu, outros comeam a pensar que tm direito a desfrutar 
o sucesso da Fazenda Jewel.
    Prola levou a mo  boca para abafar um gemido de alarme.
    - A ganncia foi o que levou um homem a assassinar o seu pai. E no pense que o sentimento morreu com o assassino. Existem muitos outros que ainda se ressentem 
com o sucesso da Fazenda Jewel.
    - Mas o que tudo isso tem a ver com meu desejo de abrir uma escola?
    O tom de Cal revelava impacincia.
    -  evidente que seu pai sabia como proteger os bens da famlia melhor do que voc. - Ele esvaziou o copo de um nico gole e virou-se.
    Prola sentiu o golpe to forte quanto se ele houvesse a esbofeteado
    O jantar est pronto. - Carmelita interrompeu.
    - timo. Estou morto de fome. - McCabe envolveu a jovem professora num olhar desafiante. - Tem mais alguma coisa a dizer sobre esse assunto?
    - Sinto muito pela distncia que as crianas tero de percorrer. E lamento ter de abrir a nossa fazenda a estranhos. Mas estou determinada a usar o que aprendi 
para melhorar a vida das pessoas de Hanging Tree. Como ou sem sua aprovao.
    - Ento ter de seguir em frente sem ela. - Ele dirigiu-se  porta.
    - Est dizendo que nunca aprovar? - Prola insistiu, apesar de o capataz estar quase saindo da sala.
    - Foi exatamente o que acabei de dizer.
    Cal deixou o aposento e os outros trocaram olhares apreensivos, sem saber como agir.
    - Vamos. - Esmeralda decidiu, dando o brao para o marido. - Depois do jantar, talvez possamos recuperar nosso senso de civilidade.
    O casal deixou a sala seguido de Jade e Rubi.
    Prola permaneceu onde estava, tomada por uma sbita onda de raiva. Havia conseguido retirar as manchas do vestido cor-de-rosa, que deixava secando num cabide 
em seu quarto. Mas as impresses que o capataz deixara em sua alma, a sensao de fogo que os lbios despertaram em sua boca, eram coisas que jamais poderia lavar 
com um pouco de gua e sabo. E agora, como que para provar sua superioridade masculina, ele havia desferido o golpe definitivo. Desprezara-a Como se fosse um dos 
empregados.
    Ao erguer a taa de vinho que deixara sobre uma das mesas prximas do sof, notou que os dedos tremiam e respirou fundo para controlar-se. No precisava da aprovao 
de Cal McCabe para viver, e provaria isso a ele.
    O que um homem pode fazer num acampamento perto da fronteira? E durante meses! - Rubi salpicava acar e canela sobre o caf forte misturado com creme batido. 
Essa era a nica maneira possvel de engolir a bebida forte, pois o sabor trazia de volta a lembrana do caf ao lait que costumava saborear em seu bayou.
    Comeram na grande mesa da cozinha, j que na sala de jantar era reservada apenas para grande ocasies, quando recebiam visitas.
    Enquanto Prola lutava contra a depresso, Cal mostrava-se quase eufrico.
    Ele ria.
    - Vai ter de perguntar a Culver. Ele quase me enlouqueceu recitando todas as tarefas que ainda precisava terminar. Mal tive tempo para comer ou dormir, com todo 
aquele trabalho a ser feito.
    - Como consegue convencer algum a aceitar um trabalho solitrio? - Jade perguntou com sua voz melodiosa. Ela usava um vestido de seda verde com gola chinesa 
e botes de madeira. Os cabelos negros caam lisos at a cintura, e os olhos amendoados estavam cheios de curiosidade.
    - Dinheiro. - Cal levou o garfo  boca e saboreou a tortilhas apimentadas, acrescentando mais uma poro de pimentas vermelhas picadas ao prato. - Todo empregado 
que se oferece para passar seis meses no acampamento recebe uma gratificao extra, uma maneira de compensar o trabalho duro e as longas horas de solido.
    Rubi arrepiou-se e ajeitou o xale em torno dos ombros.
    - No suportaria passar tanto tempo sozinha. Preciso de pessoas  minha volta.
    Jade concordou com um movimento na cabea.
    -E quanto a voc chrie? - Rubi tentou incluir Prola na conversa, j que ela no dissera uma nica palavra desde que sentara-se  mesa do jantar.
    - No suportaria o isolamento - foi  resposta curta. - Especialmente num lugar to primitivo.
    Primitivo. O termo o aborreceu. Essa princesinha de Boston falava como se o Texas fosse o fim do mundo!
    - Todos acabam se habituando. Passei a maior parte da minha visa sozinho, e sobrevivi - comentou com tom seco.
    - J esteve no acampamento na fronteira? Jade quis saber.
    Ele afirmou com a cabea.
    - Ao longo desse quinze anos, acho que j acampei cerca de uma dzia de vezes. Talvez mais.
    Houve uma exclamao coletiva.
    - E isso nunca o incomodou? - Jade perguntou.
    Cal encolheu os ombros.
    - Conseguia manter-se sempre ocupado. E quando sentia necessidade de conversar, falava com meu cavalo. Ou com o gado. - Ele engoliu mais um biscoito caseiro 
e Carmelita antes de prosseguir. - H algo de gratificante em estar sozinho. Um homem pode pensar sobre uma srie de coisas, refletir sobre a prpria vida, ler...
    - Sabe ler? - Prola o interrompeu.
    McCab levantou uma sobrancelha e, mais uma vez, ela pde sentir seu olhar gelado.
    - Acha que  a nica criatura aqui a ter aberto um livro?
    Envergonhada, a professora mordeu o lbio inferior.
    - Eu enlouqueceria - Rubi afirmou com um tremor exagerado. - Se soubesse que teria de passar meses sozinha num acampamento, certamente perderia o juzo.
    - Ficaria surpresa com o que o ser humano  capaz de fazer num momento de necessidade. - A resposta do capataz era carregada de sentimento.
    Prola encarou-o, imaginando o que teria provocado to sbita paixo.
    - Seor Cal - Carmelita interrompeu - para comemorar seu retorno, preparei sua sobremesa favorita. - Colocou uma fatia de torta de maas, ainda morna do forno, 
diante dele.
    Assim que todos foram servidos o capataz entregou-se ao prazer de saborear o doce.
    -Ah, Carmelita! - Suspirou com um sorriso nos lbios. - Quer se casar comigo?
    A governanta riu como uma colegial.
    - Jos arrancaria sua cabea se o ouvisse dizendo tais coisas.
    - Ele teve sorte de t-la encontrado primeiro. - Cal terminou de comer a torta e esvaziou a xcara de caf. - Se algum dia se cansar daquele velho rabugento, 
no esquea de me avisar. Voc  o sonho de qualquer caubi.
    - E voc  o tipo de homem que jamais se casar - Esmeralda opinou, empurrando o prato vazio.
    - Por que no?
    - Porque j  casado com a fazenda. Papai costumava dizer que voc ama esse lugar como um homem ama sua mulher.
    - Ele estava certo. - A voz dele tornou-se mais suave, com os olhos.
    -  verdade - Carmelita concordou, retirando os pratos da mesa e mergulhando-os numa vasilha com gua que havia aquecido no fogo. Alm do mais, Cookie vive 
dizendo que as garotas do saloon morreriam de tristeza se decidisse dedicar-se a uma esposa.
    Prola deixou a xcara sobre a mesa com tanta violncia, que algumas gotas de ch respingaram sobre a toalha branca. Olhando em volta, viu que ningum notara 
a estranha reao e respirou aliviada.
    - Falando no saloon... - Cal levantou-se e vestiu a jaqueta preta que deixar pendurada no espaldar da cadeira. - Os rapazes j devem estar ansiosos. - Com um 
gesto rpido, despediu-se de todos e partiu. Quando os olhos demoraram-se um pouco mais no rosto de Prola, ele censurou-se pelo comportamento ridculo e abaixou 
a cabea. - Boa noite.
    - Espere! - Esmeralda pediu. - Ainda no decidimos nada sobre a escola.
    - Falaremos sobre isso amanh.
    - Adam e eu partiremos cedo para Abilene. - Esmeralda segurou a mo do marido e os dois trocaram um olhar terno. - De l, tomaremos um trem para Maryland.
    - Maryland? - Cal repetiu com ar confuso. - Pensei que nunca mais quisesse voltar  cidade natal.
    Adam Winter sorriu.
    - E no planejava voltar. Mas h um touro no qual estou interessado. Escocs puro. Pensei em aproveitar a chance e levar minha esposa para conhecer o lugar onde 
nasci.
    - E como passaremos vrias semanas fora. - Esmeralda acrescentou -  melhor resolvermos essa questo sobre a escola agora mesmo.
    - Se querem saber minha opinio, voto pela abertura da escola na fazenda - Rubi anunciou.
    - Eu tambm. - Jade concordou com a irm.
    - Meu voto  idntico - Esmeralda falou. - Apesar de entender as preocupaes de Cal com a segurana da fazenda e partilhar desse sentimento, reconheo a necessidade 
de uma escola onde as crianas da cidade possam aprender a ler e escrever.
    Todos olharam para o homem parado na porta, esperando que a defesa unnime dos nobres propsito de Prola servisse para amolec-lo.
    - Meu voto  contrrio  escola - Cal decretou com tom seco, evitando encarar a professora.
    Em seguida saiu. Alguns minutos mais tarde todos ouviram os sons de cascos dos animais que levavam os caubis para a cidade.
    Pouco depois o silncio e a escurido desciam sobre a Fazenda Jewel.
    
    Prola acordou com o trovejar de cascos e deduziu que os vaqueiros estavam de volta. Fechando os olhos com fora, puxou o cobertor para mais perto do queixo 
e decidiu no pensar em Cal McCabe. Mas a mente recusava-se a ser fechada como os olhos. Um calor intenso brotava de seu ventre cada vez que se lembrava como ele 
a puxara de encontro ao peito antes de beij-la. Um beijo que a deixara sem flego, e ainda a impedia de respirar cada vez que pensava nele. Sentira o corpo msculo, 
forte e musculoso, contra o seu.
    Talvez essa fosse a causa da sua sensibilidade estar  flor da pele. Cal era diferente de todas as pessoas que j conhecera. Mas, preveniu-se, isso no justificava 
seu comportamento. A vergonha queimava seu rosto cada vez que lembrava as prprias reaes.
    Ouviu os passos na escada e soube que Cal estava indo em direo ao prprio quarto. De repente os passos pararam diante de sua porta.
    Prola sentou-se na cama e afastou os cabelos dos olhos. A porta foi aberta com tanta fora que o som ecoou pelo aposento como um trovo. Na escurido, s conseguia 
ver o vulto parado na soleira.
    - Cal? - A voz era suave, abafada. - O qu... Aconteceu alguma coisa?
    Ele aproximou-se com passos trpegos, e s parou ao lado da cama.
    O luar penetrava pelas frestas da janela, banhando-a numa luz prateada. A camisola de tecido muito fino deixara entrever um ombro plido e macio, uma imagem 
que era pura tentao.
    Cal estava tentado a sentir novamente aquele corpo junto ao seu.
    O calor que o dominava no tinha qualquer relao com a longa cavalgada desde a cidade, nem com o fogo que ardia na lareira do outro lado do aposento. O incndio 
comeava em seu ventre e espalhava-se por todas as direes, provocando arrepios que o percorriam dos ps  cabea e tremores que lembravam o mal-estar de uma febre 
muito alta.
    Os olhos subiram da curva do seis, visveis sob a camisola muito fina, para a pele plida do ombro nu. Gostaria de saber o que a sbria e discreta Prola Jewel 
faria se a tomasse nos braos e pressionasse os lbios contra seu pescoo.
    No havia imaginado a sensao de despentear os cabelos claros e sedosos? Agora tinha a chance de tocar os caracis perfeitos e brilhantes. Podia quase sentir 
a maciez nos dedos. S com muito esforo conseguiu conter o mpeto de abra-la e saciar seu desejo.
    Os olhos de Prola estavam cheios de surpresa, e seus lbios moviam-se na tentativa v de formular uma pergunta silenciosa. Ele no dissera uma nica palavra. 
E quanto mais tempo ficava ali parado, observando-a, mais nervosa a deixava.
    - O que aconteceu, Cal? - Os seis arfavam e o cobertor escorregou alguns centmetros, atraindo os olhos do caubi. - O que significa tudo isso?
    Respirando fundo, McCabe readquiriu parte do bom senso e baniu para o fundo da mente os pensamentos sombrios. Depois virou-se e deu alguns passos, indo chocar-se 
contra a porta. Furioso, resmungou dois ou trs palavres horrveis, como se o mundo tivesse culpa de seu estado lamentvel.
    Embora tivesse pouco conhecimento sobre o sexo oposto, Prola lembrou-se do pai. Durante as raras visitas de Joseph a casa onde ela havia morado, em Boston, 
ouvira os sussurros abafados e urgentes da me quando ela o ajudara a ir para cama depois de uma visita a uma determinada pousada local.
    Sem pensar na prpria falta de decoro, levantou-se e foi at a porta.
    - O que pensa que est fazendo? Como se atreve a entrar em meu quarto e...
    A necessidade de senti-la era to grande, que Cal chegou a estender a mo, silenciando-a com o gesto inesperado. Pelo espao de um instante, pensou em tom-la 
nos braos e beij-la at que a deixasse sem flego. Ento, recuperando o bom senso subitamente, deixou cair  mo que ergueu para toc-la como se houvesse sido 
queimado. Os olhos tornaram-se frios, duros, e a voz sugeria raiva.
    - Volte para a cama.
    - ao enquanto...
    - J disse para voltar para a cama, Prola.
    - Voc est bbado! - ela constatou com tom acusador.
    - No o suficiente.
    Assustada com a rispidez dos modos do capataz, Prola sussurrou:
    - Ento devia ter permanecido na cidade e terminado o trabalho.
    - Concordo com voc. - Ento ele saiu e fechou a porta sem fazer barulho.
    Enquanto atravessava o corredor em direo ao quarto, Cal censurava-se pelo comportamento ridculo.
    Equilibrando-se na beira da cama, lutou para livrar-se das botas. Ao ouvir o baque de cada uma delas atingindo o cho de madeira, ele recitou mais uma dezena 
de improprios.
    Depois de um ms solitrio no acampamento da fronteira, descobrira-se resistindo aos prazeres oferecidos pelas garotas do saloon de Buck. Tudo por causa de uma 
puritana independente e arrogante que passara toda a noite interferindo em seu jogo de pquer, arruinando toda e qualquer possibilidade de diverso. Uma mulher que 
no se importava com o fato de ele estar vivo, ou morto. Uma mulher que no sabia nada sobre os homens, e que no teria idia do que fazer ou de como agir se encontrasse 
um em sua cama.
    Cal jogou o cinto de munio para o lado, despiu a camisa e resto da roupa. Deixou-se cair de costas na enorme cama de casal, totalmente nu. O colcho afundou 
sob seu peso. Pousando um brao sobre os olhos, esperou poder bloquear todos os pensamentos. Mas era impossvel. Ela estava em sua memria, iluminada pelo brilho 
prateado do luar. Provocando-o. Atormentando-o. Causando uma dor como jamais havia experimentado em toda a sua vida.
    
    Do outro lado do corredor, Prola estava deitada de costas, olhando para o teto e pensando no que poderia ter feito para levar Cal McCabe a odi-la tanto. Seria 
apenas sua inteno de abrir uma escola para as crianas da cidade? Havia sido isso que despertara sua raiva? Ou existia algo mais?
    Jamais provocara sentimentos to intensos em outro ser humano. No sabia como reagir. Devia ignor-lo? Ou seria melhor tentar faz-lo entender seu ponto de vista?
    O homem a confundia. Ele beijara como nunca havia sido beijada. Prola levou o dedo indicador aos lbios. Ainda podia sentir o gosto daquele beijo. Havia sido 
chocante, inesperado, assustador e... Inesquecvel.
    Mas tambm sugerira sentimentos mais intensos e sombrios. Violncia? Existiria um lado violento em Cal que devia temer? No sabia nada sobre ele. Nem de seu 
passado, nem como levava a prpria vida no presente. Tudo que sabia era que seu pai o adorara, e confiara nele o bastante para brind-lo com uma parte de sua fazenda. 
Ma quem ele era realmente? Ou, o que era ele?
    Oh, se pelo menos soubesse mais sobre os homens! Mas o nico homem que conhecera havia sido o pai. E as visitas e Joseph foram to espordicas, que tivera pouco 
tempo para descobrir quaisquer aspectos mais profundos de sua personalidade. A nica coisa que sabia com certeza era que Joseph Jewel levara a sua me ao paraso. 
E partira seu corao.
    Aos poucos a confuso foi cedendo espao para a raiva. Maldito Cal McCabe! Ele no tinha o direito de invadir sua vida dessa maneira. Queria usar a educao 
que recebera para ajudar outras pessoas, e ningum poderia impedi-la. Se o capataz no concordava com seus objetivos, o problema era dele. Afinal, tambm era proprietria 
da fazenda, e isso era o bastante para ter alguns direitos sobre a terra. Os mesmos direitos que todos os outros possuam.
    Fechando os olhos contra a luz clara da lua, virou-se de lado determinada a expulsar da mente todo e qualquer pensamento envolvendo certo caubi moreno, forte 
e duro.
    
    
    Captulo 4
    
    O sol j estava alto no cu. O Dia era to claro, que erguer os olhos causava dor e desconforto. Especialmente os olhos de Cal, que ardiam como se houvesse enfrentado 
uma tempestade de areia. A boca parecia estar cheia de algodo. E, em vez da satisfao agradvel que experimentava depois de uma noite no saloon de Buck, sentia-se 
irritado como nunca.
    E tudo por causa de uma mulher que invadira seus pensamentos. Uma mulher que no tinha o mnimo de bom senso. Uma mulher que estava to fora de lugar no Texas 
quanto um caubi em Boston.
    No que se importasse com ela. Mas ela o irritava! Era como uma torneira pingando, como um rudo constante que no conseguia localizar.
    Cal dirigiu-se ao estbulo e selou o cavalo. Vendo o brilho perigoso em seus olhos, os pees abriram caminho sem fazer perguntas.
    - Vamos levar esse rebanho de uma vez - ele avisou ao sair para o curral. J era quase meio-dia. O trabalho de marcar as reses comeara com o nascer do sol, 
e os animais estavam prontos para se juntarem ao rebanho da fazenda.
    - Certo. - Um dos pees abriu o porto para rea cercada onde os bois e vacas esperavam o gado que foi tocado at comear a seguir o lder.
    - Eu serei o ponteiro! - Cal gritou, cravando os calcanhares nos flancos do cavalo para faz-lo ultrapassar a boiada. No tinha a menor inteno de comer poeira.
    A procisso partiu com McCabe e mais dois pees cavalgando na dianteira.
    Os ovos e o po de milho que engolira com uma xcara de caf forte pareciam provocar uma rebelio em seu estomago. Devia ter recusado a oferta gentil e insistente 
de Carmelita. Mas a aceitara na esperana de acalmar-se depois de alimentado.
    - Vamos lev-los atravs do riacho do Veneno e para cima, rumo  fronteira norte - Cal comunicou aos outros.
    Todos moveram as cabeas numa resposta afirmativa e ele comandou o cavalo num trote regular, levantando o rosto para o sol. Com um pouco de sorte, talvez pudesse 
sentir-se novamente humano  hora do jantar.
    A montaria atravessou o riacho com a habilidade de sempre e logo chegaram  outra margem, onde Cal foi recebido por outros dois caubis.
    Quando contornaram uma pequena cabana vazia, foram forados a parar de repente, levantando uma nuvem de poeira e assustando as galinhas que ciscavam o terreno.
    - O que est acontecendo aqui? - Cal quis saber.
    Meia dzia de empregados da fazenda carregavam caixas e pacotes que retiravam da carroa. Um deles encarou e respondeu com ar contrariado:
    - Estamos apenas cumprindo ordens, Cal.
    - Ordens de quem?
    O rapaz apontou a porta aberta da cabana.
    Cal desmontou e caminhou por entre o grupo com passos decisivos. Prola estava no meio da sala, dando instrues para os pees com seu sotaque tpico de Boston.
    - Essa caixa pode ficar ali, na prateleira. E essa mesa pode ser deixada aqui, ao lado da mesa...
    As palavras morreram em sua garganta. O homem diante de seus olhos havia lhe custado  noite de sono. A expresso em seu rosto a fez levar a mo  garganta. 
Compondo-se, ela levantou a cabea naquele gesto familiar cuja arrogncia sempre o aborrecia.
    - Bom dia. Espero que tenha conseguido encontrar a cama.
    Ela era linda como uma manh clara de primavera. O vestido que usava era da cor dos olhos e, como sempre, abotoado at o pescoo. A saia era ampla, enfeitada 
por algumas fitas azuis. A nica concesso da elegncia ao trabalho eram as mangas do vestido, que haviam sido enroladas at os cotovelos, e um impecvel avental 
branco que enfatizava a cintura delgada.
    Cal teve de engolir duas vezes antes de sentir-se capaz de falar.
    - Sim, encontrei minha cama.
    - Dormiu bem?
    - Como um urso em perodo de hibernao - mentiu. No revelaria que passara a pior noite de sua vida.
    - E hoje? Tive impresso de que vice e seus homens seguiam para...
    Cal ergueu a mo para silenci-la. Era pssimo nesse tipo de conversa social intil, por isso iria direto ao ponto.
    - O que pensa estar fazendo?
    Ela virou-se para escapar do olhar intenso que parecia queim-la.
    - O que parece? Estou preparando minha sala de aula.
    - Assim? Sem maiores discusses?
    Prola moveu a cabea numa resposta afirmativa e comeou a retirar alguns livros de uma valise delicada que havia trazido de Boston.
    - No h mais nada a ser discutido. Esmeralda, Jade e Rubi concordaram com minha deciso de lecionar. Voc foi o nico a ir contra a idia. - Fitou-o por cima 
do ombro. - O seu foi um voto vencido. Discusso encerrada.
    O capataz virou-se para os empregados que moviam-se pela sala.
    - Saiam! - ordenou, levando-os a abandonarem a tarefa e correrem para fora da cabana. - A srta. Jewel e eu precisamos de alguns minutos para uma conversa rpida.
    - Mas eu... - ela tentou protestar.
    Era tarde demais. Cal fechou a porta depois da sada do ltimo peo e apoiou-se nela, cruzando os braos sobre o peito.
    Sentia-se sozinha, assustada, mas no o deixaria perceber que a afetava dessa maneira. No seria intimidada por esse texano de modos grosseiro e corpo musculoso.
    - Sabe o que est fazendo? - ele perguntou.
    Nervosa, Prola virou-se de costas para o capataz.
    - Arrumando meus livros
    -Voc entendeu o que eu quis dizer. - McCabe aproximou-se pelo brao e a fez interromper a tarefa. Apesar da presena imponente e ameaadora, ela recusou-se 
a encar-lo, certa do que encontraria em seus olhos.
    - Estou preparando uma sala de aula para que as crianas de Hanging Tree possam aprender algo sobre o mundo alm das fronteiras do Texas.
    Os dedos apertaram seu brao. Em algum outro momento num lugar diferente, Cal poderia at ter reconhecido a tenso sexual. Mas agora, a raiva era a nica emoo 
que sentia-se capaz de admitir.
    - Est convidando todos os moradores da cidade a invadir nossa propriedade.
    Estava determinada a ignorar o calor gerado pelo contato.
    - E isso  to terrvel como sugere?
    - No entende, no ? - Havia uma nota de desprezo em sua voz que a feria mais do que qualquer outro golpe teria conseguido. - Joseph Jewel construiu um imprio 
no meio do nada. Isso desperta mais que a curiosidade das pessoas. A prosperidade provoca inveja.
    - E o que isso tem a ver com...?
    - No esperava mesmo que compreendesse. Joseph pode ter sido seu pai, mas era praticamente um estranho para voc. E a maneira de viver dos texanos nem sempre 
 igual  dos habitantes dos outros estados da Unio. Sempre tivemos controle sobre a terra. Ningum jamais entrou na propriedade Jewel sem ser interpelado por invaso. 
Agora se algum decidir arruinar a nossa gua, roubar nosso gado ou destruir nossos galpes, no teremos como impedir. O lugar estar cheio de estranhos.
    - Eu... Nunca pensei nesse aspecto da questo.
    Cal agarrou o outro brao de Prola e a fez virar-se para encar-lo. Como antes, toc-la foi o bastante para acelerar sua pulsao e deix-lo inquieto, agitado. 
A voz tornou-se mais rouca, persuasiva.
    Ainda no  tarde demais para parar com essa tolice. Voc precisa de tempo para pensar no que est fazendo.
    Tolice? Ento ele acreditava que seu sonho era uma bobagem? Oh, como pretendia provar seu engano!
    - J  tarde demais. Enviei um empregado da fazenda  cidade esta manh com uma carta para o reverendo Weston.
    - Uma carta?
    Ela afirmou com a cabea.
    - Pedindo a ele que avise todas as famlias sobre o incio das aulas na prxima segunda-feira.
    Cal abaixou as mos e cerrou os punhos, deixando escapar um som aborrecido antes de virar-se. Na porta ele disse:
    - No podia esperar, no ? Acabou de demolir um dique muito bem construdo. Uma barragem que serviu para manter a distncia dzias de adversrios ao longo dos 
anos. Espero que esteja preparada para a inundao que certamente ocorrer.
    - Lamento que tenha sentimentos to fortes a respeito desse assunto.
    - Lamentar no faz parar a chuva. - Sem olhar para trs, ele abriu a porta e saiu batendo-a com tanta fora que as janelas tremeram.
    Um minuto mais tarde, o som dos cascos do cavalo contra a terra seca assinalou que ele partia atrs do rebanho.
    
    O sol mergulhava do pico da Viva, desenhando tiras vermelhas em sua esteira. A rea aos ps das montanhas mergulhava nas sombras.
    Como sempre, os efeitos da noite que passara na cidade haviam desaparecido depois de alguns dias de trabalho duro e satisfatrio. Muito depois dos pees terem 
concludo suas tarefas, Cal permanecia com o gado, cuidando de todos os detalhes, no s porque era necessrio, mas porque queria pr alguma distncia entre ele 
e o objetivo de sua fria. Prola Jewel. Ainda estava chocado com a intensidade das prprias respostas algumas noites atrs. Depois de apenas algumas doses de usque, 
comportara-se como um perfeito idiota, invadindo o quarto dela e assustando-a com suas atitudes impensadas. E tentando o prprio juzo com idias que...
    Pelo menos agora conseguira clarear os pensamentos, concentrar-se no trabalho e energizar o corpo.
    Essa era  hora do dia que mais apreciava. As tarefas haviam sido cumpridas. A noite estendia-se  sua frente como um presente a ser desfrutado. Oh, ainda tinha 
algumas coisas para fazer. Arreios para consertar, armas para limpar e lubrificar... Mas eram tarefas que costumava cumprir sentado na poltrona confortvel, deixando 
a mente vagar enquanto maninha as mos ocupadas.
    Houvera tempo que passara as noites encolhido a escurido, os olhos abertos e os sentidos em estado de alerta, temendo at mesmo acender um fogo para aquecer-se. 
Um homem no corpo de um menino. Sua infncia havia sido destruda por um nico ato impensado. Mas Joseph Jewel mudara tudo isso. Estender a mo, quando todos os 
outros preferiram virar as costas. E, com pacincia e determinao, devolvera a Cal McCabe o auto-respeito. E sua alma.
    Mergulhado nos prprios pensamentos, Cal enrolou um cigarro e acendeu-o. A luz brilhou rapidamente diante de seus olhos antes de extinguir-se. Depois de aspirar 
a fumaa adocicada, soprou-a e a viu dissipar-se no ar morno da noite.
    Estava pensativo, como se de repente se desse conta de todas as mudanas ocorridas nos ltimos quinze anos. Jamais havia imaginado que sua vida poderia ser to 
satisfatria. Dirigia um imprio. Tinha o respeito dos homens que comandava. O trabalho duro e as exigncias da terra enchiam de prazer. E, no entanto... Ainda surpreendia-se 
lutando contra sentimentos inquietantes.
    Joseph teria dito que era apenas a natureza do homem. Havia sempre uma montanha a escalar. Mais um desafio a vencer.
    Com um suspiro impaciente, Cal deu a ltima tragada e jogou fora o cigarro. Enfrentara desafios suficientes para satisfaz-lo por toda a vida. Agora, tudo que 
queria era um pouco de paz. E tempo para saborear os frutos de seu trabalho.
    Mesmo assim, ainda lembrava das conversas estimulantes que mantinha com Joseph Jewel nas longas noites da fazenda. Ningum jamais havia confiado nele o bastante 
para fazer confidncias, mas Joseph no s se abrira, como tambm o escutara com ateno e respeito. A troca de idias, a conversa sempre estimulante, havia sido 
o alimento ideal para uma alma faminta. Sentia falta de Joseph. Todos os dias. s vezes experimentava um enorme vazio, especialmente quando constatava que no havia 
mais ningum com quem pudesse conversar com a mesma liberdade. Ningum mais o conhecia to bem. Ningum compreendia sua origem, nem importava-se com o garoto que 
fora e o homem em que transformara-se.
    O cavalo seguia num trote lento, relaxado. Cal no tinha pressa. J havia perdido o jantar, mas sabia que Cookie sempre reservava alguns biscoitos e um pedao 
de carne assada para os retardatrios.
    Ao subir uma encosta, surpreendeu-se com o brilho de uma lamparina na cabana deserta. Nesse momento Prola apareceu carregando um pacote, que colocou na carruagem. 
Enquanto ele descia a colina, a professora fez mais trs viagens entre a cabana e a carroa.
    - Trabalhando bastante?
    -Oh! - Ao ver Cal McCabe emergindo das sombras, ela levou a mo  garganta num gesto assustado. - No ouvi o som dos cascos do cavalo. H quanto tempo est a?
    - H tempo suficiente para t-la atacado, se essa fosse minha inteno. - Podia ver que suas palavras haviam causado alarme, e no era essa sua inteno. Mas 
no conseguia deter-se. Havia algo nessa mulher que sempre fazia vir  tona o que havia de pior nele.
    Prola ergueu o queixo naquela postura irritante.
    - Duvido que existiam tantos malucos por aqui como quer me fazer crer.
    - Agora no, talvez. Mas quem pode dizer o que o futuro trar?
    - Em vez de esperar sempre o pior, prefiro acreditar no melhor. - Ela trancou a porta e subiu na carruagem.
    Cal a surpreendeu amarrando o cavalo atrs do veculo e sentando-se ao lado dela. Em resposta  pergunta silenciosa, disse:
    - J que vamos para o mesmo lugar,  melhor seguirmos juntos.
    Com um estalar de rdeas, ele deu incio  viagem.
    A carruagem danava sobre pedras e razes espalhadas no caminho, causando pequenos solavancos que faziam balanar seus seios.
    - Pensou no que eu disse h alguns dias?
    Ela afirmou com a cabea.
    - Na verdade, no tenho pensado em outra coisa. E lamento se exps a nossa propriedade ao perigo. Mas no me deixarei desviar do curso. Pretendo ensinar as crianas 
da cidade, e por enquanto esse  o melhor lugar para as aulas.
    - Ento no tentarei colocar barreira em seu caminho - ele disse com simplicidade.
    Prola reagiu com espanto evidente.
    - Est falando srio?
    Ele afirmou com a cabea, sem saber como ou quando chegara a tal concluso. Embora a houvesse ruminado durante os ltimos dias, no tivera conscincia de haver 
tomado uma deciso at comunic-la em voz alta.
    -  mais do que justo Cal.
    Sentia-se como se o peso do mundo houvesse sido retirado de sobre seus ombros. Ela e Cal haviam conseguido estabelecer uma trgua, e isso era tudo de que precisava 
para sentir-se feliz. Pelo menos por enquanto.
     claro que as coisas estavam longe de serem perfeitas entre eles. Na verdade, pareciam estar passando por uma fase de anlise, como dois rivais que se estudam 
antes da grande batalha. Mas, temporariamente, Cal dera a luta por encerrada.
    Com o corao leve, Prola viu a escurido envolver o territrio. A lua cheia espalhava raios de prata pela fazenda.
    - O que faz para preencher os dias interminveis que passa com o rebanho? - Nos ltimos dias fora invadida pela desconfiana de que era a nica responsvel pelos 
longos perodos que Cal passava longe de casa.
    - H tanto trabalho a ser feito, que normalmente no sei por onde comear. O gado me mantm ocupado,  claro. Quando fico sozinho tenho de caar para comer. 
Meu sono  sempre perturbado, porque na maioria das noites sou forado a levantar para espantar os predadores, como lobos e coiotes que aproximam-se em busca dos 
novilhos.
    Prola estudou as mos fortes e calejadas que seguravam as rdeas. Ele parecia confiante e seguro em tudo que fazia. Sempre que o via agir, tinha a sensao 
de que nada era difcil para Cal McCabe. A operao do vasto imprio dos Jewel, as interminveis tarefas necessrias para manter o funcionamento da fazenda.
    Notara a maneira como os caubis o fitavam em busca de orientao e conselho. De como evitavam encar-lo quando sabiam ter cometido um erro. Cal podia ser to 
duro quanto justo. E to inclemente quanto um anjo vingador quando era enganado.
    - Espero no estar prejudicando a realizao de nenhuma tarefa importante.
    Ele balano a cabea.
    - As tarefas estaro esperando amanh.
    Percorreram uma boa distncia em silncio.
    Um grito aflito cortou o ar noturno e Prola estremeceu.
    - No h nada a temer - Cal sorriu. -  s um coiote solitrio tentando atrair uma parceira.
    - Como pode saber?
    - Se ficar aqui por tempo suficiente, aprender a identificar todos os sons do Texas. O guizo de uma serpente, o uivo de um lobo, o grito de um gato selvagem.
    Ela ajeitou o xale em torno dos ombros.
    - Este tentando me assustar ainda mais?
    - De maneira nenhuma. Est com medo?
    Ela encolheu os ombros.
    - O Texas  um territrio estranho e selvagem, cheio de coisas desconhecidas para mim. Animais perigosos. Clima inspito.
    -  natural temer o desconhecido. Mas esteja voc na cidade de Boston, cercada pela civilizao, ou nas montanhas do Texas, o maior perigo  sempre o mesmo.
    - Qual?
    - No so os animais ou o clima, mas as pessoas. Gente que enfrentou uma guerra sangrenta e no conseguiu superar o medo e o ressentimento. Pessoas que atiram 
primeiro para perguntar depois. Pessoas que simplesmente odeiam.
    Prola lembrou de alguns indivduos que conhecera na infncia. Embora no tivessem revlveres, costumavam usar as palavras como armas para ferir, destruir a 
confiana do inimigo.
    - O que torna as pessoas to cruis? - ela pensou em voz alta.
    - Inveja. O ser humano sente inveja dos que prosperam enquanto ele sentiu fome, dos que alcanaram sucesso enquanto fracassou. Alguns so invejosos por natureza, 
no h como argumentar com eles. O cime e o dio so emoes que acabam por dominar a mente das pessoas enlouquecendo-as. E  sempre o inocente que sofre nas mos 
de tais indivduos.
    Prola olhou para o perfil duro e bem definido. Sentiu que ele falava sobre o assunto com conhecimento de causa.
    De repente Cal anunciou:
    - Quero que aprenda a usar um rifle.
    - Um rifle? Eu... No poderia!
    - Poderia. No  to difcil quanto imagina. Posso ensin-la a atirar.
    - No. No quero lidar com esse tipo de arma de fogo, e voc no pode me obrigar.
    - Escute o que vou dizer - ele pediu com tom calmo. - Voc vai estar isolada, to longe de casa que no poder pedir ajuda, se for necessrio. S poder contar 
com voc mesma.
    - No, Cal. No insista! No vou lidar com armas de fogo. Est decidido.
    Ele respirou fundo, tentando conter a irritao.
    Derrotado, concentrou-se na tarefa de guiar o cavalo atravs do riacho do Veneno.
    - O nvel da gua subiu - Cal comentou, sentindo as botas molhadas. Estava tentando encontrar um assunto sobre o qual pudessem conversar sem discutirem. - A 
neve esta derretendo no pico da Viva. Isso  bom para os fazendeiros.
    Prola tambm parecia disposta a evitar outra batalha.
    - Por qu? - perguntou.
    - A gua  a seiva da vida numa fazenda de gado. Sem ela, podemos perder um rebanho inteiro em poucos meses.
    - Isto j aconteceu?
    - Sim. Sofremos os efeitos da seca em 1963. Joseph no sabia se conseguiria salvar a fazenda. Quando a chuva finalmente voltou a cair, o riacho do Veneno havia 
sido reduzido a um sulco ressequido e restavam apenas algumas cabeas de gado aos ps da montanha.
    - O que papai fez? - perguntou alarmada.
    - Demitiu todos os empregados, porque no podia pagar seus salrios.
    Prola viu os msculos dos braos de Cal distenderem-se enquanto ele manejava as rdeas para a subida do riacho. A fora fsica do capataz era impressionante 
e, apesar dela, havia uma aura de calma em torno dele, como se tivesse certeza da prpria capacidade, da eficincia de sua autoridade. Sabia que os empregados o 
respeitavam, pois j ouvira diversos comentrios pela fazenda. Sabia, tambm, que ele podia ser rpido tanto com os punhos quanto com uma pistola. Mas desconfiava 
que tais recursos eram utilizados apenas em casos extremos. Cal McCabe era um homem de poucas palavras, mas, quando falava, sabia conquistar a ateno e o respeito 
dos que o ouviam.
    - Como a Fazenda Jewel sobreviveu? - ela quis saber.
    - Seu pai me mandou percorrer os campos ao norte e a leste, enquanto ele cavalgava pelo sul e pelo oeste. Quando voltamos com os poucos animais que haviam conseguido 
superar a seca, tnhamos um rebanho de menos de cem cabeas.
    - Voc ficou? Pensei t-lo ouvido dizer que papai havia demitido todos empregados. Como ele pde pag-lo?
    Cal deixou escapar um sorriso amargo.
    - No fiquei ao lado de Joseph Jewel por dinheiro. Teria caminhado sobre brasas por ele.
    Seguiram em silncio por alguns instantes, aproximando-se da fazenda. Mas, agora, o silncio era confortvel. Joseph Jewel havia sido algum que ambos amaram, 
e os dois sofriam sua perda.
    A luz das lamparinas podia ser vista atravs das cortinas que cobriam as janelas da casa. As notas de uma gaita ecoavam no interior do alojamento.
    -  difcil acreditar que meu pai quase perdeu tudo isso - ela comentou.
    Cal afirmou com a cabea, apreciando a beleza e a serenidade da cena.
    - Joseph hipotecou tudo e foi para St. Louis, de onde trouxe o melhor touro que pde encontrar. Construmos currais de reproduo, e at Esmeralda e Carmelita 
tiveram que trabalhar quando os bezerros comearam a nascer. Joseph havia decidido que seu gado seria o mais forte e saudvel de todo o estado do Texas, e conseguiu 
realizar a faanha, porque utilizou reprodutores sobreviventes. Em cinco anos, o rebanho passava de mil cabeas. E Joseph viveu para ver seu sonho realizado.
    -  bom saber disso. Mas ele no teria conseguido sem voc.
    - Oh, Joseph teria feito exatamente como fez, mesmo que fosse o ltimo homem sobre a face da terra. - Cal parou a carruagem diante da porta da cozinha e desceu 
para ajud-la a saltar. - Seu pai foi um homem extraordinrio, Prola. Gostaria que o tivesse conhecido como eu o conheci.
    - Eu tambm. No sabe como me entristece saber que no tive a chance de conhecer realmente o homem que me deu a vida. - Ela segurou a barra do vestido e levantou-se 
preparando-se para descer.
    Os braos de Cal enlaaram pela cintura e, antes que pudesse reagir, ele a ergueu como se carregasse uma criana. Por um instante, sustentou-a acima da cabea 
de maneira que seus olhares se encontrassem, depois abaixou-a lentamente , to devagar que o tempo pareceu parar. Prola experimentou um estranho arrepio provocado 
pela intensidade do olhar. Medo? Ou antecipao? Sabia que ele ia beij-la novamente. E embora quisesse sentir os lbios sobre os seus mais uma vez, o bom senso 
ordenava que resistisse.
    Cal tambm parecia dividido. Seria fcil roubar um beijo. Presa entre seus braos, Prola no teria como reagir. E se estivesse diante de qualquer outra mulher, 
no pensaria duas vezes antes de beij-la. Afinal, era um homem saudvel com um apetite normal. Mas essa era Prola Jewel. A filha do homem a quem devia mais que 
a prpria vida. No estava diante de outra mulher qualquer. Depois de provar seu sabor, descobrira que ela era mais poderosa e inebriante que o usque do saloon 
de Buck. Jamais poderia dominar essa mulher. Ou afastar-se depois de ter dado o primeiro passo.
    Mas a tentao era imensa.
    Cal continuou baixando-a, demorando-se um pouco mais quando os seios fartos e rgidos tocaram seu peito. Ento ele a colocou no cho, fazendo-a sentir que a 
terra balanava sob seus ps.
    - Levarei sua carruagem e cuidarei do cavalo.
    Mesmo depois de ele solt-la, ainda podia sentir o calor das mos fortes no corpo.
    - Obrigada. Boa noite, Cal.
    Prola ficou parada na porta por alguns instantes, vendo-o afastar-se em sua carruagem. Antes de mergulhar nas sombras, ele tocou a aba do chapu num cumprimento 
rpido e formal.
    De repente percebia que, essa noite, ele oferecera muito mais que a aprovao para a abertura de sua escola. Compartilhando as lembranas que guardava de seu 
pai, Cal estendera a mo e dera o primeiro passo no sentido de estabelecer um lao de amizade.
    No entanto, havia algo por trs da cordialidade que a perturbava. Algo primitivo e incontrolvel. Algo sombrio e perigoso. Apesar de Cal manter essa espcie 
de entidade cuidadosamente controlada, Prola pudera senti-la.
    Livre, o fogo que ardia no interior desse homem poderia consumi-los.
    
    
    Captulo 5
    
    O cu era limpo e azul. Uma tpica manh de primavera, apesar de o ar trazer indcios de tempestades distantes e sugerir ventos frios e fortes.
    Prola tomou muito cuidado ao preparar-se, sabendo que seria objeto de especulao no servio religioso, como acontecia todos os domingos. Nesse momento ela 
terminava de abotoar o vestido amarelo. Para onde fora a semana? No estava nem perto de sentir-se preparada para o incio das aulas. Oh, por que anunciara a abertura 
da escola para prxima segunda-feira?
    Porque desejava vingar-se de Cal pela oposio que fizera do projeto. E agora teria de pagar caro pelo ato de desafio.
    Cal. Pensar nele era o bastante para tremer por dentro. Apesar de toda a intensidade das emoes que experimentava na presena dele, estava determinada a no 
demonstrar o quanto o sujeito a abalava. 
    Ao descer a escada, encontrou Jade e Rubi prontas usando as melhores roupas.
    - Aonde vo? - perguntou.
    -  cidade com voc. - Jade alisou a saia de seda verde do vestido que usava sob um casaco da mesma cor. Como o vestido, o agasalho tambm possua gola chinesa, 
e aberturas laterais at a altura dos joelhos facilitavam seus movimentos.
    - Mas por qu? Vocs no costumam ir  igreja.
    - J discutimos esse assunto, chrie - Rubi anunciou. - Decidimos que no deve enfrentar aquela gente sozinha. No somos uma famlia? - Ela jogou um xale sobre 
os ombros, dando um toque de modstia ao traje de decote generoso que, colado ao corpo, revelava curvas exuberantes. - Quero que todos saibam que as irms Jewel 
so muito unidas.
    - E se algum atrever-se a levantar calnias contra nosso bom nome - Jade acrescentou com voz melodiosa -, mostraremos que somos oponentes perigosas.
    Rindo, Prola uniu-se s irms e as trs saram de braos dados. Essa era a melhor herana que o pai havia lhe deixado. Irms.
    Ao passarem pela porta para partirem, elas surpreenderam-se com a presena de Cal na carruagem.
    - O que est fazendo aqui? - Prola perguntou. - Por que no mandou um dos empregados preparar a carruagem? - Voltava a sentir aquele n na altura do estmago 
e, mais uma vez, descobriu que era difcil acalmar-se.
    - Vou lev-las  cidade. - Determinado, o capataz ajudou-as a subirem no veculo e acomodarem-se.
    Ao sentir a mo em seu brao, Prola teve a impresso de que o pulmo deixava de funcionar. Olhou para o perfil duro e firme. Se havia experimentado algum tipo 
de reao ao contato, Cal no demonstrava.
    Ele subiu na carruagem e estalou as rdeas.
    - Antes de partir, Esmeralda me fez lembrar que agora tambm sou proprietrio da Fazenda Jewel. Tenho algumas obrigaes a cumprir, e uma delas  agir de acordo 
com minha nova posio.
    - Quer dizer que isso agora vai se transformar num ritual, mon cher? - Rubi perguntou sorrindo.
    - Oh, eu no iria to longe. Na maior parte do tempo, estou cuidando do rebanho em alguma parte distante da propriedade. Mas sempre que estiver aqui, irei  
cidade e suportarei calado um dos famosos sermes do reverendo Weston.
    - No vai se arrepender - Prola garantiu.
    - No tenho tanta certeza. Na verdade, acho que j estou arrependido. - Para indicar que o comentrio no passava de uma piada, ele piscou e ofereceu um sorriso 
que fez seu corao bater mais depressa. - Mas no posse esquecer o exemplo de seu pai. Por mais ocupado que estivesse, Joseph sempre conseguia encontrar algum tempo 
para ir ao culto dominical. O mnimo que posso fazer  imit-lo.
    Prola no sabia por que a presena de Cal a perturbava tanto. Mas de repente a manh parecia mais clara, iluminada, invadida por um ar festivo. Nada do que 
os habitantes da cidade dissessem ou fizessem poderia arruinar seu dia.
    A carruagem puxada por cavalos brancos pertencera  me de Jade. Ao saber sobre a morte do pai, ela viajara desde San Francisco no frgil veculo e sozinha. 
Apesar de ser totalmente inadequado ao clima seco e poeirento do Texas, as irms no pareciam incomodar-se. Percorrendo os campos vastos de onde os habitantes tiravam 
 sobrevivncia, elas riam e conversavam como crianas despreocupadas.
    - O que  aquilo? - Jade perguntou, apontando para uma alta coluna de rochas  distncia.
    -  o Salto do Homem Morto - Cal respondeu.
    -Mon Dieu! Um homem realmente saltou para a morte do alto daquelas pedras?
    - Diz  lenda que um chefe comanche apaixonou-se por uma mulher que j havia prometido seu amor a outro. O chefe raptou, levou-a para o alto das pedras e a manteve 
cativa enquanto tentava convenc-la a aceit-lo. Desesperada, a pobre mulher saltou, preferindo a morte a uma unio sem amor. Mas os deuses, com pena da sina da 
jovem apaixonada, a transformaram numa guia e, diante dos olhos espantados do chefe indgena, ela abriu as asas voou de volta para os braos do amado. O chefe a 
seguiu certo de que tambm mereceria a beno dos deuses. Mas em vez de abrir as asas e voar, ele mergulhou para a morte.
    - Essa histria  muito triste - Prola opinou.
    -  s uma lenda, chrie.
    - Sim, eu sei. Mas por que tudo nesse lugar tem de refletir tanta tristeza? Riacho do Veneno. Pico da Viva. Salto do Homem Morto.
    - A vida  sempre muito dura para as pessoas que forjam novos caminhos - Cal respondeu. - E so os eventos mais tristes e dramticos que de to repetidos, acabam 
por se tornar lendas.
    - Quer dizer que nunca acontece nada de alegre por aqui? - Prola insistiu. - As coisas so sempre tenebrosas e trgicas?
    - Tem razo, chrie - Rubi concordou com ar debochado, lutando contra a gargalhada que formava-se em sua garganta. - Vamos mudar todos esses nomes horrveis. 
Que tal riacho Nctar dos Deuses?
    - Pico do Cupido - Jade ofereceu, entrando imediatamente na brincadeira.
    - Por que no torre dos Amantes? - Prola resmungou.
    - Vale dos Apaixonados - Rubi gritou, divertindo-se com o eco da prpria voz no campo aberto.
    Rindo, seguiram dando nomes imprprios a todos os acidentes geogrficos da rea.
    Apesar de no participar do jogo, Cal sorria e divertia-se com as tolices que ouvia. E aproveitava para conhecer um lado de Prola que jamais tivera oportunidade 
de ver.
    Quando chegaram  cidade, haviam rido e gritado tanto, que foi difcil recuperar a sobriedade. Ainda sorriam quando Cal ajudou-as a descer a carruagem e as acompanhou 
at a sala, no fundo do armazm Durfee, onde realizavam os cultos religiosos.
    Prola viu vrias cabeas se virarem no momento em que entraram. As irms Jewel ainda eram motivo de curiosidade para os habitantes de Hanging Tree. E quando 
Cal McCabe as segui e sentou-se, um murmrio espantado ergueu-se sobre o grupo. Como se no notasse, ele retirou o chapu e cumprimentou vrios fazendeiros com rpidos 
movimentos de cabea.
    - Bom dia, Cal. - O inspetor Quent Regan sentou-se ao lado dele. - Bom dia, senhoritas.
    - Bom dia, inspetor - as irms responderam em unssono.
    -  surpreendente v-lo aqui, Cal.
    - No sei por qu. Voc tambm est aqui, no.
    Os dois riram.
    Cal olhou em volta.
    - Parece que a notcia sobre os sermes do reverendo esto se espalhando. Ele conseguiu encher o lugar.
    - Ainda no sei se so os sermes do reverendo Weston que lotam esta sala todas as semanas, ou se  a oportunidade de encontrar tantas moas bonitas reunidas 
num mesmo espao. - O inspetor lanou um olhar significativo para as irms Jewel, e desviou os olhos apressado quando Rubi o brindou com um sorriso sedutor. 
    O reverendo Weston finalmente dirigiu-se ao palanque improvisado na frente da sala e todos ficaram em silncio. Nem mesmo o traje escuro e o colarinho branco 
conseguiram esconder o msculos poderosos e bem definidos. Cabelos dourados caam sobre seus ombros como uma coroa de luz, e muitas jovens, bem como suas mes, suspiraram 
ao ver o religioso assumir sua posio. Depois de entoar o primeiro hino com a congregao, ele convidou todos a sentarem-se e, durante meia hora, exortou os fiis 
a amarem o prximo e praticarem a virtude do perdo. No final do sermo estimulante, todos se levantaram para cantar com fervor ainda maior.
    Jade e Rubi dividiam um livro de hinos e salmos, o que obrigou a Prola a fazer o mesmo com Cal. No momento em que as mos se tocaram, ela ergueu a cabea e 
o encontrou fitando-a. Vermelha e perturbada, abaixou a cabea e voltou a cantar com a congregao, surpreendendo-se ao perceber que a voz profunda e forte de Cal 
misturava-se s outras.
    Quando o hino chegou ao fim, o reverendo anunciou:
    - Para aqueles que ainda no sabem, a srta. Prola Jewel abrir sua escola a partir de amanh. As aulas sero dadas na velha cabana localizada na Fazenda Jewel, 
as margem direita do riacho do Veneno. Todos sero bem-vindos.
    Ento ele dirigiu-se  porta para despedir-se de todos os paroquianos. Quando Prola parou diante do religioso, sua mo foi envolvida por dedos firmes que a 
apertaram num comprimento afetuoso.
    - Acha que algum vai aparecer na escola, reverendo?
    - Espero que sim. Seria uma pena se as crianas de Hanging Tree perdessem essa oportunidade maravilhosa que est oferecendo.
    Quando saiu do armazm acompanhada pelas irms, um garoto muito pequeno puxou a barra de sua saia. Seus braos eram magros, e as roupas desbotadas haviam sido 
remendadas em vrios lugares. Os cabelos claros e finos precisavam de um corte. Prola reconheceu o filho de Rollie Ingram. Como sempre, a famlia no comparecera 
ao culto.
    - Voc  uma princesa? - o pequeno perguntou.
    Prola ajoelhou-se para poder encar-lo.
    - No. Sou professora. - Estendeu a mo num gesto solene. - Meu nome  srta. Prola Jewel. E o seu?
    - Daniel.
    As mos do garoto no viam gua e sabo h muito tempo, a sujeira parecia estar entranhada na pele queimada pelo sol.
    - No gostaria de aprender a ler e escrever, Daniel?
    - Sim, gostaria. Antes de morrer, minha me me mostrou o retrato de uma princesa. Ela era parecida com voc, mas no to bonita.
    -Ora, muito obrigada, Daniel. Aposto que sua me tambm era linda.
    - Sim, senhora. Gilbert diz que agora ela est com os anjos.
    Uma sombra escura caiu sobre eles e os dois ficaram srios. Por um momento Daniel encolheu-se, mas, percebendo tratar-se do irmo mais velho, ele ofereceu um 
sorriso radiante.
    - Gilbert, est  a srta. Prola Jewel, a nova professora. Ela disse que posso aprender a ler e escrever.
    Prola levantou-se e limpou a poeira da saia. Sorrindo, encarou o menino mais velho e estendeu a mo.
    - Ol, Gil. 
    - Meu nome  Gilbert. - Apesar de no ter mais de doze ou treze anos, j era cerca de cinco centmetros mais alto que ela. Parecia-se com o pai, cabelos escuros, 
espessos e encaracolados, ombros largos como os de um homem adulto. Evitara encar-la. Em vez disso, franzia a testa para o irmo menor. - Papai est furioso. Entre 
na carroa e no diga nada que possa irrit-lo ainda mais.
    - Mas...
    - Entre na carroa! - Ele empurrou o menino com um gesto autoritrio.
    Prola notou que Gilbert mantinha uma das mos sobre o ombro de Daniel, conduzindo-o ao veculo deteriorado que j estava repleto de sacos de acar e farinha.
    Sem olhar para trs ele acomodou o caula entre os sacos e foi sentar-se lado o pai, Em seguida todos desapareceram em meio a uma nuvem de poeira.
    - Parece que acabo de perder meu primeiro aluno. - Prola suspirou.
    - Melhor assim - resmungou Cal, cujos olhos acompanhavam a carroa. - Aquele  um homem que prefiro manter bem longe da fazenda.
    Uma voz feminina e melodiosa gritou o nome dele e, erguendo a cabea, Cal viu a jovem acenando de uma das janelas do segundo andar do saloon Buck, os seios revelados 
pelo tecido fino e transparente da camisola. Um vermelho intenso tingiu seu rosto.
    - Parece que aquela senhorita est tentando chamar sua ateno. - Jade divertia-se com o desconforto do capataz.
    -  hora de irmos embora.
    Cal virou-se para ir buscar a carruagem, mas deparou com Millie Potter, a dona da hospedaria, e teve de parar. Escondidas atrs da saia da me, trs garotas 
pequenas com idnticos cabelos ruivos e encaracolados espiavam a cena.
    - Bom dia, Cal. Soube que havia voltado. Quero dizer algum comentou na cidade. - Ela olhou para o saloon com uma careta de desgosto. - Por que no apareceu 
na hospedaria?
    - Bom dia, Millie. - Depois de remover o chapu, piscou para as meninas sorriu ao ver como escondiam-se. - Ol April, May June. Digam "ol" para as senhoritas 
Prola, Jade e Rubi.
    As trs crianas ficaram vermelhas e quase desapareceram atrs da saia da me.
    - Crianas, comportem-se. - A censura branda de Millie foi suficiente para que as trs dessem um passo  frente e cumprimentassem todos os adultos. Pareciam 
ter cinco, seis e sete anos de idade.
    Assim que terminaram de cumprir a exigncia social, as meninas voltaram ao esconderijo.
    Cal tossiu, sentindo-se incomodado pelo silncio prolongado.
    - Agora que Joseph se foi, mais coisas exigem minha ateno na fazenda.
    - Entendo. Mas tambm sentimos sua falta. - Millie sorriu para as irms Jewel e encarou Prola. - Esperava que um dia viessem  cidade para uma visita. Deixei 
o guisado pronto para o almoo e biscoitos frescos que assei esta manh.
    Antes que Cal pudesse recusar o convite adiantou-se um passo.
    - Oh, sim, seria maravilhoso. A viagem de volta  fazenda  longa, e alm disso temos poucas oportunidades para conversar com os moradores de Hanging Tree.
    -O inspetor Marshall e o reverendo Weston sempre almoam conosco aos domingos.
    Cal olhou para as famlias reunidas no gramado que cercava o armazm, saboreando pedaos de galinha frita e copos de leite fresco, enquanto as crianas brincavam 
livres. Pensou em todas as tarefas que o esperavam na fazenda e pensou em partir imediatamente, mas no conseguiu resistir ao olhar ansioso s irms Jewel.
    - Bem, j que  domingo... - Vendo o sorriso amplo de Millie, ele sugeriu: - Vo na frente. Irei encontr-las em seguida.
    Millie olhou para o saloon do outro lado da rua e, interpretando sua expresso crtica, Cal explicou:
    - Preciso comprar algumas coisas no armazm. No vou demorar.
    Satisfeita, ela afirmou com a cabea.
    - Est bem. Estaremos esperando por voc. - Acompanhada pelas filhas, Millie segurou a barra da saia e caminhou apressada pela calada de madeira, cumprimentando 
os conhecidos ao longo do caminho. As trs irms Jewel a seguiam, conscientes dos olhares curiosos que recebiam.
    A Hospedaria Potter era um lugar muito amplo e confortvel, com um salo de visitas formal mobiliado por um sof e vrias cadeiras estofadas em torno de uma 
lareira de pedras. Millie as conduziu atravs do salo, para o fundo da casa, onde o aroma de comida pairava no ar. Na sala de jantar, uma mesa enorme havia sido 
arrumada para diversas pessoas. Num mvel de canto, um vaso de flores do campo dividia o espao com meia dezena de tigelas cobertas por panos brancos. Millie as 
descobriu para revelar pes frescos e bolos assados recentemente.
    - Deve estar trabalhando desde o amanhecer - Prola comentou.
    - Para ser franca, comecei ontem  noite. O domingo  sempre movimentado por aqui. Muitos fazendeiros trazem suas prprias cestas de comida, mas os que ao tm 
esposa costumam comer aqui depois do servio religioso.
    Uma garota de doze ou treze anos apareceu na porta da cozinha.
    - O guisado est pronto - disse. - E a galinha e os biscoitos j foram arrumados em travessas, Sra. Potter.
    - Obrigado, Birdie. - Millie virou-se para as trs convidadas. - Birdie Bidwell,, essas so as senhoritas Prola, Jade e Rubi Jewel.
    Os olhos da jovem brilharam. As irms Jewel eram o que Hanging Tree possua de mais nobre!
    - Ol, Birdie. - Prola estendeu a mo e, constrangida  garota limpou as dela no avental antes de cumpriment-la.
    - Voc  a professora?
    - Isso mesmo. Quero dizer, se aparecer algum para aprender.
    - Gostaria que minhas filhas pudessem ir  escola - Millie comentou com ar sonhador.
    - E por que no podem? - Prola quis saber.
    -  muito longe, e elas ainda so pequenas demais para viajarem sozinhas. Desde que meu marido morreu, h cinco anos, trabalho duro para sustentar a famlia, 
e no posso abandonar a hospedaria para acompanh-las todos os dias.
    - E quanto a voc, Birdie? Prola encarou a jovem assistente da Sra. Potter.
    Ela balanou a cabea numa resposta negativa.
    - Gostaria muito de aprender a ler e escrever, mas tambm preciso trabalhar para sobreviver. - Sorriu e voltou  cozinha.
    Quando a porta se fechou, Millie contou:
    - O pai de Birdie sofreu um acidente h pouco mais de um ano. Caiu do cavalo. Os ossos fraturados foram emendados, mas o Dr. Prentice no conseguiu fazer nada 
pelas costas do pobre homem. Desde ento, ele nunca mais pde trabalhar. O salrio que pago a Birdie  pequeno, mas com esse dinheiro ela ajuda a me a comprar comida. 
Apesar de desajeitada e inexperiente, ela  responsvel e tem um bom corao.
    - Entendo. - Mais uma vez, Prola sentiu a distncia que a separava dessas pessoas, distncia criada pela riqueza que o pai acumulara. - Podemos ajud-la em 
alguma coisa enquanto os outros no chegam?
    - De jeito nenhum! Vocs vo pagar pela refeio, como todos, e meus hspedes nunca trabalham. - Millie estendeu a mo para receber os xales das jovens e levou-os 
para os cabides na entrada da sala. - Fiquem  vontade. Vou pedir a Birdie para trazer o ch.
    - Por favor, queremos realmente ajudar, chrie - Rubi insistiu.
    - Agradeo a oferta, mas no posso aceit-la.
    Antes que pudessem argumentar, as batidas na porta da frente atraram a ateno da dona do estabelecimento que, aliviada, convidou-as a sentarem-se  mesa enquanto 
corria a atender.
    Logo vozes masculinas assinalaram a chegada dos outros convidados.
    - Humm! Esse cheiro  maravilhoso! - o inspetor Regan elogiou enquanto livrava-se do cinturo com a cartucheira e o pendurava num cabide, junto com o chapu. 
- Aposto que preparou meu guisado favorito.
    - E biscoito de canela - acrescentou o reverendo Weston. - Nada perfuma tanto o ar como seus famosos biscoitos de canela.
    Rindo, Millie levou-os  sala de estar. Pela maneira como conduzia as apresentaes, era bvio que sentia-se confortvel na presena de membros do sexo oposto. 
Quando todos sentaram-se, ela foi para a cozinha. Cal chegou quando a refeio j comeava a ser servida.
    - Pensei que houvesse mudado de idia - Millie comentou com um misto de bom humor e censura.
    - Mais alguns minutos... E teria comido sua parte - o inspetor Regan brincou.
    Cal sentou-se ao lado de Prola. Mais uma vez, ela teve de assimilar o choque provocado pela proximidade fsica. Apesar de surpreendente e assustadora, a sensao 
no era desagradvel. Na verdade, sabia que poderia aprender at a apreci-la, se relaxasse na presena desse homem.
    Ao servir o capataz da Fazenda Jewel, Millie Potter parou para depositar um prato de pimentas vermelhas picadas sobre a mesa, diante dele. Com a intimidade conferida 
pela convivncia constante, pousou uma das mos sobre o ombro dele e murmurou:
    - Acho que j conheo todas as suas preferncias, no .
    - Aposto que sim. - As palavras de Quente Regan provocaram uma gargalhada geral. - Nada poder ser branco para um homem como Cal McCabe. Ele aprecia a vida como 
gosta de viver a vida. E todos ns sabemos qual  sua preferncia...
    Millie sorriu e completou com voz rouca:
    - Quanto mais apimentado, melhor.
    
    
    Captulo 6
    
    - Quanto mais apimentado, melhor.
    Todos conversavam, mas Prola mal ouvia o que diziam. No conseguia deixar de pensar na realidade inegvel. Estivera tentando se enganar com a idias de que 
um homem com Cal McCabe poderia interessar-se por algum como ela.
    Jamais tivera iluses a respeito de si mesma. Sabia que, num mundo cheio de pessoas interessantes e perigosas, seria facilmente ignorada. Sempre fora boa filha, 
obediente e conformada. Boa aluna, seguindo todas as regras. Pacata cidad, vivendo de acordo com a lei. Jamais pensara em ser rebelde, em desafiar normas. No podia 
ir contra a prpria natureza. Sabia o que os outros pensavam dela. Discreta. Sbria. Qual havia sido a palavra usada por Millie Potter? Branda. O oposto de apimentada. 
A nica coisa arriscada a que se atrevera havia sido a viagem ao Texas. E todos os dias descobria-se questionando essa deciso.
    Sentada, dominada pela prpria infelicidade, apenas ouvia enquanto Millie falava e ria. E flertava descaradamente com Cal e os outro homens reunidos em torno 
da mesa.
    - Tem havido muito interesse a respeito da escola, srta. Prola.
    A voz do reverendo Weston arrancou-a do estado reflexivo.
    - Interesse, talvez. Mas at agora ningum prometeu comparecer.
    - A distncia  grande demais para as crianas percorrerem - Millie Potter opinou. - No posso permitir que minhas filhas viagem sozinhas at a fazenda, e j 
ouvi outros habitantes da cidade dizerem a mesma.
    Prola teve uma idia.
    - E se os moradores de Hanging Tree transportassem todas as crianas juntas numa nica carroa?
    Millie parou para pensar.
    -  uma sugesto interessante...
    O inspetor Regan concordou.
    - Se as famlias revezarem-se para transportar as crianas, ningum ficaria sobrecarregado.
    O reverendo Weston fez um movimento afirmativo com a cabea.
    -  uma tima idia, srta. Prola. Antes de o dia acabar discutirei sua sugesto com todas as famlias que conseguir encontrar.
    Podia sentir a intensidade do olhar de Cal. Mantendo a cabea baixa. Prola provou o guisado. Era o melhor que j comera. Mais uma razo para no gostar de Millie 
Potter. Mas a verdade era que havia se simpatizado com a jovem viva. Admirava a tenacidade com que mantinha sua famlia unida, apesar da ausncia do marido. Cinco 
anos. Tempo demais criando trs filhas pequenas. Podia compreender que a levava a considerar todos os homens interessantes e encantadores. Para ela, todos eram maridos 
em potencial. E pelo que vir at agora, Millie poderia escolher entre muitos candidatos. Tinha tudo que um homem buscava numa esposa. Um lar aconchegante, uma famlia 
pronta e uma posio respeitvel na comunidade.
    Quando a refeio terminou, Millie serviu o caf e parou ao lado de Cal para retirar o prato vazio.
    - Preparei torta de maa - anunciou.
    Quando a dona da hospedaria voltou da cozinha, ele recebeu uma fatia maior que as outras.
    - Como esse caubi consegue ter tanta sorte? - o inspetor perguntou sorrindo.
    - Sei que essa  sua sobremesa favorita. - Millie acrescentou uma poro de creme ao doce antes de voltar  cozinha para buscar mais caf.
    -Pensei que a torta de Carmelita fosse a sua preferida - Prola sussurrou irritada.
    - E . Quando Carnelita est cozinhando - ele respondeu rindo.
    - Ora no sabia que era um sedutor, Sr. McCabe!
    Antes que o capataz pudesse responder, Millie voltou e serviu mais caf para todos.
    - Est satisfeito? - a Sra. Potter perguntou enquanto oferecia a bebida a Cal.
    - Mais do que satisfeito. _ O sorriso desapareceu de seus lbios quando ele virou-se para Prola e viu seu olhar de censura. Quase queimou a lngua ao engolir 
o lquido escaldante e, aborrecido, deixou a xcara cheia sobre a mesa.
    -  hora de irmos. Temos uma longa viagem a fazer.
    As trs irms Jewel levantaram-se e despediram-se de todos. Millie foi buscar os xales e acompanhou o grupo at a porta da frente. Assim que as jovens saram, 
ela pousou a mo sobre o brao de Cal para ret-lo.
    Jade e Rubi conversavam a caminho da carruagem, mas apesar das vozes excitadas das duas, Prola conseguiu ouvir fragmentos da conversa entre o capataz e a dona 
da hospedaria.
    - Havia me esquecido de como cozinha bem - ele disse, contando as moedas para pagar a refeio.
    - Agora que sua memria foi refrescada, espero que no passe tanto tempo longe da minha casa.
    - Vou tentar voltar mais vezes.
    As trs meninas correram para perto da me e esconderam-se, os olhos fixos em Cal. Ele piscou e afagou as cabeas ruivas, fazendo-as rir.
    Ajeitando o chapu sobre a cabea, despediu-se e caminhou at a carruagem. A mulher e suas filhas permaneceram na porta, acenando para os hspedes que afastavam-se.
    Prola estudou as costas eretas de Cal, os ombros largos, a maneira como os dedos bronzeados seguravam as rdeas. Enquanto Jade e Rubi riam e conversavam, ela 
permanecia em silncio. O que estava acontecendo? O sermo do reverendo Weston havia sido estimulante. Os hinos foram relaxantes. E a comida de Millie Potter era 
a melhor que j havia provado desde que deixara Boston. Devia estar satisfeita. Mas, em vez disso, tinha de lutar contra a depresso que ameaava invadi-la.
    S havia uma cura para isso. Assim que chegassem  fazenda, cavalgaria at a cabana. Apesar de ter perdido mais da metade do dia, ainda podia aproveitar as horas 
de luz que restavam para preparar o lugar para a manh seguinte.
    Trabalho duro. Isso era tudo de que precisava para manter a mente livre de preocupaes desnecessrias.
    
    O Cavalo de Cal subiu a encosta, movendo-se num ritual lento e preguioso. O entardecer caa sobre a terra, envolvendo as montanhas em sombras.
    Ao chegar no topo da inclinao, notou que uma luz brilhava no interior da cabana de Joseph. Tinha de parar de pensar nesses termos. Agora a cabana era a escola 
da cidade.
    A carruagem de Prola estava parada ao lado de fora, amarrada a um tronco de rvore. Sinal de que ela ainda permanecia l dentro.
    Ao aproximar-se, vislumbrou a figura delicada limpando as cadeiras e os barris vazios que serviriam de carteira.
    Cal desmontou e parou perto da porta. Prola levantou-se e levou uma das mos s costas. Deixando escapar um suspiro cansado, retomou a tarefa e terminou de 
limpar os mveis improvisados.
    Satisfeita, olhou em volta. Os olhos cintilavam de prazer  luz da lamparina. O cho e as paredes estavam limpos, e as mesas e cadeiras haviam sido arranjadas 
em fileiras perfeitas. Uma prateleira na parede lateral sustentava uma pequena coleo de livros velhos e usados. Lavando o pano em um balde com gua, torceu-o e 
comeou a limpar mais uma cadeira.
    Cal observou-a por mais alguns instantes e decidiu entrar.
    - Parece que est muito ocupada.
    - Oh! Voc me assustou! - Ela virou-se para encar-lo.
    Havia uma mancha escura em seu rosto, e ele pensou em limp-la. Para conter-se, cerrou os punhos e tentou ignorar os caracis que escapavam das fitas que adornavam 
a cabea delicada.
    - Por que no deixa esse trabalho para os empregados.
    - No quero afast-los de suas tarefas para fazer algo de que posso cuidar sozinha.
    Surpresa viu quando Cal apanhou outro pano e comeou a trabalhar na cadeira mais prxima.
    - J no fez muito por hoje?
    Ele encolheu os ombros.
    - Depois do dia que enfrentei, isso aqui parece brincadeira de criana.
    - Pois a brincadeira de criana me deixou exausta e com uma terrvel dor nas costas.
    Apesar do protesto, Prola continuou trabalhando com vigor.
    Limparam os mveis juntos num silncio confortvel.
    Quando a ltima cadeira terminou de ser esfregada, ela jogou o pano no balde e lavou as mos, enquanto Cal saa e retornava em seguida com uma pilha de madeira 
para a lareira. Ele ajoelho-se e acomodou a toras.
    - Amanh, s ter de acender o fogo para aquecer a cabana.
    - Obrigado. Carmelita mandou um dos pees aqui com uma cesta de comida. Est com fome?
    McCabe surpreendeu-se com oferta. E sentiu-se nervoso tambm. No estava preparado para fazer uma refeio em companhia de Prola Jewel. Ultimamente sentia coisas 
estranhas quando ela estava por perto.
    - No, obrigado. Estou indo embora.
    Nesse momento ela abriu a cesta, revelando pedaos dourados de frango frito e biscoito recm-sados do forno.
    No conseguirei comer tudo isso. - Prola riu, e o som alegre teve o poder de banir a tenso que o incomodava.
    -  evidente que Carmelita est habituada a cozinhar para homens.
    - Pensando bem, acho melhor comer alguma coisa. - Cal se decidiu ao sentir o aroma dos alimentos. - Tive um dia longo, e prefiro o tempero de Carmelita ao de 
Cookie.
    Prola abriu a toalha de linho sobre a mesa e comeou a depositar os pratos em cima dela. Alm dos pedaos de frango e biscoito, havia uma grande variedade de 
vegetais cozidos e um cantil de gua.
    - Agora tenho certeza que Carmelita pensara estar cozinhando para os pees. -Ela riu. - No como tanto desde os doze anos de idade, quando Charley Springer me 
desafiou a participar de um concurso de tortas no piquenique da igreja.
    Cal encarou-a com ar incrdulo.
    Voc aceitou o desafio?
    - No pude recusar. Fiquei enjoada durante dois dias e nunca mais fui capaz de olhar para uma torta de framboesa. Mas venci Charley e levei o trofu para casa.
    Cal tentou imagina uma mulher perfeita com o rosto enterrado numa torta de framboesa, mas era impossvel. Mesmo durante a infncia ela devia ter sido a prpria 
imagem da perfeio, sempre coberta de laos e fitas cor-de-rosa. Mesmo assim, o fato de ter aceitado um desafio to inusitado a tornava digna de sua admirao. 
Teria de rever sua opinio sobre Prola Jewel.
    Sentados, saborearam a refeio em silncio. Prola gostava de v-lo comer porque ele transformava o ato simples de mastigar a comida num momento de prazer. 
Cada pedao de frango, cada bocado de biscoito parecia torn-lo mais suave e feliz.
    - Por que quer lecionar? Cal perguntou enquanto alimentava-se.
    - Acho que sempre soube que seria professora. Meu pai esperava isso de mim. Minha me era uma professora muito competente, e vi as crianas da nossa vizinhana 
aprender a ler e escrever sob sua orientao. H algo de maravilhoso em satisfazer a necessidade de conhecimento.  como saciar a fome.
    A estava uma resposta simples e clara que McCabe podia entender.
    _ Gostaria que o futuro das crianas de Hanging Tree fosse mais iluminado. E se puder fazer parte desse futuro me sentirei recompensada.
    - Espero que esteja certa. Espero realmente que as coisas que pretende ensinar a esses garotos possam melhoras suas vidas. S preferia que fosse lecionar na 
cidade, em vez de traz-los para c.
    L estava a nota de censura novamente. Embora tentasse ignorar a pontada de dor, a reao vencia suas defesas com agilidade impressionante, chegando ao mago 
de sua alma como a pgina de um livro havia ferido seu dedo pouco antes, cortando-o.
    - No quero critic-la, mas esse lugar  muito isolado. Se precisar de ajuda, no haver ningum por perto para socorr-la.
    - No estarei to longe da fazenda. Alm do mais, tenho certeza de que muitos fazendeiros vivem isolados. E sobrevive, no?
    Cal podia contar dezenas de histrias sobre sobrevivncia nesse territrio duro e distante. Pensou nas mulheres que envelheciam antes do tempo. Nas crianas, 
foradas a desempenhar o trabalho de adultos para garantir o prprio sustento. Mas, em vez de revelar o que sabia, decidiu mudar de assunto.
    - Conte-me sobre sua infncia em Boston.
    Prola foi pega de surpresa, e por isso no podes deixar de admitir que o interesse a lisonjeada.
    - Para alguns ela seria considerada solitria. ramos apenas mame e eu.
    - Por qu?
    - Ns... Mantnhamos um crculo de amigos muito reduzido. - Perturbada com o olhar intenso, descobriu uma ltima tigela e revelou uma grande fatia de torta de 
maa. Grata pela interrupo, empurrou a sobremesa na direo dele. - Receio que tenha de comer sozinho. No suportaria nem mais uma migalha.
    - No obrigado. - Decidira ser educado, mas j podia at sentir o sabor da torta. - Comi a maior parte do seu jantar, e essa torta no  de framboesa. V em 
frente.
    Os dois riram da piada. Para encerrar a disputa, ela cortou um pequeno pedao do doce e passou o restante para ele.
    - Ainda no revelou muito sobre sua infncia.
    Prola suspirou, relutando em prosseguir.
    - Ainda era muito pequena quando minha me comeou a alfabetizar-me. Uma vizinha me ensinou as primeiras noes de msica e...
    - Msica?
    - Piano e voz. No tinha nenhum talento para isso, e ento outra vizinha decidiu me ensinar a arte da costura, que detestei desde o primeiro momento. Minha me 
acreditava que todos devem ser teis, e por isso insistia em me mandar de uma professora para outra. Como pagamento pelas lies, ela ensinava os filhos dessas mulheres 
a ler e escrever. Assim que atingi uma idade razovel, fui mandada para uma escola feminina onde conclu minha educao
    - Esteve numa escola de verdade?
    - Sim, estive. Precisava me preparar para uma profisso, nunca tive dvidas de que me tornaria professora, como minha me.
    Cal no disse nada. Apenas encarou-a com uma expresso estranha e reservada.
    Prola sabia que tinha o rosto vermelho. No sabia por que, mas abrigava uma sensao de ter dito algo muito revelador. Para um homem que crescera num ambiente 
selvagem e perigoso sua infncia devia parecer tola. Talvez ele j a houvesse classificado como uma mulher ftil e mimada que no sabia nada alm de ler, costurar 
belos vestidos e tocar msicas inteis.
    - Minha me morreu pouco antes da formatura, e depois, antes que pudesse aplicar tudo que aprendi, papai tambm se foi. - Ela encolheu os ombros. - E aqui estou 
eu, em Hanging Tree, no Texas.
    Mais uma vez a resposta foi o silncio. Ele a ajudou a recolher os utenslios que haviam usado para jantar e, depois de cobri-los com a toalha branca, Prola 
virou-se e descobriu que era estudada com interesse e ateno.
    - Obrigado por dividir a comida comigo- ele disse virando-se de repente e caminhando at a porta.
    - Foi... Um prazer. - E era verdade. Havia apreciado a interrupo inesperada.
    - Vamos? - o capataz convidou-a, apagando a lamparina, segurando a cesta com uma das mos e o brao dela com a outra. -  hora de voltar  fazenda.
    L fora, ele a ajudou a subir na carruagem, amarrou o cavalo atrs do veculo e acomodou-se no lugar do condutor.
    - Disse que precisava preparar-se para uma profisso - lembrou, estalando as rdeas para pr a carruagem em movimento. - Por qu?
    - Eu disse? Tem certeza de que ouviu bem?
    Ele afirmou com a cabea.
    Prola passou a ponta da lngua pelos lbios, censurando-se pela falta de cuidado. Agora que comeara a falar, no tinha mais meios de preservar a prpria intimidade. 
Oh, como gostaria de no ter revelado coisas to ntimas.
    -Por que... - Uma pausa rpida e ela respirou fundo, reunindo coragem para prosseguir. - Bem, as alunas da escola dividiam-se em dois grupos. As que se casariam, 
e por isso precisam aprender a comportar-se em sociedade, e as que preparavam-se para exercer uma profisso. Eu fazia parte do segundo grupo.
    - E por que uma jovem bonita e bem-educada no acreditava que um dia se casaria?
    Devia sentir-se lisonjeada com a pergunta. Em vez disso, experimentava apenas um profundo desconforto.
    - Eu... Quero dizer, minha me... - Erguendo os ombros, disse a si mesma que no tinha do que envergonhar-se. - Como deve saber, minha me e Joseph Jewel nunca 
se casaram. Em Boston, nenhum cavalheiro decente considera a idia de casar-se com uma mulher que no seja... Respeitvel.
    Cal abriu a boca para protestar, mas ele seguiu em frente como se temesse perder a coragem.
    - Uma mulher que no possa ser recebida na famlia de um homem, em sua igreja e na comunidade por ele freqentada, no  digna de uma proposta de casamento. 
Portanto, sempre soube que jamais me casaria. Precisava preparar-me para o futuro, para o trabalho que garantiria minha sobrevivncia.
    De cabea baixa, Prola no viu o brilho de raiva que iluminou os olhos dele.
    As mos apertavam as rdeas com mais fora.
    - O que aconteceu entre seus pais no tem nada a ver com voc, Prola.
    -  claro que tem. - Ela levantou a cabea para olhar o cu estrelado. - Durante toda minha vida, tive de conviver com a certeza de estar sendo julgada, no 
s pela maneira como me conduzia, mas pelas escolhas de meus pais. Se cometesse um erro, por menor que fosse, as pessoas diriam que estava apenas seguindo minha 
natureza.
    - Voc fala como se tivesse vergonha de sua me e de seu pai.
    - Nem pense nisso. Sempre me orgulhei de minha me e quero ser como ela. Quero encher mentes mais jovens de conhecimento. E quanto ao meu pai, saiba que eu o 
adorava embora mal o conhecesse. Mas as pessoas podem ser cruis. O fato de meus pais jamais terem se casado era de conhecimento pblico, e para os habitantes de 
Boston, sempre to sbrios e moralistas, isso era uma barreira. Reconheo que alguns tentavam ser justos, mas todos me menosprezavam.
    - E por que se preocupa com a opinio dos outro?
    Prola encolheu os ombros e tentou sorrir, mas a voz tremeu e revelou a intensidade da emoo que a invadia.
    - Quando se passa toda uma vida ouvindo as opinies de outras pessoas, voc acaba dando uma enorme importncia ao que pensam.
    Oh, como sabia disso!
    Sem pensar, Cal afagou as mos delicadas que eram mantidas juntas e apertadas, O contato, apesar de breve, foi suficiente para inund-lo com um deliciosos e 
conhecido calor.
    - Acho que  hora de ouvir algo que seu pai me disse a muitos anos.
    Surpresa ela ergueu a cabea para encar-lo.
    - Agora voc est no Texas, Prola. - Os dedos acariciavam os dela, como que para enfatizar as palavras. - Aqui, no ser julgada pelas cartas que recebe, e 
sim pela maneira como as utiliza no jogo.
    Por alguma estranha razo, sentia-se sufocada. Teve de engolir vrias vezes antes de conseguir dizer:
    - Vou... Vou me lembrar disso.
    O silncio da noite os envolveu. At mesmo o estalar das rodas e o som dos cascos dos cavalos pareciam abafados.
    Dessa vez, quando parou diante da casa, na fazenda, Cal permaneceu na carruagem.
    Surpresa, Prola fitou-o e deparou-se com seus olhos atentos e profundos.
    - O que... O que houve? - perguntou num sussurro.
    - Nada.  que... Eu... - O capataz inclinou-se e ela sentiu o hlito morno no rosto. - Gosto de olhar para voc
    Deus, Cal McCabe ia beij-la! Prola tentou afastar-se, mas a mo em sua nuca a impediu de mover-se. Em seguida os lbios tocaram os dela num beijo suave como 
o orvalho nas ptalas de uma rosa.
    Devia afastar-se. Devia, mas permaneceu onde estava. Era impossvel mover-se. Tudo que conseguia fazer era ficar ali sentada, enquanto os lbios roavam os dela.
    Cal ergueu a cabea. Com as mos segurando seu rosto, encarou-a e disse.
    - Voc  muito mais doce que uma torta de maa. Acho que no vou resistir a um segundo pedao.
    Ela suspirou ao v-lo inclinar-se novamente. Dessa vez, tomada pela intensidade do momento, apoiou-se no peito musculoso e ofereceu aquilo que ele buscava.
    O beijo foi ansioso, urgente. No havia mais nenhum sinal de ternura e gentileza. Os braos a envolviam como garras, pressionando-a contra o peito onde batia 
um corao acelerado.
    Um gemido escapou de seus lbios e ela rendeu-se ao prazer. Quando a lngua deslizou por entre os lbios, Prola ficou chocada com a prpria reao. Em vez de 
afastar-se, abriu a boca e deixou-se invadir pela deliciosa onde de calor provocada pela carcia atrevida.
    Enquanto a beijava, Cal afagava suas costas espalhando pequenas labaredas por seu corpo. Inundada por sentimentos intensos e desconhecidos, Prola tinha a impresso 
de estar sendo consumida por um incndio que alastrava-se por todas as veias, despertando necessidades que jamais imaginara possuir.
    Cal sabia que estava pisando em terreno perigoso. No tinha nenhum direito s coisas que passavam por sua cabea. No podia nem imagin-las. Era hora de retroceder. 
No entanto, no conseguia afastar os lbios daquela doce fonte de prazer. S mais um instante... S mais um toque...
    As mos calejadas deslizaram pelo corpo sinuoso at encontrarem a curva dos seios. Por um momento, deixou os polegares tocarem os mamilos rgidos. O suspiro 
de Prola foi como um chamado da realidade. Apavorado, McCabe soltou-a e ergueu a cabea.
    Prola respirou fundo. Seus dedos estavam crispados em torno de uma poro do tecido da camisa do capataz, mas no sabia como eles haviam ido parar l. E o corpo... 
Estava colado ao dele de maneira provocante, como se suplicasse por mais uma carcia, mais um beijo.
     medida que o bom senso foi ocupando o espao at ento tomado pela paixo, ela baixou as mos e afasto-se devagar.
    Sem dizer nada, Cal desceu da carruagem, e ergueu-a nos braos. A onda de calor foi instantnea. Depois de deposit-la no cho, abaixou as mos e deu um passo 
atrs temendo toc-la novamente.
    Ela evitava encar-lo
    - Boa noite, Cal.
    O capataz voltou ao veculo, grato pela distncia que os separava.
    - Espero que seu primeiro dia na escola seja tudo que sempre sonhou.
    - Obrigado.
    Ao estalar as rdeas, surpreendeu-se com o tremor que o percorreu. Era inacreditvel, mas a sbria e discreta srta. Prola Jewel conseguira faz-lo tremer!
    No estbulo, trabalhou duro, com rapidez e eficincia, grato pela atividade que o mantinha ocupado. Enquanto transferia um pouco de feno para as baias, resmungava:
    - Ento, srta. Prola Jewel decidiu reparar os erros de seus pais tornando-se a pessoas mais perfeita do mundo. Acreditou que, se fosse impecvel na maneira 
de vestir e comportar-se, as pessoas descentes de Boston pensariam que havia superado sua origem condenvel e a aceitariam em sua ridcula sociedade.
    Furiosos, concluiu a tarefa e saiu para olhar o cu estrelado. Um sorriso bailava em seus lbios quando ele acendeu o cigarro. Prola podia protestar quanto 
quisesse, mas jamais poderia ocultar um fato bvio. Quando a beijara, ela correspondera. E no com uma jovem reprimida pela lembrana dos erros paternos. Beijara-o 
como uma mulher. Uma mulher cujas aes mascaravam uma profunda e ardente sensualidade.
    
    
    Captulo 7
    
    O dia ainda no amanhecera, mas Perola j estava acordada, olhando para o teto. Tivera uma noite agitada. Imagens de Cal McCabe invadiram seus sonhos, provocando 
reaes inconvenientes e incmodas. Os beijos no a perturbaram tanto quanto amaneira como havia respondido a eles. O que acontecia com ela quando era envolvida 
por aqueles braos fortes? Parecia perder a cabea cada vez que ele a tocava. E a noite anterior fora um exemplo de tudo que no devia fazer. Comportara-se como 
uma... Como uma prostituta.
    Tentou bani-lo para o fundo da mente, mas o rosto do capataz insistia em perturbar seus pensamentos. S havia uma forma de esquec-lo, pelo menos temporariamente, 
e era pensando no dia que a esperava.
    A enormidade do que fizera a pressionava como uma chapa de ao sobre seu peito. Desafiara Cal e os moradores da cidade para abrir a escola. Pior, rejeitara suas 
preocupaes legtimas concernentes  adequao do momento e  localizao. Prola sentou-se na cama. E se ningum aparecesse? E se descobrisse que havia tido todo 
aquele trabalha por nada? Seria objeto de escrnio na cidade! Pior ainda, seria humilhada diante de Cal e as irms. Podia suportar o ridculo pblico, mas no tolerava 
a idia de encarar a famlia e Cal McCabe como uma derrotada.
    Cal. A estava novamente. Aquela pequena corrente eltrica cada vez que pensava nele.
    E se as previses sombrias se realizassem? 
    Ele conhecia o territrio, e devia saber que tipo de risco esperar.
    Oh, Deus, o que havia feito? Podia quase ouvir a voz da me advertindo a filha pequena. Voc deve buscar a perfeio em tudo, Prola. Se decidir que algo merece 
ser feito, ento faa direito.
    Perfeio.
    Com um suspiro aborrecido, Prola empurrou as cobertas e atravessou o quarto para usar o lavatrio sobre a cmoda. Lavou-se e vestiu-se depressa, no frio do 
amanhecer, certificando-se de que as roupas e o cabelo estavam to perfeitos quanto podia esperar nessa localidade distante. Escolhera roupas simples, como convinha 
a uma professora. Um vestido rosa-plido com mangas longas e gola alta, fechado por uma fileira de botes que ia do pescoo  cintura. A barra da saia ampla encontrava 
as pontas das botas de couro. O cabelo havia sido preso num coque no alto da cabea, mais alguns cachos comeavam a escapar dos grampos que tentavam mant-los no 
lugar. Por mais que tentasse, Prola jamais conseguia domestic-los. Conformada, pegou o xale e a sombrinha e desceu.
    Era agradvel estar sozinha na cozinha. Apesar de todo o carinho que sentia pelas irms, s vezes sua conversa incessante a incomodava. E quando Carmelita estava 
por perto, a cozinha tornava-se seu domnio exclusivo, e todos os outros eram considerados intrusos.
    Prola jogou uma tora no fogo, espalhando pequenas centelhas incandescentes em torno do aparato de tijolos. Em poucos minutos o fogo ardia intenso, iluminando 
a aposento e espalhando calor. Enquanto esperava que a gua para o caf fervesse, concentrou-se na tarefa de preparar uma cesta de comida para alimentar-se ao longo 
do dia.
    - Acordou cedo.
    A voz de Cal a fez virar-se. Como sempre, v-lo foi suficiente para acelerar as batidas de seu corao.
    Hoje ele vestia-se de preto e levava o cinturo com as cartucheiras em torno dos quadris. Barbeado e com os cabelos ainda molhados era a imagem que perturbara 
seus sonhos durante toda a noite.
    Prola no conseguia desviar os olhos daqueles lbios. Lembrando-se do beijo que haviam trocado foi invadida por um calor intenso que a deixou tonta e fez baixar 
a cabea.
    - No consegui dormi - confessou.
    - Nervosa?
    Ela afirmou com um movimento de cabea, recusando-se a encar-lo.
    - Eu fao o caf - Cal ofereceu. - Quer uma xcara?
    - Acho que vou precisar de algo mais estimulante.
    Pouco depois ambos saboreavam a bebida aromtica e forte que ele preparara. McCabe permaneceu ao lado dela enquanto a via embrulhar pedaos de frango frito e 
biscoitos numa toalha de linho e coloc-los na cesta. De repente inclinou-se e os lbios quase tocaram sua testa.
    - Est perfumada...
    Prola ficou paralisada, lutando contra a tentao de empurr-lo. Ou de mergulhar em seus braos. Mal conhecia o sujeito, e j sofria uma infinidade de conflitos 
por causa dele.
    - Deve ser o sabonete de lavanda.
    - Lavanda? No pode ter encontrado esse tipo de coisa em Hanging Tree.
    Ela riu.
    - Tem razo. Eu trouxe comigo de...
    - Eu sabia. Tem cheiro de Boston. Como voc.
    Teria alguma idia de como a perturbava com essas brincadeiras? Prola pensou em fugir correndo, mas conteve-se e terminou de arrumar a cesta. Feito isso, apoderou-se 
novamente da xcara e decidiu saborear o caf com calma. Ainda tinha algum tempo.
    - Quer comer alguma coisa? - Cal perguntou.
    - Quem iria preparar a refeio?
    - Acha que Carmelita  a nica que sabe cozinhar por aqui? - Sem esperar por uma resposta, Cal atravessou a cozinha e posicionou a frigideira sobre a chama do 
fogo. Com a confiana de quem sempre cuidou das prprias necessidades, bateu alguns ovos e fatiou o po.
    - Carmelita est sempre dizendo que os pees comem o que encontrarem na frente.
    -  verdade. Carne de boi, porco, veado ou bfalo, no faz diferena. No queremos saber se o animal anda, voa ou rasteja. Comemos at cobras. - Vendo que ela 
levava a mo ao estmago, sorriu e perguntou: - Por acaso a estou aborrecendo?
    - No.  claro que no. - Parada no meio da cozinha, sentia-se completamente intil enquanto ele cozinhava com a desenvoltura conferida pela prtica.
    -  bom saber. Como estava dizendo, j comi razes, frutos e ervas. Bebi gua de poas que nem animais se atreviam tocar, caf to forte que voc no teria suportado 
o cheiro, e usque capaz de embriagar na primeira dose. Por isso me arrisco a comer a comida que preparo.
    Logo o aroma dos ovos batidos e bem temperados comeou a espalhar-se pelo aposento. Ao v-lo despejar a mistura dourada num prato, Prola compreendeu que ele 
a estivera provocando. Cozinhar era apenas mais uma de suas habilidades, mais uma atividade que ele desempenhava com competncia e segurana.
    A sensao de inutilidade que a incomodava cresceu.
    Sentada  mesa, serviu-se de uma pequena poro de ovos e passou o restante para o caubi. No surpreendeu-se quando ele utilizou o espao deixado por ela no 
prato para acrescentar vrias fatias de pes cobertas por gelia de morangos silvestres.
    Enquanto ela tentava ao menos provar a refeio, Cal devorava sua parte com apetite invejvel. Sem querer, olhou para mo calejada que segurava a xcara, mais 
adequada a empunhar uma arma ou laar uma rs. E no entanto, essa mesma mo grosseira e enorme a tocara com ternura, como se fosse uma flor delicada.
    - Carmelita diz que os caubis so criaturas estranhas sempre partindo para destinos desconhecidos onde passam mais tempo com seus cavalos do que com outras 
pessoas. - Prola baixou o tom de voz, percebendo que estava revelando mais do que pretendia. Ela comentou que s uma tola pensaria em casar-se com um caubi.
    Cal riu.
    - Ela deve saber o que est dizendo. Jos e um dos melhores vaqueiros desse territrio, e os dois esto casados e apaixonados desde que os conheci.
    Sabia que ele dizia a verdade. Havia notado como o rosto da governanta tornava-se radiante sempre que o marido vinha busc-la na carroa. Embora falassem pouco, 
o amor que os unia possua uma linguagem prpria.
    - No est com fome?
    - O qu? Ah, a comida... Deve ser o nervoso. No consegui dormir bem, e agora perdi o apetite.
    Ele a surpreendeu tocando sua mo sobre a mesa.
    - Vai dar tudo certo.
    Dessa vez a onda de calor foi mais intensa.
    Prola levantou-se, sentindo uma necessidade urgente de respirar ar fresco.
    - Bem,  melhor ir andando. Ainda tenho de cuidar dos ltimos detalhes.
    Cal tambm levantou-se.
    - Trarei sua carruagem e o cavalo antes de partir para o pasto norte.
    - No  necessrio. Posso ir buscar o veculo sozinha, ou pedir a um dos pees para...
    - Sei que pode. - Ele a encarou por alguns instantes antes de dirirgir-se  porta e sair.
    Minutos mais tarde ela ouviu o som das rodas rangendo no ptio e foi para a varanda. Cal ajudou-a a acomodar-se na carruagem e entregou a cesta com a comida.
    - Eles iro - disse, notando sua aparncia tensa.
    - Gostaria de ter tanta certeza.
    - No se preocupe.
    - Mesmo que os alunos apaream, acha que ser pelo amor aos estudos, ou por simples curiosidade com relao  Fazenda Jewel?
    Os comentrios que Cal fizera anteriormente haviam lanado sementes de desconfiana em sua mente. Embora ele no houvesse voltado a mencion-los, no conseguia 
esquecer sua desaprovao.
    - Que diferena faz? - McCabe perguntou. - Qualquer que seja a razo que as traga at aqui, elas partiro levando mais conhecimento do que trouxeram, conforme 
voc mesma disse.
    - Sim, talvez tenha razo. - Prola sacudiu as rdeas.
    - Gostaria que pensasse na minha sugesto sobre o rifle. Ficaria mais sossegado se soubesse que pode contar com alguma proteo na cabana.
    - Proteo? - Ela balanou a cabea. - Uma arma serviria apenas para enfurecer um possvel atacante. Jamais seria capaz de disparar um tiro contra quem quer 
que fosse. Considero esse tipo de atitude brbara.
    Algo brilhou nos olhos de Cal, mas ele manteve-se em silncio.
    Prola estalou as rdeas mais uma vez, e o cavalo partiu puxando a carruagem.
    
    O cu ainda estava escuro quando ela deixara a casa da fazenda. Quando desceu da carruagem e abriu a porta da escola, o sol levantava-se no horizonte e envolvia 
a terra num suave brilho dourado.
    Ela atravessou a sala e ajoelhou-se ao lado da lareira. Com dedos trmulos, aproximou um fsforo da madeira embebida em combustvel e esperou que o fogo espalhasse 
seu calor. Logo todo o ambiente era inundado pela luz alaranjada das chamas que baniam o frio do alvorecer.
    Prola desempenhou suas tarefas com movimentos apresados, ansiosa para preparar tudo antes da chegada dos alunos. Havia um balde de gua num canto e um pano. 
Com movimentos deliberados e preciosos, escreveu seu nome num pedao de papel e colocou-o sobre a mesa. Por precauo, limpou mais uma vez as mesas e cadeiras, embora 
estivessem brilhando.
    Depois aproximou-se da porta e olhou para fora. Nenhum sinal de cavalo ou carroa se aproximando.
    Suspirou, tentou manter apenas pensamentos positivos. Essa era uma daquelas raras manhs de primavera. Embora o ar trouxesse a promessa de chuva e a lembrana 
do frio da madrugada, o sol, matinal bania as ltimas sombras aos ps do pico da Viva.
    Usando uma pedra, manteve a porta aberta a fim de permitir a entrada do ar perfumado na cabana mida. Depois sentou-se num degrau e ergueu o rosto para o sol. 
Permaneceu ali durante alguns minutos antes de ceder a inquietao que a dominava.
    Tentando ocupar-se, caminhou at um campo prximo e colheu flores com as quais fez um buqu. As cores vibrantes dos botes e encantavam, e a rea ao p das montanhas 
era como um quadro pintado por um artista inspirado.
    Quando voltou  cabana, Prola ajeitou as flores numa vasilha com gua sobre sua mesa.
    Desesperada com a falta de atividades subiu numa escada de madeira que levava a uma pequena plataforma junto ao teto. O lugar estava coberto de palha. Num canto 
havia um cobertor velho e empoeirado feito com pele de bfalo, e ela o apanhou para lev-lo ao rosto.
    Seu pai havia dormido ali. Quando jovem determinado a progredir usando apenas o prprio trabalho, ele construra a cabana no meio do nada. Armado somente com 
os dois braos, havia superado obstculos que teriam destrudo homens menos tenazes, e chegara muito alm dos sonhos mais grandiosos.
    Os dedos apertavam o cobertor. Tambm alcanarei o sucesso, papai, prometeu, fechando os olhos para conter as lgrimas.
    Em seguida ela dobrou a pea com cuidado, devolveu-a ao lugar de origem e desceu.
    Mais uma verificao rpida da rea em volta da cabana a deixou apreensiva. O sol j ia alto no cu, e ainda no havia nenhum sinal de cavalo ou carruagem aproximando-se. 
Nenhuma criana. Nenhum aluno para sua escola.
    Apesar de mal ter provado o caf da manh, Prola no tinha qualquer interesse no almoo. Ignorando o frango frito, comeu dois biscoitos e sentiu que eles paravam 
em sua garganta como areia seca, ameaando sufoc-la. Nem mesmo uma boa quantidade de gua proporcionou o alvio desejado. Suspirando, deixou a cesta de comida de 
lado e desistiu de alimentar-se.
    Andando pela sala, tocou cada mesa e cada cadeira, deslizando os dedos pelos dorsos dos livros antigos. Como havia sido pretensiosa. Imaginara-se lendo para 
as crianas, apresentando a elas os fascinantes personagens e levando-as para locais desconhecidos e exticos. Lugares que elas jamais conheceriam, seno atravs 
das pginas de um livro.
    Como pudera ser to tola? Havia visto a reao provocada por sua proposta. Rollie Ingran afirmara que a escola era para crianas ricas, e todos haviam concordado 
com a noo preconceituosa e errada.
    Uma lgrima brotou no canto de seu olho. Limpou com o dorso da mo. No choraria. No podia chorar. Se deixasse escapar uma nica lgrima, no seria capaz de 
controlar a torrente que se seguiria.
    Mais uma vez, Prola foi at a porta e olhou para fora. O sol comeara sua descida em direo ao horizonte, e ainda no havia uma nica carruagem  vista.
    Um sentimento de melancolia a invadiu. O que havia esperado? No pertencia a esse lugar. Jamais adequaria-se. Esse havia sido o lar de seu pai, e ser filha dele 
no era o bastante para sentir-se em casa. No era boa o bastante aos olhos dessas pessoas. Decepcionara-o. Deixara de cumprir a promessa que havia feito. Intil. 
Sim, no passava de uma criatura presunosa e intil.
    Prola sentou-se no degrau e enterrou o rosto entre as mos. Por que expusera-se a tamanho sofrimento? No estava em Boston.
    Exatamente, confirmou uma voz interior. Percorrera todas as distncias entre os dois estados para escapar das restries impostas pela cidade onde crescera. 
Para descobrir o que havia encantado tanto seu pai nessa terra inspita e rude. Viera ao Texas para conhecer o lugar selvagem que oferecia liberdade a qualquer um 
disposto a trabalhar duro e perseguir objetivos dignos.
    Respirando fundo, lutou contra o tumulto que dominava suas emoes e levantou a cabea. No permitiria que essa terra a derrotasse. Nem cederia diante da presso 
exercida por seus habitantes.
    Foi nesse momento que ela viu uma carroa aproximando-se devagar. Meia dzia de crianas ocupavam o assento traseiro. Cal manejava as rdeas, e seu cavalo trotava 
com elegncia atrs do veculo.
    A carroa parou. Imediatamente as crianas comeavam a descer, as maiores ajudando as menores. Todas falavam ao mesmo tempo.
    - A carroa perdeu uma roda - disse April Potter, a menina de cinco anos de idade.
    - Comeamos a caminhar de volta  cidade - continuou May Potter.
    - Tnhamos quase certeza de que perderamos nosso primeiro dia de aula - completou une Potter.
    As trs escondiam-se atrs da saia de Birdie Bidwell, que parecia prestes a explodir de contentamento. 
    - Meus pais disseram que eu poderia vir ocasionalmente, que ser bom se eu conseguir aprender a ler e escrever - ela comentou orgulhosa.
    - Travis estava no comando, e ele disse que tnhamos de permanecer juntos - disse um garoto pequeno que estendeu a mo e apresentou-se. - Meu nome  Bartholomew 
Adams, mas todos me chamam de Bart.
    Emocionada demais para encontrar as palavras, Prola aceitou o cumprimento em silncio. Precisava reencontrar a compostura. Sentia uma enorme vontade de chorar, 
dessa vez de alegria, mas ainda sentia-se insegura demais para dar vazo aos sentimentos. Por isso limitou-se a mover a cabea em sentido afirmativo enquanto cada 
criana fazia a narrativa. E durante todo o tempo seus olhos eram atrados para a carroa, onde Cal segurava as rdeas e a observava em silncio
    -Meu pai que j tenho idade suficiente para cuidar dos outros - explicou o mais velho do grupo, um menino chamado Travis Worthing. - Alm das crianas da cidade 
- ele apontou para as filhas de Millie Potter e Birdie - paramos em algumas fazendas para apanhar os outros. Mas ento perdemos uma roda, e como nunca havia consertado 
uma carroa sozinho, decidi deixar o veculo e voltar para casa caminhando com o grupo.
    Muito sensato, Prola pensou, incapaz de formular as palavras por causa do n que bloqueava sua garganta.
    - Mas o Sr. McCabe apareceu e ofereceu-se para reparar a roda e nos trazer at a escola - Bart Adams revelou.
    - Ns nos sentamos na grama e comemos os nossos lanches enquanto o Sr. McCabe cavalgava de volta  fazenda para apanhar as ferramentas necessrias - Birdie Bidwell, 
cujos cabelos dourados pareciam uma cortina de seda, estava quase sem flego quando concluiu. - E aqui estamos ns, srta. Jewel.
    - Aqui esto vocs. O primeiro dia de aula transformou-se numa verdadeira aventura, pelo que acabaram de relatar. - Finalmente Prola havia recuperado a voz. 
- A apario do Sr. McCabe foi muito oportuna. Sorte nossa, crianas. Muito bem, entrem e sentem-se. Irei encontr-los num minuto.
    Felizes, os pequenos passaram por ela e todos expressaram espanto e admirao ao conhecerem a sala de aula.
    Cal desceu da carroa para soltar o cavalo que trouxera amarrado no veculo.
    -Como conseguiu encontrar as crianas no momento to conveniente? - Prola falava baixo para que os alunos no a ouvissem no interior da cabana.
    Ele encolheu os ombros.
    - Foi apenas uma feliz coincidncia.
    - Coincidncia? Voc disse que ia trabalhar no pasto norte.
    -  verdade.
    - Cal, est falando com uma professora! O norte fica naquela direo. - Apontou. - No teria encontrado as crianas a menos que sasse do seu caminho para procur-las.
    Quando ele no disse nada para defender-se, Prola insistiu:
    - Estava procurando por elas?
    O capataz montou, tentando escapar da pergunta.
    - Eu... Notei que a escola estava vazia.
    - Estava me espiando?
    - Prola, voc estava sozinha. Desprotegida. Isolada. Cuidar de sua segurana  apenas minha obrigao.
    - Mas se ningum houvesse aparecido para o primeiro dia de aula, teria conseguido provar o seu ponto de vista. No era isso que queria?
    Cal piscou e o corao da professora deu um salto inesperado.
    - No queria que todo aquele trabalho de ontem se perdesse. Afinal, tambm investi tempo e esforo na limpeza dessa cabana. Bem,  melhor ir trabalhar, professora. 
Parece que vai estar muito ocupada as prximas horas.
    Com um sorriso de pura alegria danando nos lbios Prola o viu afastar-se num trote lento. Depois virou-se e foi ao encontro dos alunos.
    
    
    Captulo 8
    
    - Nos vamos fazer somas? - Bartholomew Adams perguntou ansioso. Escolhera a primeira cadeira da fileira, a mais prxima da mesa de Prola. Pelo sorriso amplo 
e as maneiras agradveis era evidente que estava satisfeito com o fato de freqentar a escola. Podia tornar-se til para a estimulao e o incentivo dos outros alunos.
    - Hoje no teremos tempo para isso - Prola explicou. -  melhor aproveitarmos o que resta do dia para nos conhecermos. Comearemos por voc Bart. Quantos anos 
tem?
    - Oito, mas meu pai diz que sou grande demais para a minha idade. Temos um pedao de terra do outro lado do pico da Viva. Todos os anos, quando o inverno chega, 
terminamos de colher as espigas de milho e levar o gado para Albilene, papai ganha algum dinheiro extra, cortando o feno aos ps da montanha. Eu fico em casa com 
minha me e duas irms mais novas. Nessa poca sou responsvel pelas tarefas da fazenda.
    - Aposto que seus pais apreciam sua cooperao, Bart - Prola olhou para o menino mais velho da turma, que havia ido sentar-se na ltima cadeira da fila. - E 
voc, Travis?
    Ele levantou-se numa atitude respeitosa.
    - Meu nome  Travis Worthing completarei treze anos, e meu pai afirma que no preciso estudar para cumprir minhas obrigaes. No poderei vir todos os dias, 
mas estarei aqui sempre que for possvel. Na verdade, s decidi comparecer porque minha me quer que eu aprenda a ler a escrever.
    -  um excelente objetivo, Travis. Voc ser bem-vindo sempre que puder comparecer.
    Ele sorriu e sentou-se. Prola sabia que o garoto preferia estar arando o campo a permanecer sentado numa sala de aula, e agradeceu ao cu pela me sensata que 
valorizava uma boa educao.
    Em seguida foi a vez da menina sentada na frente de Travis.
    - Conte-nos sobre voc, Birdie.
    A garota ficou em p, alongando o corpo de maneira a parecer mais alta do que realmente era.
    - Meu verdadeiro nome  Bertha Bidwell. Mas quando era pequena, no sabia pronunci-lo e acabei me contentando com Birdie. Agora j nem me lembro que sou Bertha. 
Tenho quase doze anos. Minha me me ensinou-me a escrever algumas palavras, como meu nome e o dela. Tambm sou capaz de ler coisas simples, como os cartazes de Procura-se. 
Mas gostaria de poder ler sentenas inteiras, talvez at livros. Por isso estou aqui. Mas, como Travis, no virei todos os dias. Meus pais precisam da minha ajuda 
em casa, e tambm trabalho na hospedaria da sra. Potter sempre que  necessrio. 
    Birdie sentou-se e Prola olhou as trs irms Potter. Elas mantinham os olhos baixos, recusando-se a encar-la.
    - Muito bem, agora restam apenas April, May e June. Qual de vocs quer comear?
    As trs entreolharam-se, mas foi June, a mais nova, quem levantou.
    - Meu nome  June Potter. Tenho cinco anos de idade.
    - Obrigado, June. Voc  muito corajosa.
    Relutante, a segunda irm ps-se de p.
    - Sou May Potter, tenho seis anos e sou filha da dona da hospedaria da cidade.
    - Seja bem-vinda, May.
    Prola olhou para a mais velha que, lentamente, levantou-se.
    - Meu nome  April Potter. Completarei sete anos e no tenho pai.
    No tenho pai.
    Prola percebeu que a criana acreditava que essas palavras a definiam. Com mais velha era ela quem guardava as lembranas mais ntidas do pai, e tambm quem 
sentia a perda de maneira mais dolorosa e marcante.
    - Tambm perdi meu pai - a professora falou com ternura. - E sinto muita saudade dele.
    A pequena encarou-a com expresso surpresa.
    - Muito bem, agora  minha vez. Meu nome  srta. Prola Jewel. - Mostrou a placa onde escrevera o prprio nome. - At recentemente minha casa ficava em Boston. 
Sou nova no Texas, e no sei muito sobre meu novo lar. Assim, vocs podero me ensinar enquanto aprendem comigo.
    A sugesto de que tambm poderiam ser professores excitou as crianas.
    - Gostaria que cada um de vocs usasse o pedao de carvo sobre a mesa para tentar escrever o prprio nome. Quando terminarem, tragam o trabalho  minha mesa 
e o corrigiremos juntos.
    A sala foi invadida pelo silncio enquanto as crianas cumpriam o primeiro dever. O tempo passou depressa enquanto Prola verificava cada nome e oferecia palavras 
encorajadoras. Depois ela formou as letras que esperava que exercitassem antes da prxima aula.
    O dia chegava ao fim. Prola sabia que os alunos teriam de percorrer uma distncia considervel para voltarem s suas casas, onde ainda cumpririam as tarefas 
dirias. Mesmo assim, adiava o momento de dispens-los. Escolhendo um livro na estante, ela anunciou:
    - Gostaria que ouvissem algo. Vou ler um pequeno trecho antes de encerrarmos nosso primeiro dia de aula. - Com voz clara, a professora comeou: - No incio Deus 
criou o cu e a terra. A escurido cobria o abismo e o esprito de Deus pairava sobre as guas. Deus disse: "Faa-se a luz", e a luz se fez. Ele separou a luz a 
escurido, chamando-as de Dia e Noite. E houve o amanhecer e o anoitecer, o primeiro dia.
    Ela ergueu a cabea. As crianas a fitavam como se houvesse falado num idioma estranho.
    - Essas so as primeiras palavras da Bblia - explicou. - Extradas do Livro de Gnesis, onde  descrita a criao do mundo. Se forem persistentes e determinados, 
um dia podero ler essas mesmas palavras sozinhos.
    - Quer dizer... - a voz de Birdie era incrdula. - Um dia poderei ler a Bblia inteira para minha me e meu pai?
    - Exatamente. - Prola fechou o livro e devolveu-o  prateleira, tocando alguns outros. - E os sonetos de William Shakespereare, o maior poeta de todos os tempos. 
Assim que souberem reconhecer as letras que formam as palavras, podero ler qualquer coisa.
    Apesar de serem muito jovens, os alunos pareciam compreender a importncia do que ouviam. Birdie suspirou encantada.
    Prola olhou na direo da janela e disse:
    - Agora  hora de irem para suas casas.
    As crianas recolheram os trabalhos que haviam feito ao longo da tarde e dirigiram-se  carroa. Birdie e Bart ajudaram os menores a acomodarem-se na parte traseira 
do veculo. Travis sentou-se na frente e segurou as rdeas.
    - At logo, crianas. Espero rever alguns de vocs amanh.
    - At logo, srta Jewel - respondeu um coro de vozes. Em seguida a carroa partiu levando o grupo reduzido.
    Prola acenou at v-los desaparecer, e s ento retornou  sala vazia. O lugar era o mesmo do dia anterior, com as mesmas cadeiras e mesas e a mesma estante 
de livros, mas num espao de algumas horas, algo havia mudado. Agora no estava mais numa cabana deserta, e sim num espao cheio de vida, iluminado pela presena 
de crianas curiosas e ansiosas para aprenderem.
    Ela tambm havia mudado. J no sentia-se intil. Tinha uma razo, um propsito para cada dia. Saciaria mentes famintas por conhecimento. E se tivesse sorte, 
algumas daquelas crianas teriam um futuro por causa do trabalho que pretendia realizar.
    - Oh, papai - sussurrou. - Ser que pode sentir a nova vida pulsando em sua cabana?
    O corao abrigava emoes to poderosas que no podia cont-las As lgrimas que havia retido durante todo o dia transbordaram como um rio depois da chuva, correndo 
por seu rosto.
    Sozinha no meio de sua nova sala de aula, Prola chorou de alegria.
    Cal olhou pela janela e viu a figura sentada  mesa. Uma lamparina iluminava a escurido, e ela concentrava-se na pginas de um livro e nas coisas que anotava 
num pedao de papel.
    McCabe mudara o caminho de volta para passar pela escola, certa que a encontraria vazia e escura, mas ela ainda estava l, sozinha, a quilmetros de casa. Uma 
emoo intensa o invadiu. Raiva. Como podia ser to descuidada? E por que recusava-se a tomar as precaues necessrias para garantir a prpria segurana?
    Mas, ao estud-la, a raiva desapareceu por completo. Mechas rebeldes haviam escapado do coque na altura da nuca, emoldurando o rosto delicado, e as mangas do 
vestido haviam sido enroladas at os cotovelos para no serem manchadas pelo carvo. E mesmo assim, ela ainda era um modelo de perfeio.
    Cal entrou na cabana.
    - Devia estar em casa, saboreando o jantar especial de Carmelita.
    A voz profunda e poderosa interrompeu sua concentrao.
    - Eu... No sabia que era to tarde. Jantar especial?
    - Carmelita organizou uma pequena comemorao para marcar seu primeiro dia de aula.
    - Oh, meu Deus! Eu no sabia. Estraguei a festa.
    - A essa altura, ela e o marido j devem ter voltado para a fazenda onde moram, e a celebrao foi adiada para amanh. No sabia que as professoras costumam 
dormir sobre suas mesas.
    - Eu no estava dormindo. Estava procurando trechos para ler durante a aula de amanh. Algo que estimule a imaginao das crianas e incentive a aprender.
    - Pelo visto, tem certeza de que eles voltaro amanh.
    - Oh, sim! Pelo menos alguns deles. - Ela fechou o livro e levantou-se. - Oh, Cal! Gostaria que pudesse ter visto seus rostos quando li para eles. Foi como se 
eu houvesse iluminado suas almas.
    Ela estudou a expresso de seu rosto. Nunca a vira to animada.
    -De repente eles perceberam o poder de saber ler. - Unindo as mos e esquecendo as maneiras sempre contidas, ela girou em torno de si mesma numa demonstrao 
de alegria, sem importar-se com a saia que, erguida pelo movimento, revelava os tornozelos. - So crianas maravilhosas. Bart Adams  um menino feliz, cheio de alegria 
e muito interessado. Birdie tambm quer aprender, mas precisa ajudar a famlia e tem conscincia de suas responsabilidades.
    Sem pensar no que fazia, aproximou-se e tocou o brao do capataz. Ele sentiu o calor do toque, mas, com exceo de um brilho mais intenso nos olhos, no revelou 
a reao.
    - E Travis. Ele no acredita que a escola pode ajud-lo. S veio porque a me quer que aprenda a ler e escrever. Mas, assim que comear a aprender, nada o far 
desistir. - Ela ergueu o rosto para encar-lo, e seu sorriso o aqueceu como um raio de sol. - E as irms Potter! To doces e tmidas. Mal posso esperar para...
    Estavam to prximos, que Cal podia sentir o hlito morno em eu rosto. A mo repousava sobre seu brao, e de repente os msculos tornaram-se rgidos sob os dedos 
delicados. Lutava como um desesperado contra o mpeto de tom-la nos braos e saborear mais uma vez a doura de seus beijos.
    Sentindo a tenso sbita, Prola parou e passou a lngua pelos lbios ressequidos. Cal estudou o movimento e teve a impresso de que algo rompia-se em seu peito. 
Sabia que a estava fitando de maneira reveladora, intensa, e as batidas de seu corao, sempre estveis e contnuas, tornaram-se incertas, deixando de cumprir o 
ritmo para, em seguida bater muito mais depressa que o normal.
    - Deve estar cansado de me ouvir falar sobre as crianas.
    - No! De jeito nenhum. - Era impressionante. Queria tanto essa mulher, que o simples pensamento de possu-la ali mesmo, na cabana, era suficiente para faz-lo 
tremer.
    - Ainda no tive chance de agradecer pelo que fez hoje, Cal. - Sentindo-se tmida, afastou a mo do brao musculoso.
    McCabe podia sentir o calor atravs da manga da camisa. Para dominar o impulso de toc-la, cerrou os punhos ao longo do corpo.
    - No precisa me agradecer. Estou feliz por ter podido ajudar.
    - Voc fez mais que ajudar. Salvou-me de um ataque de autopiedade. Estava prestes a mergulhar no desespero, certa de que nunca veria algum entrando nessa sala 
de aula, e de repente voc me devolveu a esperana. - Ela encarou-o e, sorrindo, estendeu a mo para um cumprimento firme. - Muito obrigada, Cal. Espero um dia poder 
retribuir esse favor.
    Ele olhou para a mo estendida e pensou em recusar-se a toc-la. Mas ela jamais entenderia. Concluiria que estava recusando sua oferta de amizade, tambm.
    A mo calejada e enorme envolveu os dedos delicados e plidos. Cal fitou aqueles grandes olhos azuis e teve certeza de que estava perdido.
    Sem pensar nas conseqncias, tomou-a nos braos e beijou-a.
    Prola deixou escapar um gemido surpreso, mas o som abafado pelos lbios quentes do capataz.
    O beijo no tinha nada de simples ou gentil. Era urgente, quase selvagem, traduzindo uma necessidade poderosa que a deixava tonta e sem flego. As mos moviam-se 
por suas costas, espalhando pequenas labaredas que atravessavam o tecido do vestido.
    Os seios estavam comprimidos contra o peito musculoso. Cal puxou-a de encontro ao corpo at alert-la para a prpria excitao. E durante todo o tempo, a boca 
continuava exercendo sua magia, prolongando o beijo at que ela suspirou e moveu-se contra o corpo de Cal, inflamando-o ainda mais.
    - Voc no devia...
    - Eu sei. - Ele cortou, segurando-a pelos ombros.
    - Quero dizer, minha cabea sabe. - As mos deslizavam pelos braos numa carcia suave e provocante. - Mas o resto do meu corpo se recusa a ouvir a voz da razo.
    Podia ficar ali para sempre, sentindo o calor do corpo forte e saboreando o prazer de ser acariciado por mos firmes e poderosas. Provocantes. Excitantes. Cada 
vez que os dedos moviam-se por sua pele, o calor aumentava como se quisesse consumi-la por completo.
    -  melhor irmos embora. - sussurrou.
    - Tem razo. - Os olhos dele encontraram a escada que levava  plataforma suspensa. Pensou em deitar-se com ela sobre a palha, ouvindo os sons da noite enquanto 
faziam amor bem devagar. O pensamento atormentou-o e ele inclinou a cabea para mais um beijo inebriante.
    Prola sentia-se incapaz de det-lo. O sabor dos lbios sobre os seus e o calor que transmitiam eram suficientes para banir todos os temores que pudesse abrigar.
    Ao sentir a boca movendo-se contra a sua, suspirou e entregou-se ao prazer. Isso era tudo que desejava. A paixo inconseqente. O encontro lento e sensual de 
lbios e corpos, de mos e propsitos.
    A presso do beijo aumentou e ela sentiu o sangue ferver nas veias, acelerando os batimentos cardacos. Os braos em torno dela eram fortes, e podia sentir todas 
as partes daquele corpo msculo e perfeito em contato com o dela. As batidas do corao de Cal ecoavam as suas. A parede de msculo do peito amplo pressionava seus 
seios. A evidncia fsica do desejo que o consumia provocava uma onda de fogo que partia de seu ventre para espalhar-se em todas as direes.
    Cal ergueu a cabea e depositou beijos suaves e delicados em sua testa, no rosto, na ponta do nariz, nos olhos...
    Prola suspirou, tomada por uma emoo que no sabia identificar.
    - No precisamos ir.
    As palavras sussurradas em seu ouvido tiveram o poder de traz-la de volta  realidade. Subitamente gelada, empurrou-a e fitou os olhos escuros.
    - O que est tentando dizer?
    - Podemos ficar aqui. - Ele apontou para a plataforma suspensa. 
    Prola experimentou um arrepio provocado pelo brilho sugestivo que iluminava os olhos dele. No momento, quando sentia-se indefesa e vulnervel, a sugesto era 
tentadora.
    - Precisamos ir. - Ela deu um passo atrs, e outro. A cada passo que dava, afastando-se de Cal, recuperava para o bom senso e da razo.
    Prola caminhou at a mesa. Rezando para que as pernas a sustentassem. Munida da lamparina, dirigiu-se  porta certa de que ele a seguiria.
    L fora, respirou fundo e deixou que o ar frio da noite penetrasse em seus pulmes, esfriando o sangue e aplacando o incndio que quase a levara a cometer uma 
loucura. Enquanto isso, rezava pelo retorno rpido de sanidade.
    A seu lado, Cal McCabe fazia o mesmo.
    
    Capitulo 9
    
    - Esta manh faremos somas - Prola anunciou. - Darei alguns nmeros aos mais velhos para que trabalhem em silncio, enquanto ajudo os mais novos com a tarefa.
    A escola funcionava h uma semana, e mais seis alunos haviam chegado em ocasies variadas. Mas, como nenhum deles podia comparecer diariamente, o nmero da turma 
variava de trs a doze.
    Prola aprendia a conviver com o inesperado. Os dois filhos de Rufus Durfee, Damon de nove anos, e Amos, de onze, apareceram certo dia numa carroa cheia de 
mercadorias. Os meninos permaneceram na escola at o meio-dia e depois partiram para fazer as entregas em algumas fazendas da rea. Depois retornaram para apanhar 
as outras crianas e as levaram de volta para casa.
    As trs filhas de Millie Potter s podiam ir  escola quando algum da cidade as transportava. At agora, entre Travis Worthing, que conseguia comparecer uma 
ou duas vezes por semana, e os filhos de Durfee, as meninas no haviam perdido nenhum dia de aula. Nem Birdie Bidwell, que bendizia a prpria sorte todas as manhs.
    As crianas floresciam rapidamente. Mesmo os que no podiam acompanhar as tarefas com assiduidade estavam aprendendo. Prola tambm aproveitava as lies oferecidas 
pela vida. Todas as manhs lembrava-se de agradecer pelo sucesso obtido.
    Para ensinar o conceito de adio s irms Potter, ela as convidou a sentarem-se no cho formando um crculo. Depois removeu o lindo buqu que colocava sobre 
sua mesa diariamente e espalhou as flores no centro do crculo.
    - Vou dar uma flor a cada uma de vocs - disse, escolhendo trs botes. - Agora acrescentarei algumas outras. - Ela escolheu mais duas flores e entregou-as a 
June, a caula. - Muito bem, quantas flores vocs tem?
    A pequena contou e respondeu:
    - Trs.
    - Correto. Porque duas flores mais uma somam trs. - Depois de dar mais trs botes a May ela perguntou: - Quantas voc tem agora?
    - Quatro - a menina respondeu orgulhosa. - Porque trs mais uma somam quatro.
    - Isso mesmo. Agora, April, sua conta ser um pouco mais complicada. - Ela deu quatro flores  menina.
    - No  difcil - April reagiu entusiasmada - Quatro e uma somam cinco.
    - Muito bem! E quando pego duas de volta, quantas restam? 
    A pequena contou as flores enquanto as irms a observavam com interesse.
    - Trs.
    - Sabe por qu?
    - Cinco menos duas so trs.
    - Excelente. Agora - a professora anunciou ao levantar-se -, vamos fazer algumas adies e subtraes simples. Deixarei as flores com vocs, caso precisem de 
ajuda para encontrar os resultados.
    Prola dirigiu-se ao outro lado da sala, onde os alunos mais velhos trabalhavam com colunas de nmeros.
    Vendo a frustrao que experimentavam, transformou o projeto num jogo e ofereceu um dos biscoitos de Carmelita como prmio. Em pouco tempo, todos concentravam-se 
na tarefa e perdiam-se no mundo maravilhoso dos nmeros. Para surpresa de todos, Travis, que havia demonstrado pouco interesse nas somas, mas um enorme apetite pos 
doces, foi o primeiro a completar o dever sem nenhum erro.
    Na hora do almoo, o grupo foi sentar-se  sombra de um velho carvalho. Todos abriram suas cestas para dividir o que haviam trazido.
    - Vejam s aquilo! - Bart Adams gritou.
    Todos viraram-se na direo apontada e viram Cal McCabe aproximando-se em seu grande cavalo negro. Era evidente que as crianas sentiam um certo fascnio pelo 
lendrio capataz da Fazenda Jewel.
    - Meu pai diz que McCabe pode vencer qualquer um em todo o estado do Texas.
    - E o meu diz que ningum se atreveria a desafi-lo - Travis sussurrou. - Ele matou sua primeira vtima quando tinha pouco mais que a minha idade.
    - Silncio, crianas - Prola ordenou com energia. - No permitirei esse tipo de conversa na escola.
    A verdade era que estava chocada com o que acabara de ouvir. Cal, um matador? Embora o corao se recusasse a aceitar a idia, a mente assimilava a noo. E 
uma voz interior a fazia recordar que durante todo o tempo havia pressentido algo de sombrio e perigoso no sujeito.
    O corao bateu mais depressa e ela culpou o sol pelo calor que queimava seu rosto. Cal conseguira evit-la desde a noite em que haviam trocado um beijo. Um 
beijo. Teria realmente se permitido tamanha intimidade... E com um pistoleiro?
    Pelo menos agora estavam cercados pelas crianas. No havia nenhuma possibilidade de ficarem sozinhos.
    Imaginou se Cal estaria pensando a mesma coisa. Por isso escolhera esse momento para aparecer?
    - Crianas, conhecem o sr. McCabe? - Prola perguntou.
    - Sim, senhorita - todos responderam em coro.
    - No sabia que essa era sua hora de almoo - Cal desculpou-se. - Estava passando por perto, e decidi verificar se precisavam de alguma coisa.
    - No precisamos de nada, obrigado. - Prola experimentou os primeiros sinais de alerta. Ele parecia muito a vontade entre as crianas, como se no pretendesse 
partir. - Eu... trouxe comida suficiente para mais uma pessoa. - Abrindo a cesta, revelou vrios pedaos de frango e uma grande poro de biscoitos. - Sempre trago 
mais do que posso comer, caso uma das crianas esquea o lanche. Quer almoar conosco? - Enquanto falava, ela estendeu uma toalha sobre a grama e comeou a esvaziar 
a cesta.
    Cal no esperou um segundo convite para sentar-se  sombra da rvore. As crianas chegaram mais perto e, consciente dos olhares intrigados e curiosos, ele decidiu 
coloc-las a vontade fazendo perguntas sobre a escola.
    - A srta. Jewel j puxou a orelha de algum? Quem foi o primeiro a ficar de castigo no canto por mau comportamento?
    - A srta. Jewel jamais faria tais coisas - Birdie Bidwel respondeu indignada, defendendo a adorada professora.
    - Como pode ter tanta certeza? - Cal provocou, mordendo um biscoito e fazenda caretas engraadas para as irms Potter.
    As trs meninas riram e esconderam os rostos entre as mos. Era evidente que, apesar da timidez exagerada, consideravam o capataz irresistvel.
    - Ela  a mulher mais generosa e gentil que j conheci - Birdie insistiu. - Ela diz que no acredita em puni... puni...
    - Punio fsica - Prola concluiu com ela.
    - Isso mesmo. A srta. Jewel nunca puxaria nossas orelhas, nem faria ajoelhar sobre o milho.
    - Nem nos bateria com uma vara de marmelo - Bart acrescentou..
    - Agora entendo porque voltam sempre - Cal sorriu. - Talvez ela no seja uma professora, afinal. Talvez seja... uma fada madrinha.
    As crianas riram. Logo todos participavam da conversa e contavam histrias sobre a primeira semana na escola da srta. Jewel.
    - Eu no queria vir - Travis admitiu, apesar de nunca ter falado com tanta franqueza antes. - Minha me me obrigou. 
    - Est arrependido? - Cal perguntou.
    Ele encolheu os ombros.
    - No, senhor. Gosto de vir aqui. s vezes.
    - E quanto a voc, Bart?
    - Quero aprender a ler e escrever. Meu pai diz que a av dele foi uma mulher educada, mas acabou dedicando-se apenas s tarefas domsticas e aos filhos, e o 
conhecimento se perdeu. Agora, ningum em toda nossa famlia sabe ler. Eu serei o primeiro.
    Havia uma nota de orgulho em sua voz, e Cal estudou o garoto com interesse. Depois os olhos buscaram os de Prola, cujo rosto tingiu-se de vermelho intenso sob 
seu escrutnio.
    Quando terminaram de comer, a pequena tmida April Potter abriu a cesta para revelar um bolo que a me havia preparado no dia anterior.
    - Oh, meu Deus! - Prola exclamou surpresa. - Vejam s o que a sra. Potter nos mandou. Trata-se de alguma ocasio especial, April?
    - Hoje  aniversrio de Birdie. Como ela ajuda na cozinha da hospedaria todos os dias, mame decidiu que ela merecia uma surpresa agradvel.
    A aniversariante estava emocionada.
    - Como sua me descobriu que hoje  meu aniversrio? - Birdie quis saber.
    April encolheu os ombros.
    - No sei. Talvez ela tenha falado com a sua me.
    - Bem, no sabemos como a sra. Potter descobriu que o dia de hoje era especial para Birdie, mas a aniversariante deve fazer as honras de cortar o bolo e servir 
seus convidados - Prola falou.
    - Sim, senhorita.
    Logo todos estavam muito ocupados saboreando a guloseima.
    - Pode oferecer uma segunda fatia ao sr. McCabe - Prola sugeriu. - Descobri que ele gosta muito de doces.
    Cal riu e aceitou mais um pedao de bolo.
    Durante a meia hora seguinte, as crianas puderam brincar enquanto digeriam a refeio. Os meninos eram os mais levados, subindo em rvores e pendurando-se nos 
galhos mais baixos, mas as meninas tambm participavam dos jogos de pegar e esconder.
    Enquanto os pequenos divertiam-se, Cal descansava encostado numa rvore.
    - No o vi durante toda a semana - Prola comentou.
    - Estive muito ocupado.
    - Entendo. - Desviando os olhos, irritou-se com o rubor que tingia seu rosto e o calor que a invadia, como acontecia sempre que ele fitava daquele jeito intenso, 
como um caador espreitando a presa. - Tambm tive muito trabalho por aqui, e trabalho melhor sem interrupes.
    Ele sorriu, revelando que o comentrio no o enganara.
    - Eu tambm, professora. - Levantou-se para partir. Antes de montar, virou-se e tocou o rosto delicado com a ponta do dedo. - Mas que tipo de vida teramos se 
no houvesse algumas... interrupes?
    Prola esquivou-se como se o toque a queimasse.
    - Cal, as crianas...
    - Esto brincando. Alm do mais, no h nenhuma regra contra tocar a professora, certo?
    Ela inclinou a cabea, desejando que a tocasse novamente e temendo que ele pudesse ler o convite que cintilava em seus olhos.
    Cal montou.
    - Obrigado pelo almoo, professora.
    As crianas gritaram e acenaram quando ele afastou-se, levantando o chapu numa saudao festiva antes de desaparecer por entre as rvores.
    Prola ficou parada por alguns minutos, olhando para o nada, e depois bateu palmas para chamar os alunos de volta  sala de aula. Logo todos estavam sentados 
em suas cadeiras, prontos para mais uma lio.
    - Comearemos pela leitura - a professora anunciou. - Travis, voc pode ser o primeiro.
    Ela entregou ao garoto uma cpia de um clssico da literatura e foi para o fundo da sala, de onde podia ouvir e observar. Travis levantou-se para ser visto e 
ouvido por todos. Quando tropeava em uma palavra difcil, Prola pedia que a soletrasse e o restante da classe era convidado a ajud-lo.
    Enquanto Travis lia, as outras crianas ouviam com ateno, encantadas com a histria que, como sempre, carregava um importante princpio moral relacionado a 
Deus, ao pas ou  humanidade.
    Prola aproximou-se da janela, os pensamentos voltados para Cal McCabe. O simples fato de v-lo era suficiente para faz-la suar frio e sentir o corao bater 
mais depressa. Esquecia de tudo quando ele estava por perto. O homem era prejudicial ao seu poder de concentrao.
    Mas pelo que as crianas haviam dito, os fazendeiros da vizinhana tinham uma viso bem diferente do capataz. Um matador? Um pistoleiro?
    A reflexo foi interrompida pela aproximao de uma carroa. Assim que o veculo chegou perto, Prola reconheceu Rollie Ingram e seus filhos, Gilbert e Daniel. 
Os dois garotos olharam para a escola quando passaram diante dela. A professora acenou e Gilbert virou-se para o pai. Ao descobrir que ele os observava, o menino 
abaixou a cabea. Na parte de trs, Daniel comeou a acenar com a mo livre, j que a outra era usada para segurar um porco adulto e um filhote que eram transportados 
no veculo, mas um olhar do irmo mais velho o fez baixar a mo, apesar de os olhos permanecerem fixos na cabana.
    Prola sentiu uma certa frustrao. Havia tentado no pensar em Gilbert e Daniel. Rollie Ingram deixara claro que os filhos no freqentariam a escola. Mesmo 
assim tivera esperana...
    - C-O-M-E--O - Travis estava soletrando.
    Prola levantou a cabea e concentrou-se nos alunos.
    - Algum pode ajudar Travis? - Perguntou.
    - CO-ME-O - Birdie adiantou-se, separando as slabas como a professora havia ensinado.
    -Muito bem, Birdie. Pode terminar a histria que Travis comeou.
    A menina dirigiu-se  frente da sala e leu at concluir a histria.
    - Birdie, como hoje  seu aniversrio, e por ter progredido tanto nessa primeira semana de aula, vou deix-la levar a Bblia para casa no final de semana. Leia 
algumas passagens para sua famlia, e assim eles sabero que j aprendeu muito.
    A menina abriu a boca numa expresso incrdula, os olhos muito abertos, e brilhantes. Quando finalmente sentiu-se capaz de falar, disse:
    - Oh, muito obrigado, srta. Jewel. Prometo que vou cuidar muito bem da sua Bblia.
    Prola respondeu com um sorriso doce. No tinha dvida de que o livro seria manuseado com mais cuidado do que teria merecido um saco de ouro.
    
    Prola vestiu-se com cuidado para o culto dominical, sempre pensando em Cal. Desde o almoo que haviam partilhado na escola no voltara a v-lo. De acordo com 
Cookie, Cal passara as duas noites anteriores com o rebanho no pasto oeste. Gostaria de saber se a deciso de afastar-se da fazenda tinha alguma relao com ela, 
ou com o beijo que haviam trocado. O pensamento mal acabar de formar-se em sua mente e ela desprezou, censurando-se pela tola presuno. Cal McCabe devia ter beijado 
centenas de mulheres ao longo de sua vida. Mais uma no faria a menor diferena para um homem como ele. Afinal, pensou,ajeitando o xale em torno dos ombros, ele 
tinha uma fazenda para administrar, o que significava que precisava passar algumas noites longe de casa. E ela tinha alunos para alfabetizar. Essa devia ser sua 
maior preocupao no momento.
    No entanto, no conseguia esquecer aquele beijo. De certa forma, tinha esperana de que fosse esse motivo do afastamento do capataz. Seria bom saber que o beijo 
o afetara to profundamente quando ela havia sido afetada. Por outro lado, no conseguia imaginar um homem como Cal McCabe perdendo o sono por causa dela, ou olhando 
para o espao na esperana de obter mais um beijo.
    Toda essa situao era absurda. Devia estar fazendo planos para manter-se bem longe do sujeito. Tinha uma reputao a manter, e a tentao que experimentava 
quando estavam sozinhos poderia criar todo tipo de dificuldades.
    Prola desceu e encontrou Jade e Rubi esperando por ela na cozinha. Havia um prato de biscoitos entre elas sobre a mesa, ao lado de um pote de gelia de framboesas.
    - Coma alguma coisa, chrie - Rubi convidou-a. - Cal j foi buscar a carruagem.
    Ento ele estava de volta, e pretendia ir ao culto com elas. Prola sentiu o estmago contrair-se, mas culpou o aroma pungente das framboesas.
    - No estou com fome. Talvez reencontre meu apetite quando o servio religioso terminar.
    - Ento vamos - Jade decidiu. - Estou ouvindo a carruagem l fora.
    As trs irms saram para a varanda dos fundos. Quando Cal desceu do veculo para ajud-las, Prola no pode deixar de admirara aparncia imponente realada 
pela jaqueta negra e o chapu de abas largas.
    - Bom dia - ele cumprimentou ao estender a mo para ajud-la.
    No instante em que se tocaram, ambos sentiram a corrente eltrica. E os dois fizeram o possvel para ignor-la.
    Evitando encar-lo, Prola subiu na carruagem com a ajuda de Cal e ajeitou o xale em torno dos ombros, apesar do calor do sol de primavera. Durante a viagem 
 cidade manteve-se calada, deixando que Jade e Rubi estabelecessem o ritmo da conversa, enquanto ela fingia apreciar a paisagem. Mas, cada vez que erguia a cabea, 
os olhos eram atrados pelos ombros largos de Cal, pelas mos fortes que seguravam as rdeas.
    Na cidade, Cal parou a carruagem na frente do armazm de Durfee e ajudou as irms descerem. Quando Prola passou por ele, o perfume de lavanda invadiu seus pulmes 
e provocou uma reao imediata, poderosa e muito inconveniente.
    Deus, os dias pareciam mais longos. Sempre que estava sozinho numa trilha, ou trabalhando com uma dzia de pees, a mente insistia em invocar imagens de Prola, 
adorvel e delicada. E as noites tornavam-se insuportveis. As mesmas imagens que o importunavam  luz do dia perturbavam seu sono. Nem em sonhos encontrava alvio. 
Ela estava l, roando os lbios nos dele, acariciando seu corpo com as mos finas e plidas, enlouquecendo-o de desejo.
    Cal acompanhou as irms Jewel at a sala no fundo do armazm e sentou-se ao lado de Prola. No tinha a menor idia de como conseguiria rezar, quando tinha a 
tentao em pessoa ao alcance de suas mos.
    
    
    Captulo 10
    
    - Foi um bom sermo, reverendo Weston. - Prola estendeu a mo e foi recompensada por um aperto firme e um sorriso simptico.
    - Obrigado, srta. Prola. Tambm tenho ouvido coisas bastantes positivas sobre sua escola. No s dos pais, mas dos alunos, principalmente.
    Prola deixou a sala no fundo do armazm com um sorriso satisfeito.
    - Parece muito satisfeita - Cal comentou. No ouvira mais que meia dzia de palavras do sermo. Estivera consciente da mulher sentada a seu lado durante todo 
o tempo e, mesmo agora, ainda estavam prximos demais para sua paz de esprito.
    -  o primeiro elogio que recebo. Espero que no se importe se sabore-lo sem pressa.
    - De jeito nenhum. Voc fez por merecer. Saboreie-o quando quiser. - Ele parou na porta. - Jade e Rubi ainda esto l dentro, trocando algumas palavras com o 
reverendo. Vou buscar a carruagem.
    Quando ele afastou-se, Prola piscou tentando adaptar-se  luz brilhante do sol. Como sempre, a pequena cidade de Hanging Tree fervilhava no final da manh de 
domingo.
    Pais e filhos comearam a retirar as cestas de comida das carroas e lev-las para grandes sombras onde se alimentariam e descansariam, antes da viagem de volta. 
Enquanto as mulheres estendiam toalhas sobre a grama e serviam os pratos, crianas corriam e escondiam-se atrs dos veculos numa brincadeira divertida, e os homens 
iam buscar suprimentos no armazm para garantir a semana de trabalho em suas fazendas.
    Prola sentiu que algum puxava sua saia e olhou para baixo. Daniel Ingram sorria para ela com evidente timidez.
    - Bom dia, srta. Jewel. Est muito bonita.
    Ela ajoelhou-se para poder fit-lo nos olhos. Apesar das roupas remendadas e da sujeira que parecia estar entranhada em sua pele, o sorriso do menino era radiante 
como o de um querubim.
    - Bom dia Daniel. Obrigado. Esperei por voc e seu irmo na escola durante toda a semana passada.
    O sorriso tornou-se menos luminoso.
    - Gostaria de ter ido, mas papai acredita que a escola  s para crianas ricas e mimadas. Ele diz que Gilbert e eu somos estpidos demais para estudar, e que 
nunca deixaremos de ser inteis...
    O irmo mais velho apareceu na porta do armazm e, vendo o caula ao lado da professora, aproximou-se apressado equilibrando um pesado saco de gros sobre um 
ombro. Mantendo uma das mos no saco, agarrou Daniel com a outra e puxou-o.
    - Maldio! Parece que est sempre querendo irritar nosso pai. Saia de perto dela.
    - Gilbert! - Prola o censurou, chocada com o vocabulrio rude. - Um menino de sua idade no devia falar dessa maneira. Principalmente diante de um irmo mais 
novo. No sabe que serve de exemplo para essa criana.
    - Exemplo? - Com um olhar carregado de desprezo, Gilbert comeou a puxar o irmo para a carroa. Havia dado alguns passos quando o saco escorregou de seu ombro 
e caiu. As costuras se romperam, espalhando gros em todas as direes.
    Uma voz poderosa ecoou na porta, atraindo a ateno de todos.
    - Seus preguiosos, inteis, imprestveis... - Rollien Ingram gritava com os filhos que, ajoelhados, tentavam recuperar os gros perdidos como se fossem pepitas 
de ouro.
    Enquanto Gilbert e Daniel lutavam para reaver a preciosa carga, o pai continuava praguejando.
    - Malditos idiotas! No sabem nem olhar onde vo!  melhor recolherem tudo isso. At o ltimo gro. No vou permitir que joguem meu dinheiro no cho e percam 
no meio da poeira!
    Ningum parecia disposta a aproximar-se da cena, mas todos os adultos da cidade acompanhavam o que estava acontecendo. Um silncio pesado envolvia o ambiente. 
Para aliviar a tenso, vrias crianas comearam a rir e apontar para os dois Ingram que se arrastavam no cho. 
    Rollie chutou a perna do filho mais velho e, insatisfeito, desferiu um violento pontap contra a roda da carroa antes de jogar nela um saco de farinha e voltar 
ao interior do armazm para buscar mais suprimentos.
    Quando ele desapareceu no interior do estabelecimento, Prola correu para perto dos garotos e ajoelhou-se, disposta a ajud-los.
    Gilbert encarou-a com um olhar furioso quanto o do pai.
    - Ser que ainda no entendeu? Meu pai no quer que fique perto de ns. E ns tambm no a queremos aqui.
    Era impossvel esconder o choque provocado pelo ataque inesperado.
    - Gilbert - ela murmurou, segurando uma das mangas da roupa do garoto. - Sei que foi terrvel derrubar os gros, mas...
    - Voc no sabe coisa alguma - ele cortou, livrando-se dos dedos que seguravam com um movimento brusco. - Volte para perto dos cidados respeitveis e nos deixe 
em paz!
    Ela olhou para as duas crianas. Daniel sustentou seu olhar por alguns instantes e, ouvindo um murmrio de desaprovao partindo do grupo de espectadores, abaixou 
a cabea e continuou recolhendo os gros.
    Quando Prola levantou-se, relutante e triste, encontrou-se frente a frente com Rollie Ingram. A boca do fazendeiro estava retorcida num arremedo de sorriso. 
Embora ainda no fosse meio-dia, seu hlito cheirava lcool.
    - Voc ouviu o garoto, srta. Sabe-Tudo. No volte a nos incomodar. - Ele a segurou pelos ombros como se quisesse sacudi-la. - E agora desaparea!
    Dedos enormes e bronzeados caram sobre os dele, apertando-os at parecer que os quebrariam.
    A voz de Cal era um sussurro carregado de fria.
    - Nunca mais se atreva a pr as mos nessa moa. Nem pense nisso, ou ter de acertar contas comigo, Ingram.
    Os olhos de Rollie transformaram-se em brasas. Ele baixou a mo e retrocedeu um passo, flexionando os dedos doloridos.
    - No sabia que ela j ostentava sua marca, McCabe. - Ingram falava em voz alta, apreciando o fato de estar protagonizando uma cena assistida por toda a cidade. 
- Mas j devia imaginar. Voc e aquele pees devem estar passando momentos muito divertidos na fazenda, agora que tm trs novilhas fresquinhas no rebanho.
    As fofoqueiras da cidade, Lavnia Thurlong e Glayds Witherspoom, bem como algumas outras mulheres, levaram as mos s bocas para abafar exclamaes chocadas. 
Os homens olhavam em volta, nervosos.
    Pelo canto do olho, Prola viu Travis Worthing e Bart Adams colocando-se na frente do grupo, esperando apreciar uma luta suculenta.
    Sabia que estava fora de seu elemento. Tinha plena conscincia de que expunha-se ao ridculo diante de toda a cidade, parada no meio da poeira da rua principal 
de Hanging Tree e segurando a sombrinha como se ali estivesse o segredo da sobrevivncia. Mas no tinha escolha. Era impossvel virar as costas e afastar-se.
    Vendo a postura de Cal, pernas afastadas e mos cerradas, agiu depressa colocando-se entre os dois oponentes. Encarar a fria de McCabe era muito mais difcil 
do que ouvir os insultos de Ingram, mas no queria ser apontada como razo essa cena violenta.
    - No, cal - disse. - No faa isso.
    - Saia daqui, Prola.
    - No. Deixe-o ir.
    Uma fria perigosa e incontrolvel crescia no peito de Cal. Queria, precisava encontrar um alvio para ela, ou explodiria. E no havia maneira melhor de amenizar 
a fria de que entrando numa boa briga, especialmente com um verme como Rollie Ingram. O sujeito o enojava.
    - Ele insultou seu bom nome.
    - Exatamente. Trata-se do meu nome, e prefiro no tirar satisfaes. Por favor, Cal. Pelas crianas, deixe-o ir embora.
    Os dedos do capataz moviam-se lentamente enquanto ele tentava controlar-se. A multido observava e esperava, e depois de alguns instantes ele olhou para os filhos 
de Ingram e fez um movimento afirmativo com a cabea. Prola estava certa. Os dois meninos j haviam sido humilhados demais. No precisavam ver o pai sendo surrado 
diante de toda a cidade. 
    - Se tem alguma noo do perigo, Ingram, saia daqui imediatamente e no volte.
    Graas  bebida que havia consumido, Rollie sentia-se poderoso. Em vez de agradecer pra ter escapado de uma surra e agarrar a oportunidade de ir embora sem expor-se 
a maiores vexames, ele no resistiu ao mpeto de provocar o adversrio. Olhando para Cal e Prola, jogou a cabea para trs e gargalhou.
    - Nunca pensei que viveria para ver uma mulher dar ordens ao lendrio Cal McCabe.
    E ento, diante dos olhos de todos os moradores de Hanging Tree, ele cuspiu um pedao de tabaco que quase acertou a barra da saia de Prola.
    Cal deu um passo  frente, mas a jovem professora pousou a mo em seu peito e o fez parar.
    Gilbert e Daniel, que haviam assistido  cena de joelhos, levantaram-se e levaram o saco de gros para a carroa.
    Rollie subiu no veculo e gritou:
    - Entrem, se no quiserem ficar aqui.
    Os dois saltaram para a parte traseira da carroa um segundo antes do chicote do condutor estalar sobre as costas do cavalo, obrigando-o a partir num galope 
assustado.
    A multido permaneceu em silncio, aturdida com o que acabara de presenciar. Alguns sentiam-se frustrados por no terem testemunhado uma briga, outros simplesmente 
balanavam as cabeas com tristeza pelo que haviam visto. Um por um, todos comearam a sair.
    Sem dizer uma nica palavra, Cal ajudou Prola a subira a carruagem.
    Assim que acomodou-se, ela disse:
    - Desculpe. Sei que ultrapassei meus limites, mas, como professora, senti-me na obrigao de dar um bom exemplo para meus alunos. Eles precisam aprender a virtude 
do perdo e...
    - Perdo? - ele cortou. - Um sujeito como Rllie Ingram no entende outra linguagem seno a da fora. O que voc chama de virtude, ele entende por fraqueza. Lembre-se 
disso, e fique prevenida, Prola. No haver nada alm de sofrimento e dor para algum que Ingram suspeite ser mais fraco que ele.
    A viagem de volta foi a mais longa da vida de Prola. Jade e Rubi tentavam, envolv-los na conversa, mas ela e Cal permaneceram mudos. E pela maneira com ele 
segurava as rdeas, era evidente que ainda estava furioso.
    Quando a carruagem parou diante da porta da casa da fazenda, Cal desceu e ofereceu a mo para ajud-las.
    Rubi e Jade correram para dentro a fim de fugir do calor do sol.
    Prola colocou a mo na dele e desejou poder dizer alguma coisa capaz de amenizar a tenso.
    - Sinto pena dos filhos de Ingram - confessou. - O comportamento do pai deles  desprezvel, e o sujeito teve a ousadia de proibi-los de...
    Cal ignorou o calor provocado pelo contato e concentrou-se na difcil tarefa de conter o prprio temperamento. Precisaria cumprir uma dezena de tarefas para 
apagar o fogo que ainda o queimava. Talvez cavalgasse at um dos acampamentos nas divisas da fazenda e passasse alguns dias trabalhando at a exausto. Trabalho 
duro podia ser a soluo. Por outro lado...
    Ele levantou a cabea.
    - O que disse?
    - Daniel e Gilbert, apesar de parecer mais duro, no conseguiam tirar os olhos da escola quando passaram por aqui h alguns dias.
    - Passaram... por aqui?
    - Sim, com o pai deles. - Prola baixou a sombrinha e comeou a subir a escada para a varanda. - Na carroa da famlia.
    Cal segurou-a pelo brao e a fez para.
    - Quando foi isso?
    - Voc est me machucando!
    Em vez de solt-la, ele segurou o outro brao e quase a sacudiu, tal a intensidade de sua frustrao.
    - Quando viu os Ingram passando por aqui?
    - Na sexta-feira, acho. - E parou para pensar um pouco. - Sim, foi na sexta-feira  tarde.
    - E por que no mencionou o fato a ningum?
    - Por que... - Prola abaixou a cabea, perturbada com o olhar intenso e reprovador. - Eu esqueci...
    - Esqueceu? Esqueceu de dizer que os Ingram haviam invadido a propriedade Jewel?
    - Sinto muito. Estava pensando em outras coisas. - Livrando-se das mos que a seguravam, massageoi os brao onde ele os apertava. - E no acredito que esteja 
aborrecido apenas com a invaso.
    - Exatamente. Temos sofridos alguns roubos ultimamente.
    - Roubos?
    - Isso mesmo. Implementos agrcolas, rao dos animais, e agora uma porca e seu filhote.
    - Uma... porca? - Ela repetiu atordoada. - Oh, Cal! Onde foi?
    - No acampamento da fronteira oeste. Lester Miller enviou uma mensagem por um dos pees ontem. - Vendo a expresso de desnimo no rosto dela, perguntou: - Qual 
 o problema?
    - Havia... um porco e um filhote na carroa de Rollie Ingram.
    Apesar da expresso do rosto permanecer a mesma, houve uma mudana sutil no tom de voz do capataz.
    - Tem certeza do que est dizendo?
    Prola moveu a cabea em sentido afirmativo.
    - Se tivesse me contado antes, poderia ter procurado Ingram para faz-lo confessar.
    - E o que o impede de ir atrs dele agora?
    - Ele vai negar. E ainda dir que voc est mentindo.  essa altura, os porcos j devem ter desaparecido, vendidos por qualquer preo ou trocados por usque 
e suprimentos na cidade.
    Prola sentia-se mais desanimada a cada revelao. Rollie Ingram estivera embriagado, e vira a carroa carregada de mercadorias caras. O fazendeiro mal pudera 
esperar para gastar o dinheiro obtido por meios ilcitos.
    - Oh, Cal, eu sinto muito.
    Mas ele no ouvia. Nem percebia a perturbao da professora, ou a culpa que pesava como uma pedra em seu corao.
    Em silncio, deu-lhes as costas e subiu na carruagem. No estbulo, desatrelou os cavalos enquanto pensava no atrevimento de Ingram, na maneira descarada como 
invadira sua propriedade para roubar.
    Tinha de pr um fim nisso imediatamente. A menos que transformasse o episdio num exemplo, essa seria apenas a primeira de muitas outras invases da Fazenda 
Jewel por estranhos.
    Depois de verificar as armas, Cal selou o cavalo. Enquanto cavalgava, foi forado a admitir a verdade para si mesmo. Mal podia esperar pelo confronto.
    A Fazenda Ingram era pouco mais que um barraco cercado por mato e terra ociosa. O rebanho, composto por algumas dzias de vacas magras, vagava pela regio rida 
em busca de comida.
    A primeira coisa que McCabe notou ao chegar foi a carroa parada atrs da casa. Dois cavalos ruminavam sob o sol vespertino, comendo tufos secos de grama. Sinal 
de que Ingram no sara. Devia estar bebendo, ou estaria do lado de fora, cuidando das tarefas dirias.
    Cal parou o cavalo e desmontou. O sangue seco na grama chamou sua ateno. Um animal havia sido morto. Tocando as folhas manchadas, esfregou os dedos testando 
a consistncia do sangue. No mais que um ou dias, calculou. Rollie tivera pressa.
    A porta da casa em runas se abriu e o pequeno Daniel apareceu.
    - Meu pai quer saber o que est fazendo aqui.
    - Ele quer? E por que no veio perguntar pessoalmente? 
    O menino encolheu os ombros.
    - Ele me mandou vir perguntar.
    - Entendo. Seu pai est bbado demais para ficar de p? 
    Daniel encolheu-se e saiu do caminho ao ver que McCabe decidira entrar.
    - Acho melhor ir ver com meus prprios olhos.
    O que ele viu, assim que habitou-se  escurido no interior do casebre, o enojou.
    Rollie Ingram estava recostado na nica cadeira do aposento. Um lugar imundo. Havia rao de animais, selas, implementos agrcolas, ferramentas e at galinhas. 
Produto de roubo, certamente, espalhados pelo cho sujo. O ar estava impregnado pelo odor de excrementos, tanto animais quanto humanos.
    Gilbert estava debruado sobre um pequeno fogo de tijolos, cozinhando algo numa frigideira preta. Quando virou-se, o rosto exibiu os sinais de um selvagem espancamento. 
Um olho estava inchado que nem podia ser aberto. O nariz e a boca sangravam e uma das faces era uma ferida aberta.
    Cal sentiu que algo perigoso e sombrio adquiria vida em seu peito. Algo to incontrolvel e perigoso, que tivera de lutar para mant-lo soterrado sob muitas 
camadas de dor e ressentimento ao longo dos anos. Sabia que, se deixasse esse sentimento vir  tona, ele dominaria a razo e destruiria tudo que havia construdo 
com muito esforo. Agarrando-se  fora de vontade, sufocou a ira e tentou aplacar o fogo que incendiava sua alma.
    - Muito bem, Ingram. Vejo que encontrou uma forma de extravasar sua raiva.
    Rollie olhou para o filho mais velho.
    - Tomei providncia para que o idiota nunca mais derrube um saco de gros. - Ele levou o copo  boca e bebeu com avidez, deixando algumas gotas de uques carem 
na camisa suja.
    - Por que no o matou de vez? - A voz de Cal era baixa, ameaadora. - Assim teria certeza de que ele nunca mais cometeria erros. Ou tem medo de no poder contar 
com mais ningum para fazer seu servio sujo?
    - Ainda me restaria um filho - Rollie apontou com o copo para o caula. - Alm do mais, Gilbert sabe o que  bom para ele, e por isso suporta as surras como 
um homem de verdade. Caso contrrio, eu o expulsarei de casa e porei Daniel em seu lugar.
    Ento era isso que mantinha o pobre garoto preso nessa ratoeira imunda. Sabia que, sem ele, o irmo mais novo sofreria nas mos do pai. O dio por Rollie Ingram 
ameaava sufocar o capataz da Fazenda Jewel.
    O objeto de sua fria esvaziou o copo de um s gole e virou-se, encarando-o com olhos semicerrados.
    - Diga a que veio e saia da minha propriedade, McCabe.
    - Vim discutir uma porca e seu filhote. - Pelo canto do olho, viu Daniel abrir a boca. Um olhar penetrante de Gilbert fez o garoto silenciar.
    - Uma porca e um filhote? - Rollie coou o queixo como se estivesse pensando. - No. No estou interessado em comprar nenhum animal.
    - Melhor assim, porque tambm no quero vend-los. Estou falando dos porcos que roubou.
    - Roubei? Acha que roubei seus malditos porcos? Tem testemunha, McCabe?
    - Voc foi visto dirigindo sua carroa na Fazenda Jewel w havia uma porca e um filhote dentro dela.
    - Se quer revistar minha propriedade, v em frente. Mas asseguro que no encontrar absolutamente nada.
    - Eu sei disso. Mas, se for necessrio, mandarei meus pees a todas as fazendas da regio. Quanto tempo acha que levarei at encontrar um fazendeiro disposto 
a confessar que comprou os animais de voc? Ou melhor, um deles porque sou capaz de jurar que a carne que Gilbert est preparando saiu da Fazenda Jewel.
    - Est supondo, McCabe, mas no tem provas. Por tanto, v embora e me deixe em paz. E no volte sem o inspetor federal.
    Cal deu um passo na direo de Ingram, que apertou o copo com mais fora. Com uma das mos, soltou o cinturo com as cartucheiras e deixou-o cair no cho.
    - No preciso do inspetor. Esse assunto  nosso, Ingram. Meu e seu.
    Apesar do lcool que havia ingerido, o fazendeiro moveu-se com agilidade surpreendente. Rolando para o lado, quebrou o copo contra uma pequena mesa de canto. 
O pedao que restou em sua ao brilhava  luz do fogo.
    - No sabe h quanto tempo espero por uma chance como esta, McCabe. - Ele andava em crculo, avanando com o caco de vidro na mo e obrigando o caubi a retroceder. 
- Acha que  melhor do que eu? Tambm progrediu de maneira duvidosa. Conquistou a confiana de Joseph Jewel para herdar parte da fazenda, sempre protegido por aquele 
exrcito de pees e vaqueiros. E agora vive no conforto naquela casa espaosa e bonita.
    - No h nenhum peo comigo, Ingram - Cal esperava e tentava ganhar tempo, certo de que Rollie acabaria desferindo o primeiro golpe. Podia sentir o sangue pulsando 
nas veias e a adrenalina que o encharcava. E mesmo assim esperava, sabendo que, se jogasse bem, Ingram rastejaria como a serpente que era. - Somos s nos dois. Se 
for homem o bastante, saber lutar com justia.
    - Justia? - Rollie deu uma gargalhada e brandiu o pedao de copo.
    Cal saltou para trs, mas Ingram conseguiu passar uma das pontas afiadas por seu brao, desenhando um risco de sangue que logo ensopou a manga de sua camisa.
    - Engraado. Seu sangue no parece diferente do de Gilbert. Todos vocs, capachos, sangram da mesma maneira.
    Animado com o sucesso da primeira investida, ele aproximou-se e tentou deferir um segundo golpe. Dessa vez Cal estava pronto para receb-lo. Agarrando o brao 
do adversrio, torceu-o at arrancar gritos de dor de sua garganta. O caco de vidro caiu no cho imundo do casebre.
    - Voc o quebrou! - Rollie gritava. - Quebrou meu brao!
    - Espero que sim.
    Enfurecido, Ingram acertou um soco no rosto do adversrio. O sangue jorrou do nariz de Cal, manchando a frente de sua camisa.
    - Estava rezando para que fizesse isso - ele resmungou ao sentir o gosto do sangue.
    O primeiro murro no peito de Ingram o jogou para trs. O segundo, no queixo, privou-o e um dente.
    Rollie tirou uma faca da bota e investiu contra Cal, que moveu-se para o lado e evitou o golpe. A lmina enterrou-se to profundamente na parede de madeira, 
que no pode ser removida.
    Desesperado, Rollie abaixou-se e acertou uma cabeada no estmago do oponente. Os dois caram e continuaram trocando golpes violentos. O barulho era assustador.
    - Gilbert, v buscar meu rifle.
    -  melhor no obedecer, garoto, ou sua vida no valer um centavo. - Cal avisou sem piedade.
    Gilbert permaneceu onde estava, encostado numa parede, fora do caminho da luta, o brao em torno dos ombros do irmo mais novo. Os dois acompanhavam em silncio 
enquanto a batalha sangrenta prosseguia.
    - Voc me ouviu? - Ingram gritou.
    - Ele ouviu, mas tambm escutou o que eu disse. A briga  nossa, e seu filho no vai interferir. - As palavras de Cal foram seguidas por um soco que fez jorrar 
uma torrente de sangue do rosto de Ingram. - E dessa vez no est lidando com um menino indefeso. Vamos ver como se sai numa briga de verdade. Com um homem de verdade!
    A gargalhada de Rollie foi cortada pelo soco que McCabe acertou em sua boca.
    - Ah, voc vai pagar por... - Rollie no conseguiu terminar de falar. A cabea chocou-se contra o cho e os olhos giraram nas rbitas antes de esconderem-se 
atrs das plpebras cerradas. O punho, posicionado para o ataque, caiu como uma pedra ao lado do corpo inerte.
    Cal experimentou um desapontamento momentneo. Estava apenas comeando! Esperava que a luta o ajudasse a dissipar todos os vapores da raiva, da frustrao, acalmando 
a tempestade de emoes que se formava no cu de sua alma. Em vez disso, teria de contentar-se com meia briga.
    - Da prxima vez - resmungou enquanto se levantava -, espero encontr-lo sbrio, Ingram. S assim terei a satisfao de esmurr-lo at sentir meus braos cansados.
    Cal baixou-se para recuperar o cinturo e o chapu que havia perdido durante a luta, quando viu a expresso de horror no rosto dos meninos e ouviu o estalido 
metlico de um revlver.
    No havia tempo para sacar. Em vez disso, girou o cinturo em torno do corpo e usou-o para arrancar a pistola da mo de Rollie. A bala cravou-se na parede bem 
atrs dele.
    Cal praguejou e agarrou o sujeito pela gola da camisa, levantando-o como se fosse um boneco de pano. Dessa vez esmurrou-o com vontade e sem nenhuma clemncia, 
at que, Rollie caiu inconsciente.
    - Muito obrigado, Ingram - ele disse enquanto afivelada o cinturo. - Agora no haver uma prxima vez.
    
    
    Captulo 11
    
    Cal apoiou-se na parede externa do casebre de Rollie Ingram e respirou fundo. Era um alvio poder respirar novamente depois da experincia terrvel de sentir-se 
invadido pelo ar ftido do interior da choupana.
    Quando abriu os olhos, viu que Gilbert e Daniel o observavam. O mais jovem parecia sempre  sombra do mais velho. Como sempre, Gilbert mantinha um brao sobre 
os ombros de Daniel, como se quisesse proteg-lo das crueldades do mundo.
    - Deve estar esperando para levar o porco de volta - Gilbert comentou com tom neutro.
    Cal balanou a cabea.
    Eu o faria, se fosse para ensinar uma lio a seu pai. Mas os nicos castigados por essa atitude seriam voc e seu irmo. Tenho certeza de que sabero aproveitar 
bem o animal.
    Era possvel ver o alvio no rosto do menino. Abrindo um pequeno saco de tecido que levava sob a camisa, ele tirou algum dinheiro e entregou-o a Gilbert.
    - Esconda isso num lugar onde seu pai no possa encontr-lo.
    Os olhos do garoto brilharam diante da soma espantosa.
    - Por qu?
    - Quero que esteja prevenido para qualquer necessidade.
    Gilbert escondeu as notas no bolso.
    Cal montou e, sem dizer mais nada, partiu num galope frentico. De repente sentia-se esgotado. Precisava afastar-se da Fazenda Ingram o mais depressa possvel 
ou acabaria cometendo uma loucura qualquer.
    Com o corao apertado, descobriu que no havia tirado nenhuma satisfao da surra que dera no sujeito. Nada havia mudado. Ainda guardava um dio profundo no 
peito, e sabia que o valento bbado continuaria extravasando seus sentimentos menos nobres naqueles mais fracos e indefesos. Ingram ainda era um ladro capaz de 
roubar sempre que tivesse uma oportunidade, porque era preguioso demais para trabalhar pelo prprio sustento.
     medida que cavalgava, Cal percebeu mais alguma coisa. Por mais longe que fosse, nunca conseguiria livrar-se dos Ingram. Eles estavam gravados em sua mente 
e corao.
    
    Prola abriu a porta da escola. Deixando a lamparina sobre a mesa, foi acender o fogo com o qual iluminaria e aqueceria o lugar. Logo o frio foi banido da sala 
e ela comeou a preparar-se para um novo dia. Mas, por mais que tentasse concentrar-se nas lies que preparava, os pensamentos insistiam em invocar o rosto de Cal.
    Vira quando ele partira na direo da Fazenda Ingram, e ouvira quando ele havia retornado, horas mais tarde. Pela janela, notara as manchas que cobriam sua camisa 
e deduzira serem de sangue. Mas, em vez de entrar para lavar-se e trocar de roupa, ele havia permanecido no alojamento at sair novamente a cavalo, levando uma mochila 
e um saco se dormir. A concluso era bvia: Cal pretendia passar algum tempo longe da fazenda.
    Tinha certeza de que havia acontecido um confronto entre ele e Rollie Ingram, mas ainda restavam muitas questes. Ingram admitira o roubo? Cal exigira a devoluo 
dos animais? E os meninos? Teriam participado do ato ilegal?
    Oh, por que ele partira sem dizer nada? Agora teria de ser paciente e esperar pelo retorno do capataz para obter as respostas que buscava.
    As palavras de Carmelita ecoaram em sua mente.
    S uma tola se apaixonaria por um caubi. Eles so como o plen das flores, viajando ao sabor do vento sem nunca criarem razes.
    No estava apaixonada. Apenas... distrada.
    Pensando bem, a partida de Cal havia sido oportuna. Ele representava uma distrao das mais inconvenientes e, sabendo que no o encontraria a qualquer momento, 
poderia dedicar-se completamente aos alunos.
    Mas, assim que comeou a escrever algumas palavras com um pedao de carvo, os pensamentos voltaram a invocar o rosto msculo e bronzeado. Ainda no conseguia 
lidar com a bondade inesperada que alternava-se com os sbitos ataques de fria. McCabe no era um homem fcil de conhecer. Ou gostar. Existiam coisas que ele mantinha 
escondidas do mundo. E talvez fosse melhor que elas jamais fossem descobertas. Temia o que podia encontrar.
    Pouco depois as crianas chegaram e encheram a sala com sua alegria, banindo a inquietao que a perseguia desde a noite anterior. Hoje os alunos eram oito. 
Damon e Amos Durfee, Bart, Birdie, Travis e as trs irms Potter.
    - Srta. Jewel?
    Prola virou-se para ouvir a pergunta.
    - Sim, Birdie?
    A menina segurava um pacote cuidadosamente embrulhado num pedao de tecido fino.
    - O que  isso?
    - Sua Bblia. Minha me disse que eu poderia suj-la, caso no a protegesse.
    -  uma bela capa. Por favor, agradea sua me por mim. Ficou to lindo, que acho que vou deix-la assim para sempre. Leu alguma passagem para seus pais?
    - Sim, senhorita. Mame chorou, e papai ficou muito feliz. Eles disseram que ouvir a filha lendo a Bblia era o maior presente que podiam receber. Papai me pediu 
para expressar sua gratido pelo que tem feito por mim.
    Prola sorriu, apesar do n de emoo que formara-se em sua garganta. Com um gesto to simples, conseguira levar a alegria e satisfao a um lar.
    - Peguem suas lousas, crianas. Comearemos por...
    Ao ouvir som das rodas de outra carroa, ela ergueu a cabea surpresa. Antes que pudesse levantar-se, a porta se abriu e Rollie Ingram entrou seguido pelos dois 
filhos.
    O rosto ainda exibia as marcas do confronto com Cal McCabe, e agora Prola no tinha mais nenhuma dvida sobre o que acontecera entre os sois homens. O medo 
misturou-se  surpresa e ela respirou fundo, tentando controlar-se para no assustar as crianas. Teria o fazendeiro vindo  propriedade Jewel em busca do adversrio?
    O sorriso radiante que iluminou o rosto de Ingram desmentiu a hiptese.
    - Bom dia, srta. Jewel. Graas a Cal McCabe, finalmente vi a luz.
    - A... luz? - Ela repetiu confusa.
    - Do conhecimento,  claro. Decidi que meus filhos devem freqentar a escola com as outras crianas da cidade. - Ele empurrou os meninos e exerceu uma certa 
presso quando os dois resistiram.
    - Oh, Gilbert! - Prola cobriu a boca para abafar uma exclamao de horror ao ver o rosto ferido do garoto. - O que aconteceu com voc?
    - Ele caiu do cavalo e aterrissou numa pedra - Ingram respondeu sorrindo. - Esse menino  muito desastrado. Est sempre caindo, tropeando ou derrubando coisas. 
Todos os dias ganha um novo machucado. No  verdade, filho?
    Gilbert mantinha a cabea baixa, evitando encarar os outros meninos.
    - Sim.
    - O que  isso? Fale alto, garoto! - Rollie beliscou o brao do filho.
    - Eu disse sim, senhor.
    - Assim  melhor. - Ele virou-se para Prola. - Meus filhos sabem que espero que se comportem muito bem na sala de aula, e tambm sabem que tero de acertar 
contas comigo se desobedecerem.
    Sabia como ele costumava acertar as contas com os garotos. Ainda lembrava como ele havia chutado Gilbert enquanto o garoto recolhia os gros espalhados no cho, 
e tambm no havia engolido a histria sobre o menino ter cado do cavalo. Tinha alguns palpites sobre como Gilbert conquistara as cicatrizes mais recentes.
    - Tenho certeza de que no enfrentaremos nenhum problema.
    - Melhor assim. - Rollie esfregou as mos e estufou-a por alguns instantes.
    Prola experimentou um arrepio que percorreu da cabea aos ps, mas resistiu ao impulso de levar as mos ao peito e virar o rosto para escapar do incmodo escrutnio.
    Satisfeito, Rollie virou-se para sair.
    - Virei buscar meus filhos antes do jantar. Por favor, no deixe que eles saiam enquanto eu no chegar.
    Assim que a porta se fechou, Prola deixou escapar o ar que estivera retendo sem perceber. O sujeito tinha o dom de faz-la tremer! Mas agora era hora de esquecer 
a figura repulsiva de Rollie Ingram e concentrar-se nos filhos dele.
    Comeara o dia temendo possveis problemas e, em vez disso, tinha dois novo alunos. Gostaria de saber o que Cal havia dito para convencer Rollie Ingram a permitir 
que os meninos freqentassem as aulas. O que quer que houvesse sido, o efeito fora positivo.
    - Sentem-se, garotos - convidou, apontando uma cadeira entre os mais jovens para Daniel e outra,  direita para Gilbert.
    O grupo parecia relutar em dividir o espao fsico com os novos alunos, sempre sujos e maltrapilhos, e os dois irmos tambm pareciam incomodados, evitando encarar 
os colegas. As duas irms Potter permaneceram em silncio e moveram-se para abrir espao para o novo aluno, mas Amos Durffe decidiu expressar sua opinio.
    - No o quero perto de mim - disse, vendo que Gilbert comeava a instalar-se.
    - J chega, Amos - Prola o censurou com firmeza.
    - El  um ladro! - o menino protestou. - Meu pai disse que ele e Rollie roubaram um carregamento de farinha no inverno passado e depois o venderam numa cidade 
vizinha.
    - Voc viu o roubo?
    - No, senhorita. Mas todos afirmaram...
    - Se no viu nada, est apenas repetindo o que pode ser uma terrvel calnia.
    - Todos sabem que ele roubou. No quero me sentar ao lado de um ladro.
    - No permitirei atitudes com essa em minha sala de aula. E agora, Gilbert... - Prola sentiu algum puxando sua manga e parou. - O que foi, Birdie.
    - No me importo se ele sentar-se a meu lado, srta Jewel.
    Prola sentiu vontade de abra-la, mas conteve-se.
    - Obrigada Birdie. Gilbert pode acomodar-se naquela cadeira.
    Ele instalou-se ao lado de Birdie, sempre mantendo a cabea baixa.
    - Aqui, Daniel. - Prola entregou uma lousa ao menino. - Quero que escreva quantas letras souber. Quando terminar, traga o trabalho at minha mesa e o verificaremos 
juntos.
    - Sim, senhorita. - Ele debruou-se sobre a lousa e concentrou-se.
    A professora distribuiu as tarefas para o restante do grupo, e depois parou ao lado da mesa de Gilbert.
    - Sabe ler? - perguntou
    Ele encolheu os ombros e manteve a cabea baixa.
    - Algumas coisas.
    - Por que no vai at a minha mesa e l. S para me mostrar o que sabe.
    O garoto a seguiu at a mesa na frente da sala e, depois de sentar-se, Prola deu a ele uma cartilha simples. Ele comeou a ler em voz alta, sem cometer erros, 
mesmos nas palavras menos conhecidas. O som da voz masculina, mais profunda do que as outras chamou a ateno de vrias crianas. Prola olhou para cada aluno com 
expresso sria, indicando que deviam retomar seus trabalhos. Mas, embora mantivessem os olhos fixos no papel, sabia que continuavam muito interessados no novo colega, 
to diferente de todos eles. No era s a reputao, as roupas sujas e remendadas, ou os cortes e hematomas no rosto e no corpo. Ele tinha uma presena imponente, 
e no sabia nem identificar o que o tornava to altivo. Era grande demais para a idade. Maior at que Travis Worting. Os braos j exibiam os desenhos de msculos 
definidos. Mas no era o porte fsico que causava impacto. Talvez fosse sua atitude, uma espcie de raiva contida que parecia ter roubado sua infncia, combinada 
a um estoicismo diante da existncia de sacrifcios que levava. E havia mais uma caracterstica marcante. Sua inteligncia era surpreendente. 
    - Obrigada, Gilbert. Como aprendeu a ler to bem?
    - Minha me me ensinou. Antes de morrer.
    - Ela foi uma excelente professora.
    Por um momento, Prola teve a impresso de ver uma nova luz nos olhos do garoto. Mas o brilho apagou-se com a mesma rapidez com que havia aparecido, e a linha 
reta e apertada dos lbios voltou a dominar o rosto quase infantil.
    - Pode ir sentar-se. Daniel, j terminou as letras?
    - Sim, senhorita. - O menino correu para perto da mesa levando a lousa.
    Prola no pde esconder o espanto. Apesar de a caligrafia estar muito longe da perfeio, as letras sobre o papel eram todas corretas. E no alto da pgina, 
Daniel escrevera o prprio nome.
    - Quem o ensinou a escrever tantas letras? E seu nome...
    - Foi meu irmo - ele respondeu orgulhoso.
    - Gilbert?
    - Ele me ensinou usando uma vareta para rabiscar na areia - Daniel baixou o tom de voz. - No vai contar a papai?
    -Seu pai no pode saber que Gilbert est ensinado voc a escrever?
    - No, senhorita.
    - Obrigada, Daniel. Pode voltar ao seu lugar. - Assim que o novo aluno acomodou-se, ela respirou fundo e dirigiu-se  turma. - Agora vamos trabalhar com os nmeros. 
Faremos algumas somas.
    Enquanto os mais novos trabalhavam em adies simples os maiores eram instrudos a calcular o resultado de colunas de nmeros. Enquanto caminhava entre eles, 
ajudando e encorajando, Prola pensava no que acabara de saber. Rollie Ingram tivera uma sbita mudana de opinio. Apesar de no aprovar o fato dos filhos aprenderem 
coisas novas, hoje os levara  escola.
    E disse que o encontro com Cal o fizera ver a luz.
    De repente sentia-se como se algum houvesse retirado um peso enorme de sobre seus ombros. Era o comeo de uma nova semana. E o amanhecer de um novo dia para 
as crianas de Hanging Tree. Especialmente para os infelizes garotos de Rollie Ingram.
    - O dia est to lindo, que acho melhor almoarmos l fora - Prola anunciou.
    As crianas correram ao fundo da sala para apanharem as cestas que os pais haviam preparado. Notando que Daniel e Gilbert no possuam nenhuma, a professora 
apanhou a dela e disse:
    - Quero que vocs dois sentem-se perto de mim. Sempre trago comida suficiente para dividir.
    - No precisamos de nada - Gilbert reagiu. Notando que o irmo mais novo abria a boca para argumentar, acrescentou com firmeza. - Comemos mais que o suficiente 
esta manh, antes de virmos para a escola.
    - Tenho certeza que sim. - Prola escolheu uma sombra agradvel sob uma rvore e estendeu a toalha sobre a grama. Depois comeou a retirar os alimentos da cesta, 
desembrulhando vrios sanduches de po sovado com rosbife fatiado.
    Sem dizer mais nada, entregou um deles a Daniel e outro a Gilbert. Antes que o mais velho pudesse protestar, o caula mordeu o lanche e suspirou com satisfao 
evidente.
    - Hummm... Gilbert  um bom cozinheiro, srta, Jewel, mas ele nunca fez nada com esse sabor.
    -Ento sabe cozinha? - a professora perguntou ao garoto sentado a seu lado.
    - Sim, senhorita. - Ele abaixou a cabea e decidiu seguir o exemplo do irmo. Depois da primeira mordida, Gilbert devorou o sanduche em poucos minutos.
    Notando o apetite dos garotos, Prola dividiu o ltimo lanche em dois pedaos e colocou-os na frente dos meninos. Em seguida abriu um pacote de biscoitos com 
mel e abenoou Carmelita por mandar sempre tanta comida.
    - Jamais seria capaz de comer tudo isso - comentou, deixando os biscoitos no prato sobre a toalha.
    Daniel foi o primeiro a prov-los. Gilbert s serviu-se quando teve certeza de que o irmo mais novo havia comido at satisfazer-se. Ento pegou um biscoito 
e comeu devagar, saboreando cada migalha.
    Prola abriu um cantil de limonada e bebeu vrios goles antes de pass-la a Gilbert. Ele pareceu surpreso com a generosidade ilimitada da professora, mas bebeu 
um pouco e passou o refresco ao irmo.
    - Essa foi a melhor comida que j provei. - Daniel comentou antes de limpar a boca na manga suja e esfarrapada.
    - Fico feliz por terem gostado. Agora podem ir brincar um pouco com os outros, at eu chamar para voltarmos  sala de aula.
    - Brincar? - Daniel espantou-se
    - Sim, correr, subir nas rvores e esconder. - De repente percebeu que aquela criana no tinha menor idia do que significava brincar. Compondo-se, chamou: 
- April, May e June, querem brincar de esconder com Daniel?
    - Sim, srta. Jewel - as trs responderam juntas.
    - timo. Primeiro tero de explicar as regras.
    - Ns nos revezamos para encontrar os que esto escondidos - April comeou a falar com firmeza. - No podemos ultrapassar os limites das rvores nem correr para 
trs da escola. Quem for encontrado primeiro, ter de procurar os outros na prxima vez.
    Logo os quatro comearam a brincar, e aos poucos os outros uniram-se ao grupo.
    - No quer ir divertir-se, Gilbert?
    O garoto estava parado em baixo da rvore, sozinho, observando em silncio.
    - No, senhorita.
    - Nesse caso, talvez possa me ajudar. - Ela guardou os pratos e o que restara do lanche na cesta e fechou-a. - Venha comigo.
    Gilbert a seguiu at a cabana.
    - Ponha a cesta ali, por favor - disse, indicando um canto da sala. - E j que no quer brincar, estou precisando de ajuda para trazer um pouco mais de madeira 
para o fogo. Aqui fora o sol  sempre quente e agradvel, mas l dentro a umidade impede o aquecimento. No acha?
    - Talvez.
    Ele foi at a pilha de madeira deixada ao lado da cabana e voltou carregando uma quantidade suficiente para fazer cambalear um homem adulto.
    Atnita Prola o viu deixar as toras no cho e acomodar algumas na lareira. Assim que terminou, ele levantou-se e encarou-a esperando por novas instrues. A 
professora fitou-o e notou os olhos do menino eram constantemente atrados pelo vaso sobre sua mesa.
    - Eu as colhi esta manh, quando vinha para a escola - disse. So lindas, no acha?
    Gilbert afirmou com a cabea, aproximou-se devagar e tocou as ptalas de uma flor com a mo suja.
    - Minha me gostava muito de flores do campo.
    - Aposto que colheu muitas para ela.
    - As flores faziam mame sorrir. s vezes, quando estava triste, um buqu bem colorido era a nica coisa capaz de secar as lgrimas dos seus olhos. Ainda levo 
flores do campo ao tmulo onde ela foi enterrada.
    Prola tocou a mo dele.
    - Que bom. Tambm costumo visitar o tmulo de minha me e levar flores.
    De repente ele afastou-se, como se o contato fsico o ofendesse.
    - O que mais quer que eu faa?
    A professora suspirou. O encanto havia se quebrado. A expresso carrancuda voltava a dominar o rosto triste, e a raiva era novamente a emoo dominante na criatura 
curiosa que misturava a pureza da infncia aos ressentimentos da vida adulta. De agora em diante, teria de tomar cuidado para no voltar a toc-lo. Talvez ele tivesse 
medo de ser agredido ou ferido por outras pessoas, j que era essa a experincia que tinha com o pai.
    - Mais nada, Gilbert. Voc j foi muito til. Obrigada. - Aproximando-se da porta, chamou: - Hora de voltarmos ao trabalho, crianas!
    Em poucos minutos, meninos e meninas ocupavam novamente as cadeiras e cumpriam seus deveres. Mas, enquanto trabalhava, Prola refletia sobre Gilbert Ingram e 
conclua que havia muito mais nele do que a imagem que mostrava ao mundo.
    
    
    Captulo 12
    
    - Quantos de vocs treinaram para soletrar as palavras? -Prola perguntou.
    A maioria dos alunos ergueu a mo.
    - Ento venham at a frente da sala e faam um fila. Comearemos com algumas palavras simples. Gilbert e Daniel, como no estavam aqui na semana passada, podem 
ficar em seus lugares. Enquanto o grupo soletra, vocs devem tentar escrever em suas lousas para que eu tenha uma idia de quanto sabem.
    Prola comeou com palavras elementares para os mais novos, e foi elevando o grau de complexidade  medida que os pequenos iam sendo eliminados da competio. 
Logo restavam apenas Travis e Birdie.
    - A palavra  honra. Travis?
    O menino franziu a testa. Sabia que essa era uma daquelas palavras cheias de armadilhas, mas no conseguia form-la na mente.
    - O-N-R-A - disse devagar, parando em cada letra.
    - Lamento, mas voc no acertou. - Prola virou-se para Birdie. - Se acertar essa, ser declarada vencedora do concurso e poder levar a Bblia para casa novamente.
    Nervosa, a menina mordeu o lbio. Como adoraria levar o livro sagrado para casa mais uma vez. Havia sido maravilhoso ver aquela luz nos olhos da me. Mas estava 
confusa com tal palavra.
    Torcendo as mos, levantou a cabea e viu que Gilbert Ingram mostrava a lousa para que ela pudesse ler o que ele escrevera.
    - H-O-N-R-A - recitou, sem sequer ter conscincia do que dizia.
    - Correto! - Prola exclamou satisfeita. - No esperava que algum de vocs soubesse que o H  silencioso nessa palavra. Parabns, Birdie. Voc venceu o concurso, 
e por isso pode levar para casa...
    A menina balanava a cabea com veemncia.
    - No posso levar o livro, srta Jewel. Eu no venci o concurso
    - Mas voc soletrou...
    - No, senhorita. Eu no tinha a menor idia de como essa palavra devia ser soletrada. Foi Gilbert. Ele escreveu a palavra na lousa e me mostrou.
    Surpresa, Prola pediu:
    - Gilbert, pode trazer sua lousa at aqui?
    O menino obedeceu.
    Ao passar por Birdie,ele sussurrou:
    - Por que tinha de contar? Fiz isso para ajud-la a vencer.
    - Mas eu no quero vencer dessa maneira. No  justo.
    - Mas a vitria  importante para voc. E quis retribuir a gentileza de ter me deixado sentar a seu lado no meu primeiro dia de aula.
    - No precisa retribuir nada, Gilbert. No me importo se sentar a seu lado. Na verdade, eu... at gosto.
    Prola ouviu a conversa sussurrada enquanto corrigia a lista de palavras, Gilbert acertara todas elas. Surpresa, pensava numa forma de lidar com a situao.
    - Conhece o significado dessa palavra, Gilbert? Perguntou com tom suave.
    Ele pensou um pouco antes de responder.
    Honestidade, acho. Respeito.
    - Como pode saber? - Amos Durffe gritou. - Talvez seja capaz de soletrar a palavra honra, mais jamais a ter!
    Prola envolveu o aluno num olhar de censura que o silenciou. Depois voltou-se para Gilbert.
    - Todos ns podemos encontrar maneiras de praticar o sentido dessa palavra em nossas vidas dirias. Birdie acabou de nos oferecer um timo exemplo de honra. 
Levar a Bblia para casa  muito importante para ela, mas sua honra, sua integridade, esto acima de tudo. Ela sabia que no tinha direito ao prmio. Podia ter se 
mantido calada. Ningum, teria sabido. Mas ela preferiu o caminho mais nobre e admitiu a verdade.
    - Mas ela no fez nada errado - Gilbert argumentou. - Eu trapaceei.
    - Diga-me uma coisa, Gilbert. Se um homem rouba, e depois vende os produtos para algum que sabe que foram roubados, os dois homens so culpados, certo?
    O garoto no disse nada e ela prosseguiu:
    - Ao permitir que voc a ajudasse a vencer, Birdie sabia que tambm estava trapaceando.
    - Eu jamais faria qualquer coisa que pudesse prejudic-la. S quis ajud-la. Quanto a mim... - Ele baixou a cabea. - No importa. Todos sabem o que sou.
    Prola segurou o queixo do garoto e forou-o a encar-la.
    -Voc  uma tima pessoa que quis ajudar uma amiga, e isso  admirvel. Mas o melhor presente que se pode oferecer a um amigo, e a si mesmo,  a honra. Nossa 
honra, nosso bom nome,  o que possumos de mais precioso. - E virou-se para a classe. - Tenham sempre cuidado para no arruinar o nome de um homem com fofocas maldosas. 
Ou podero sofrer o mesmo destino mais tarde.
    Amos Durffe ficou vermelho e abaixou a cabea. Vrios alunos fizeram o mesmo.
    - Muito bem, o que devo fazer com o prmio?
    - Por que no o d a Gilbert? Birdie sugeriu. - Ele acertou todas as palavras.
    -  verdade. Voc  o vencedor do nosso concurso, Gilbert. - Prola decretou, oferecendo a Bblia ao garoto.
    - Eu... nunca venci coisa alguma antes.
    - Quer levar a Bblia para casa? Poderia ler algum trecho das sagradas escrituras para seu irmo e seu pai antes de irem dormir, esta noite.
    A meno do pai baniu o sorriso que bailava nos lbios do garoto.
    - Acho... acho melhor no fazer o que sugere.
    Prola ps o livro nas mos dele.
    - O prmio e seu. Faa com ele o que achar melhor. A nica exigncia  que o devolva amanh cedo. E agora, turma faremos uma leitura rpida antes de encerrar 
o dia.
    Gilbert e Birdie voltaram aos seus lugares. Pela primeira vez desde que todos podiam lembrar, ele ofereceu um sorriso verdadeiro a algum antes de abaixar a 
cabea.
    - Lembrem-se de estudar a nova lista de palavras para soletrar! - Prola gritou enquanto as crianas subiam na carroa de Travis Worthing e voltavam para suas 
casas.
    - At logo, srta. Jewel - Birdie acenou. Os olhos estavam fixos no garoto parado na soleira, ao lado da professora.
    Gilbert no retribuiu o aceno, mas os olhos o traram, seguindo a carroa com ateno e brilhando intensamente at que o veculo desaparecesse alm das rvores.
    - Lamento que tenha que ficar por nossa causa - ele ofereceu quando Prola voltou  mesa.
    - No me importo. Sempre fico at mais tarde preparando as lies do dia seguinte. Querem me ajudar a limpar e arrumar a sala?
    - Sim, senhorita. - Daniel respondeu animado. Faria qualquer coisa para agradar a mulher que o fazia pensar em princesas e contos de fada.
    Prola entregou a ele um pano e a pilha de lousas dos alunos.
    - Que tal lev-las para fora e deix-las bem limpas? Depois devolva-se s mesas.
    O menino afirmou com a cabea e saiu apressado.
    - Gilbert, voc pode jogar fora a gua daquele balde. Amanh cedo voltaremos a ench-lo com gua fresca do riacho. E depois, se no se importar, vou precisar 
de mais madeira para o fogo.
    Ele pegou o balde e saiu.
    Minutos depois Daniel voltou.
    - Terminei, srta Jewel. - Depois de colocar as lousas em seus lugares, ele aproximou-se da mesa da professora.
    - E tambm - Gilbert anunciou, deixando uma pilha de toras ao lado da lareira.
    Prola no pode deixar de sorrir de tanta eficincia. Era obvio que consideravam as tarefas simples, comparadas s que tinham de desempenhar em casa.
    - Agora conquistaram o direito de escolherem algo para fazer. Podem explorar a escola, se quiserem, ou irem pescar no riacho.
    Daniel olhou para a escada que levava  plataforma no alto da sala.
    - Posso ir at l em cima, srta. Jewel?
    -  claro que sim. Pensando bem, acho que irei com vocs.
    Ela seguiu os meninos pela escada e ajoelhou-se sobre a palha.
    - O que  isso? - Daniel quis saber, tocando o cobertor de pele de bfalo.
    - Uma relquia. Meu pai usava esse cobertor quando vivia aqui na cabana, logo que chegou a Hanging Tree.
    - Seu pai morou aqui? Gilbert espantou-se. - Pensei que ele houvesse nascido naquela linda casa.
    - Acho que a maioria das pessoas acredita nisso. Mas meu pai era s um rapaz pobre, um caubi determinado que decidiu perseguir um sonho. Ele no era muito mais 
velho que voc, Gilbert, quando comeou a construir a vida com as prprias mos nesse ambiente selvagem. s vezes imagino que tipo de coisas ele teve de enfrentar 
sozinho.
    - ndios - Daniel opinou.
    - E bandidos - Gilbert ofereceu.
    - Sem mencionar a solido, medo e fome - Prola disse em voz baixa, como se falasse para si mesma. - Vir a essa cabana me fez pensar em tudo que papai teve de 
enfrentar para alcanar o sucesso. Bem - suspirou, voltando para perto da escada -, fiquem aqui em cima o tempo que quiserem. Ainda tenho algumas coisas para fazer 
em minha mesa.
    Enquanto preparava as lies do dia seguinte, Prola ouviu os sussurros vindos da plataforma que um dia servira de quarto para seu pai. Era bom ouvir a voz da 
vida na cabana. De todos os sonhos de seu pai, esse havia sido o mais doce. Encontrar uma mulher com quem pudesse dividir as conquistas, algum com quem pudesse 
dividir todas as conquistas, algum que enchesse sua casa de filhos e alegria.
    Mas o sonho fora desfeito quando a esposa morrera ainda jovem depois de dar  luz a primeira filha, Esmeralda. E apesar de ter amado outras mulheres e ter tido 
outras filhas com elas, Joseph morrera antes de reunir a famlia.
    Como devia ter sido doloroso saber que jamais poderia convencer uma de suas amadas a partilhar da vida que ele escolhera. Como era irnico o fato das filhas 
terem se reunido somente agora, depois de sua morte, e na fazenda onde jamais haviam estado enquanto ele ainda vivia.
    Mergulhada nos prprios pensamentos, ela no ouviu a aproximao da carroa. Quando a porta foi aberta de repente. Prola levantou a mo ao peito.
    - Sr. Ingram! Oh, estava distrada...
    - Sr. Ingram. - Ele sorriu, exibindo os dentes manchados pelo tabaco. - Gosto disso.  uma demonstrao de respeito. - Parecia um pouco agitado, e o hlito cheirava 
a usque. - Onde esto meus filhos?
    - Aqui em cima, pai - Daniel indicou da plataforma.
    - O que esto fazendo a? - Rollie gritou.
    - Apenas olhando. A srta, Jewel disse que podamos subir. 
    - Pois quero que desam imediatamente. - Um brilho cruel e feroz iluminava os olhos do sujeito. - Tenho uma surpresa para vocs.
    Quando os filhos terminaram de descer a escada, ele estava segurando a pistola numa das mos e afagando o metal frio com a outra, como se o revlver fosse um 
tesouro adorado.
    - Qual  a surpresa? - Daniel perguntou.
    Atrs dele, Gilbert parou e olhou para o pai com cautela. Era bvio que j havia experimentado todos os humores de Rollie Ingram, e sabia que esse, em particular, 
sugeria problemas.
    - Sua professora e eu vamos dar um pequeno passeio.
    - Passeio? - Prola empurrou a cadeira e tentou levantar-se, mas Ingram apontou a arma para ela. Assustada, sentou-se e agarrou-se  mesa temendo desfalecer.
    - Exatamente. Estive pensando, e conclu que Cal McCabe s descobriu sobre o roubo dos malditos porcos por sua causa. Voc contou a ele que nos viu passando 
pela escola.
    - Pai... - As palavras morreram na garganta de Gilbert quando Ingram virou-se para ele com um olhar cheio de dio.
    - Cale a boca! - Ele voltou-se para Prola e, quando falou novamente, o tom arrastado e sarcstico assustou-a ainda mais que os gritos furiosos que j tivera 
oportunidade de ouvir. - Todos pensam que sou preguioso e estpido, mas tenho um crebro brilhante. Por isso sei que todo homem tem um ponto fraco. A fraqueza de 
Cal McCabe, por exemplo...  voc, srta. Sabe-Tudo. Sendo assim, vou us-la como isca para atrair aquele caubi arrogante at as montanhas.
    - Mas por qu? - Ela conseguiu perguntar, apesar do medo que ameaava sufoc-la.
    - Porque ningum espanca Rollie Ingram impunemente. Cal McCabe ter de pagar, mas primeiro, antes de morrer, ele sofrer muito. E no existe lugar melhor para 
torturar algum do que l em cima, onde sou o rei. - Ele gargalhou, um som estridente que mexeu com os nervos da professora. - Ningum conhece as montanhas melhor 
que eu. Nem mesmo Cal McCabe. E agora trate de se mexer, professorinha. Trouxe a carroa carregada e pronta para uma grande aventura.
    Prola no conseguia levantar-se. As pernas tremiam violentamente, mas a mente ainda funcionava com alguma clareza. Por isso tentou argumentar.
    - No pode fazer isso, Rollie.
    - Ah, agora sou Rollie? O que aconteceu com o sr. Ingram? 
    - Respeito  um sentimento que deve ser conquistado.
    Ele jogou a cabea para trs e riu.
    - Oh, saberei conquistar seu respeito, pode apostar nisso. Antes de a histria acabar, srta. Sabe-Tudo, estar me chamando daquilo que eu quiser. E far tudo 
que eu mandar para salvar sua miservel vida e a de Cal McCabe. - O sorriso desapareceu e o rosto foi dominado pela expresso cruel e sdica de um homem enlouquecido. 
- Agora mova-se!
    Prola levantou-se e assumiu uma postura rgida, orgulhosa.
    - No vou com voc a lugar nenhum. Pode atirar,se quiser.
    - Ora, ora, quanta nobreza... - O sorriso voltou a distender seus lbios quando ele debruou-se sobre a mesa, jogando livros, lousa e vaso de flores no cho. 
- Vou atirar em voc, se for preciso, mas no a matarei. Ainda no. Pretendo mant-la viva por um bom tempo, professorinha, porque voc  a isca que vai atrair Cal 
McCabe para a minha armadilha. - Ele apontou e atirou. A bala passou muito perto do p dela, arrancando farpas da madeira do piso.
    Prola teve a impresso de que o corao parava de bater para, em seguida, disparar como um galope desenfreado.
    - A prxima ser certeira. E como no teremos tempo para fazer curativos, voc ter de suportar a dor. Pense nesse lindo vestido todo manchado de sangue. - Ele 
riu e brandiu a arma. - Agora ande.
    - E quanto aos meninos?
    - Eles sabem como voltar para casa. A caminhada far bem aos msculos de suas pernas.
    - Pai, a cidade inteira ir atrs de voc - Gilbert tentou argumentar.
    - Que venham. Tenho balas suficientes para enfrentar um exrcito. Vai valer a pena lutar contra toda a cidade s para matar McCabe.
    Ingram enterrou o cano da arma nas costelas de Prola, que segurou a barra do vestido e comeou a caminhar na direo da porta. Irritado com a lentido dos passos 
da professora, Rollie a agarrou pelo brao e puxou-a para fora, derrubando mesas e cadeiras que estavam no caminho.
    - Vamos embora.
    Daniel comeou a chorar e, virando-se, Rollie descreveu um arco com a mo. Antes que pudesse atingir o rosto do garoto, Gilbert colocou-se entre eles e recebeu 
o golpe destinado ao irmo. Uma bofetada que o fez virar a cabea para o lado. Rollie agarrou pela gola da camisa e puxou-o para mais perto. O menino no encolheu-se 
e sustentou o olhar de dio.
    - Est disposto a me enfrentar, fedelho? Se estiver, saiba que ter de acertar contas com meu revlver.
    Gilbert no respondeu, mas seus olhos eram to duros e furiosos quanto os do pai. Rollie empurrou-o com tanta violncia que ele caiu, derrubando mais algumas 
cadeiras.
    - Tratem de ir direto para casa. E fiquem l. Assim terei tempo para chegar onde pretendo. Quando McCabe chegar procurando pela professorinha, digam a ele que 
a levei para as montanhas. Digam tambm que estarei esperando por ele. E depois esperem quietos, ou sofrero as conseqncias.
    - Dessa vez ele o matar - Gilbert disse enquanto levantava-se do cho.
    Furioso, Ingram agarrou novamente pelo colarinho e levantou-o, acertando um soco em seu estmago que o fez dobrar-se ao meio.
    Com uma gargalhada cruel. Rollie subiu na carroa e estalou as rdeas. Sem virar-se, gritou por cima do ombro.
    - Acho que sei por quem estaro torcendo. Mas eu descerei das montanhas trazendo a vitria, garoto. E quando isso acontecer, acertaremos nossas contas e descobriremos 
de uma vez por todas do que voc  feito.
    
    
    Captulo 13
    
    - Dessa vez papai foi longe demais. Ele vai matar a srta. Jewel! - As lgrimas rolavam pelo rosto de Daniel, misturando-se  sujeira e formando pequenos rios 
lamacentos.
    Gilbert viu a carroa desaparecer alm das rvores e cerrou os punhos. Queria chorar, tambm, mas considerava-se grande demais para esse tipo de reao. Alm 
do mais, s conseguiria deixar o irmo ainda mais nervoso.
    Devia ter imaginado. Toda aquela conversa do pai sobre levar os filhos  escola e contribuir para que fossem to bons quanto as outras crianas... Havia sido 
uma grande mentira, um plano para que ele pudesse vingar-se de Cal McCabe pela surra que recebera.
    O pior de tudo era que quisera acreditar no pai. Apesar de Rollie Ingram nunca ter cumprido ma promessa, nem tratado os filhos com um mnimo de respeito e carinho, 
Gilbert havia esperado e orado para que dessa vez fosse diferente. Quando aprenderia?
    - Se as pessoas j nos odiavam antes, imagine como vo nos tratar depois disso. Nunca mais poderemos aparecer na cidade. Assim que papai voltar, teremos de esconder 
nas montanhas e depois recomear a vida em outro lugar.
    - A culpa no  nossa - Daniel choramingou, sem incomodar-se com as lgrimas que caam.
    - Nunca foi, mas isso no impediu as pessoas de nos odiarem s porque somos Ingram.
    - O que vamos fazer, Gilbert? - o menino perguntou entre soluos.
    O mais velho encolheu os ombros.
    - Se cumprirmos as ordens do nosso pai, o sr. McCabe caminhar diretamente para a armadilha e ser morto. Se desobedecermos, papai ficar furioso e matar a 
srta. Jewel. - Sem mencionar o que faria com eles assim que voltasse para casa.
    Desde cedo, Gilbert fora forado a tomar muitas decises. A fim de sobreviver, assumira mais responsabilidade do que a maioria dos meninos da sua idade. Mas 
dessa vez sentia-se perdido. Qualquer que fosse o caminho escolhido, algum sofreria. Talvez o melhor curso de ao fosse no fazer nada. Correr, esconder-se e preparar-se 
para o inevitvel.
    -  melhor irmos embora.
    -Vamos para casa? - Daniel perguntou surpreso, sem conseguir conter o pranto.
    - O que mais podemos fazer? - O mais velho passou a mo pelo rosto, mais assustado do que gostaria de admitir.
    Ao preparar-se para fechar a porta da cabana, os olhos caram sobre a Bblia em cima da mesa. Por um momento, pensara em lev-la para casa e ler alguns trechos 
para o pai. Que piada!
    E ento pensou na palavra com que havia conquistado o prmio.
    Honra.
    Ainda podia ver o rosto da professora enquanto ela falava  classe o significado da palavra. Notara o brilho intenso em seus olhos, a mesma luz que havia visto 
nos olhos de sua me diversas vezes, quando o pai afastava-se e a tenso em casa era substituda por doces momentos de paz. Nessas ocasies ela falava sobre a vida 
que havia levado antes de casar-se com Rollie Ingram. Antes do amor que os unira ser soterrado por uma montanha de mentiras, trapaas e crueldades. Houvera amor 
e alegria no lar que ela conhecera na infncia, e msica, religio, livros e poesia.
    E dignidade.
    Os olhos da me brilhavam sempre que ela mencionava o pai, um homem religiosos, honesto e completamente devotado  esposa e  nica filha. Para Gilbert, uma 
casa como aquela parecia sado dos mesmos contos de fada que a me lera tantas vezes para o mais novo, histrias cheias de reis e castelos. E quando ela falava sobre 
sua esperana e sonhos para o futuro? Eram to diferentes da vida que levara ao lado de Rollie Ingram!
    - Um dia construir sua prpria vida - ela dizia. - E ser uma vida de bondade e honra.
    A estava a palavra novamente. Honra.
    - Vamos embora - Gilbert decidiu, segurando a mo do irmo. - Temos uma longa caminhada pela frente. A noite chegar antes de termos vencido a metade da distncia 
at a Fazenda Jewel.
    - A... Fazenda Jewel? Ento no vamos para casa? - Ao ver o irmo balanar a cabea em sentido negativo, Daniel empalideceu. - Sabe que vai ter que enfrentar 
os punhos de papai quando ele voltar?
    - No ser nenhuma novidade. Mas dessa vez, enquanto estiver apanhando, saberei que agi corretamente.
    
    Prola agarrou o assento de madeira da carroa e respirou fundo, tentando diminuir o ritmo das batidas do corao.
    Se fosse Esmeralda, teria uma arma escondida no cano da bota. Se fosse Jade, a arma seria uma faca de cabo incrustado. Se fosse Rubi, contaria com toda a malcia 
e esperteza dignas de uma patife inata. Mas, como sempre, no podia lanar mo de nenhum instinto de sobrevivncia. Era realmente intil. Indefesa.
    Oh, papai! Muitas vezes durante minha vida senti-me sozinha e apavorada, mas nunca como agora. E como se no bastasse, ainda serei a causa da morte de Cal. Ajuda-me, 
papai. Ajuda-me pelo menos encarar meu destino sem ser covarde.
    Pensar no homem forte e bravo que havia lhe dado a vida foi bastante para provocar uma onda de sentimentos. H pouco especulara sobre a dureza de seus primeiros 
dias num lugar to inspito. Certamente Joseph Jewel enfrentara situaes muito piores do que essa. O que ele teria feito? O que a aconselharia a fazer, se pudesse?
    De repente a resposta surgiu em sua mente, clara como se pudesse ouvir a voz do pai.
    Voc tem uma cabea privilegiada. O bom Deus desejo que usemos todos os dons que recebemos.
    No era completamente intil. Usaria sua mente para enfrentar Rollie Ingram.
    Em primeiro lugar, precisava guardar o caminho que estavam seguindo, de forma que, caso conseguisse escapar, pudesse guiar-se at algum local seguro.
    Prola comeou a notar o formata das rochas, pequenas piscinas naturais, vales distantes. Apesar de estar afastando-se da escola, ainda no haviam sado do territrio 
da fazenda da famlia. No estava sozinha. Em algum lugar prximo, um grupo de pees cuidava de parte do rebanho, e no permetro mais distante existiam os acampamentos 
de fronteira, com homens guardando toda a extenso de cercas para impedir a invaso de estranhos e aumentar o nmero de cabeas de gado atravs da marcao de animais 
sem dono.
    Pensar nisso confortou-a.
    Se pudesse fazer Rollie Ingram disparar um tiro antes de sarem da propriedade, algum ouviria e viria investigar. Mas como faz-lo atirar?
    Tinha de inflamar sua ira. E forar sua mo.
    Sentido o pnico crescer, Prola traou um plano de ao. Teria coragem de arriscar a prpria integridade fsica e saltar da carroa em movimento, s para faz-lo 
disparar? E se conseguisse, sobreviveria ao ferimento por uma arma de fogo? Ou ele a mataria ali mesmo e usaria seu corpo sem vida como isca para atrair Cal McCabe?
    Maldio! Por que tinha de possuir uma mente to precisa? Por que insistia sempre em analisar o problema por todos os ngulos? Pela primeira vez, faria simplesmente 
o que devia ser feito, sem pensar nas conseqncias.
    Unindo as mo com fora, fechou a boca e os olhos e pulou da carroa.
    O cho era duro, e ela o alcanou com impacto to grande que, por um momento, estrelas coloridas invadiram seu crebro. Prola rolou, at para no meio de alguns 
arbustos espinhentos. Gemendo, abriu os olhos e viu Rollie Ingram tentando deter o cavalo que at ento seguia numa cavalgada alucinada.
    Levantando-se apressada, ergueu a saia e comeou a correr, sempre esperando ouvir o disparo da pistola ecoando pelas montanhas. Que tipo de sensao provocaria 
um ferimento  bala? Preparando-se para a dor, manteve os olhos fixos no objetivo, uma ravina estreita alguns metros acima de onde estava. Se conseguisse chegar 
l, teria uma pequena chance de escapar.
    As botas delicadas no eram adequadas para a corrida em terreno to irregular. Em vrios momentos teve de lutar para no perder o equilbrio, mas continuou correndo,correndo...
 At um corpo cortar o espao e aterrissar sobre ela, imobilizando-a contra o cho.
    - Pensou que poderia escapar do velho Rollie?
    Ele a segurava sem menor delicadeza, usando uma das mos para manter seu rosto pressionado contra o cho. Prola respirava com dificuldade, mas teve a satisfao 
de ouvi-lo tossir e resfolegar enquanto amarrava suas mos s costas. Levantando-a, empurrou-a de volta  carroa.
    -Ainda no entendi se voc  completamente estpida, ou se pensa ser muito esperta. Seja qual for a resposta, acabou de selar seu destino.
    Ingram a jogou na parte traseira do vago e assustou-a ao levantar sua saia para amarrar os tornozelos. Quando terminou, examinou-a com luxria ultrajante.
    - Lamento, mas no temos muito tempo, professorinha. Adoraria descobrir o que mais est escondendo sob a saia.
    - Teria de me matar primeiro.
    - Isso  fcil.
    Rindo, Rollie acomodou-se novamente no banco do condutor e estalou as rdeas. O cavalo partiu num galope enlouquecido.
    No fundo da carroa, Prola deixava-se consumir por interminveis auto-recriminaes. Planejara uma ao para for-lo a atirar, certa de que o som atrairia 
a ateno dos empregados da fazenda, mas s conseguira tornar a situao ainda pior. Agora era impossvel prestar ateno ao caminho, porque tudo o que via era o 
cu. Desse momento em diante, s poderia rezar para que Cal no casse na armadilha de seu maior inimigo.
    
    Cokkie terminou de lavar as panelas e guardou-as na carroa. Pretendia seguir para o pasto no dia seguinte e preparar um jantar decente para os vaqueiros que 
cuidavam do rebanho por l. Embora gostasse de cozinhar para os pees do alojamento, seu maior prazer era preparar a comida no campo.
    Com uma carreta aborrecida, massageou a perna. Joelho enrijecido estava incomodando mais do que atrevia-se a admitir. A dor era sempre prenncio de alguma mudana 
no clima. Tina que esconder o desconforto das irms Jewel, ou elas comeariam a trat-lo como um invlido, e logo encontrariam algum para substitu-lo, de forma 
que ele pudesse comear a desfrutar do merecido descanso. Cookie mordeu o cabo do cachimbo. As mulheres no entendiam certas coisas. Essa era a nica vida que desejava. 
Pretendia morrer cozinhando para os caubis, de preferncia em campo aberto, sob as estrelas cintilantes. Sempre com as botas nos ps e o guisado fervendo sobre 
um fogo de cho.
    Escolhendo uma vareta em brasa no meio da fogueira aproximou-se do cachimbo e puxou o ar at que a fragrncia adocicada perfumasse o ar da noite.
    Havia acabado de jogar a vareta de volta a fogueira quando viu duas figuras desconhecidas emergindo da escurido. Munindo-se do rifle, apontou e gritou:
    - Quem est ai?
    As figuras pararam e a mais alta deu um passo  frente.
    - Meu nome  Gilbert Ingram!
    - Um dos filhos de Rollie Ingram?
    - Sim, senhor. E este  meu irmo, Daniel. - ele concluiu, passando um brao em torno dos ombros do caula.
    - Esto muito longe de casa. - Cookie mantinha o rifle pronto para ser usado. Ouvira muitas coisas sobre os Ingram, e os rumores afirmavam que nenhum deles podia 
ser considerado decente. Embora o pequeno parecesse assustado e inofensivo, o maior j era um palmo mais alto do que ele, e sua maneira de olhar no era exatamente 
pacfica.
    - O que vocs querem?
    - Estamos procurando pelo sr. McCabe - Gilbert perguntou.
    - Ele no est aqui.
    Os meninos pareceram aturdidos.
    - Onde ele est? - Gilbert perguntou, puxando o irmo para mais perto.
    - No pasto ao norte a
    - E quando voltar?
    Cokkie encolheu os ombros.
    - Ele no disse. S sei que McCabe vai passar algum tempo longe de casa. - Havia visto o brilho assassino nos olhos do capataz, e por isso no fizera perguntas. 
As roupas ensangentadas e o rosto coberto por hematomas revelaram o suficiente. Cal envolvera-se numa briga. E se ele havia sado da disputa em to lamentvel estado, 
preferia no ver como ficara o oponente. Cal McCabe era o melhor lutador que havia conhecido em todos os anos de sua longa vida. Poucos podiam venc-lo numa luta, 
fosse ela justa ou suja.
    - Precisamos encontr-lo.
    Cookie percebeu a nota de urgncia na voz do garoto.
    - Por que, filho?
    - ... muito importante.  uma questo de vida ou morte, e no se trata de fora de expresso.
    - Vida ou morte... de quem?
    - Da nossa professora, a srta. Jewel.
    Cookie quase engoliu o cachimbo. Deixando o rifle de lado, tirou-o da boca, esvaziou-o junto da fogueira e guardou-o no bolso da camisa. Depois de usar esses 
preciosos momentos para recompor-se, encarou os intrusos.
    - Muito bem, garoto,  melhor comearem pelo incio e no esconderem nada.
    Daneil e Gilbert trocaram um olhar confuso. Em seguida Gilbert respirou fundo e comeo a falar.
    Quando terminou, Cookie correu ao alojamento gritando ordens e pondo todos os pees em movimento. Em poucos minutos, uma dzia de caubis selava os cavalos mais 
velozes da fazenda.
    - Um de vocs deve ir ao pasto norte e alertar Cal sobre o ocorrido. Outro ir  cidade e encontrar o inspetor. O restante deve espalhar-se e procurar pela 
srta. Prola.
    - Gostaria de ir com os caubis - Gilbert pediu.
    Cookie fez um movimento negativo com a cabea.
    -No precisamos de crianas atrapalhando as buscas.  melhor irem para casa.
    - Mas eu conheo as montanhas, e sei como me pai costuma pensar.
    O cozinheiro considerou a oferta por um momento antes de balanar a cabea novamente.
    - Ningum conhece as montanhas melhor do que Cal McCabe. Alm do mais, no sei como Cal reagir  presena de um Ingram depois de saber sobre o que houve.
    Gilbert virou-se e, notando sua frustrao, Cookie pousou a mo sobre seu ombro.
    - Espero que entenda, filho. A srta. Prola  uma moa muito especial. - Principalmente para Cal McCabe. Apesar de no ter dito nada a ningum, Cookie suspeitava 
das estranhas oscilaes no humor do capataz nos ltimos dias. Podia apostar que Prola Jewel era o motivo dessas alteraes. Se suas suspeitas fossem corretas, 
a ltima pessoa que Cal ia querer ver era o filho do homem que acabara de raptar sua amada.
    Durante os minutos seguintes o curral foi invadido pelo som de vozes masculinas. Os rapazes praguejavam e gritavam ameaas furiosas enquanto montavam e partiam 
num trovejar de cascos.
    Quando a poeira baixou, Cookie comeou a mancar na direo da casa da fazenda, onde daria a terrvel notcia s jovens. Rubi e Jade ficariam devastadas. Mas 
pelo menos tinham uma  outra, enquanto Prola era forada a enfrentas o terror sozinha.
    Arrepiando-se com o vento frio da noite, Gilbert viu o velho afastar-se mancando e olhou para o irmo. Notando que seus olhos se fechavam, sugeriu que subisse 
em suas costas.
    - No vai conseguir me carregar at a nossa casa - Daniel protestou.
    -  a nica alternativa que temos nesse momento. Vamos, suba de uma vez.
    O pequeno obedeceu o comando do mais velho e passou os braos magros em torno do pescoo do irmo.
    Quando Gilbert passou pelo alojamento e olho atravs de uma janela, viu as fileiras de camas vazias e suspirou. O odor do guisado de Cookie e o calor da lamparina 
acessa criavam uma imagem de pura tentao.
    As o garoto comeou a caminhas decidido e, apagando a cena convidativa da memria, preparou-se para a longa caminhada at o casebre deserto. No completariam 
a jornada antes da meia noite. E apesar da nica refeio do dia ter sido o lanche que haviam dividido com a professora, estariam to exaustos que no poderiam fazer 
nada alm de deitarem nos cobertores sujos. Famintos e com frio. E completamente apavorados.
    
    
    Captulo 14
    
    A escurido sobre a terra, e a carroa seguia seu curso pelas montanhas. Prola h muito perdera o senso de direo quando Rollie Ingram tomara uma trilha sinuosa, 
s vezes percorrendo gargantas estreitas por entre desfiladeiros, s vezes atravessando cursos de gua rasa. Mas pelo menos sabia que subiam a encosta.
    Finalmente o veculo parou. Ouviu o som das botas de Ingram quando ele saltou e aproximou-se da parte traseira da carroa. Mas, em vez de ajud-la a descer, 
ele vasculhou a carga at encontrar uma lamparina.
    Riscando um fsforo, aproximou-o da mecha e afastou-se alguns passos. O som das botas sobre a relva tornou-se mais baixo, abafado, para ser ouvido novamente 
com perfeio quando ele retornou.
    Rollie retirou as provises do fundo da carroa, alguns cobertores sujos, um balde vazio, vrios sacos meio cheios, um verdadeiro carregamento de rifles.
    Mais uma vez ele desapareceu, depois voltou e cortou as cordas que atara em torno de seus tornozelos, obrigando-a a levantar-se.
    - Muito bem, professorinha, agora vamos ver o que acha de sua nova sala de aula. - Riu, empurrando-a para frente.
    Prola piscou ao deparar-se com a luz da lamparina. Estavam numa grande caverna, alta o bastante para que seres humanos e cavalos se mantivessem em p com algum 
conforto. Algumas rochas podiam ser vistas espalhadas pelo cho, e o som de criaturas noturnas cortava o ar frio.
    Com as mos amarradas, ela olhou em volta sem preocupar-se em esconder o nervosismo.
    Vendo o medo em seus olhos, Ingram provocou-a.
    - Uma ursa enorme mora no fundo da caverna. Mas se ficar quieta e boazinha, ela provavelmente a deix-la em paz. - Divertindo-se com a expresso apavorada, ele 
encolheu os ombros e sorriu. - E se ela decidir almo-la, o mundo no perder grande coisa. S preciso t-la comigo at atrair Cal McCabe para c. Depois disso, 
so ser til para mais nada. Assim que terminar com ele, voc morrer de qualquer maneira, e por isso no me importo com seu destino.
    Ele levantou a lanterna e jogou a cabea para trs, deixando escapar uma gargalhada assustadora. O rosto iluminado pelo feixe de luz era cruel, sdico, e os 
dentes amarelos brilhavam como as presas de um animal selvagem. Os olhos eram cintilantes como os do demnio.
    - Enganei voc, no , professorinha? Aposto que sentiu as pernas tremerem de medo da ursa. - Ele aproximou-se da entrada da caverna e, por um momento, Prola 
temeu que pretendesse abandon-la na escurido.
    Mas Ingram voltou em seguida puxando o cavalo e a carroa. Depois pendurou a lanterna numa rocha e usou o cobertor para cobrir a entrada da caverna, impedindo 
que a luz fosse vista do lado de fora.
    Feito isso, aproximou-se dela, estendeu um cobertor no cho e ordenou:
    - Sente-se.
    - Por qu?
    A postura ereta e o tom frio o irritaram.
    - Mulher estpida! Aqui, eu sou o professor e voc  a aluna. Eu dito as regras e voc as segue sem question-las. Agora sente-se.
    Prola obedeceu e foi forada a conter a raiva enquanto ele amarrava seus tornozelos. Quando certificou-se de t-la bem presa, Rollie enrolou-se em outro cobertor 
e deitou-se no cho. 
    - O que est fazendo?
    - Vou dormir, professora. E  melhor fazer o mesmo. Se meu plano der certo amanh ser um longo dia. E interessante, tambm.
    Minutos depois os roncos ecoavam pela caverna.
    Apesar do cansao, Prola manteve uma viglia atenta e silenciosa. Como poderia dormir, sabendo o que esse mostro pretendia fazer? Tinha que resistir  onda 
de desespero que ameaava domin-la. Era horrvel estar amarrada e indefesa como um bezerro  espera do ferro em brasa, mas ser arrastada para esse lugar ampliara 
todos os seus temores com relao do Texas, e agora temia perder a sanidade. Imaginava criaturas demonacas e animais ferozes, silenciosos esperando que ela se descuidasse.
    Oh, papai! Como poderei sobreviver? Preciso suportar, pelo menos para prevenir Cal contra o perigo que o aguarda aqui.
    Um sentimento de calma aplacou os temores que a perturbavam. Rollie Ingram no representava nenhuma ameaa, pelo menos por enquanto. Estava dormindo profundamente, 
como o urso que inventara em sua imaginao doentia. Ainda no havia sido ferida, e Cal McCabe no era tolo. Quando descobrisse o que Rollie fizera, viria salv-la 
no s munido de armas, mas acompanhado por um batalho de pees e metade da cidade.
    O raciocnio acalmou-a tanto, que seus olhos comearam a se fechar. Determinada a lutar contra o sono, ela manteve as plpebras abertas e rezou para que o combustvel 
da lamparina durasse at que o amanhecer trouxesse a luz.
    
    Cal parou o cavalo no alto da colina alm do pasto. Retirando um pacote de tabaco do bolso, enrolou um cigarro e o acendeu, enchendo os pulmes de fumaa e soltando-a 
numa nuvem azulada.
    Uma lua crescente e milhares de estrelas brilhavam no cu escuro. Essa era uma cena que sempre o acalmava, mas esta noite tinha de lutar contra uma estranha 
inquietao.
    Oferecera-se para vigiar o rebanho enquanto os outros dormiam, porque sentia necessidade de ocupar-se enquanto tentava dominar os pensamentos que ameaavam enlouquec-lo.
    E no era s a lembrana de Rollie Ingram que o perturbava desde aquela fatdica briga. Havia algo mais, Algo vago e indefinido que esquivava-se pelos recantos 
mais escuros de sua mente.
    Prola, Era sempre Prola que sobrepunha-se s outras idias. Desde o primeiro dia, sentia-se compelido a lutar contra a impossvel atrao. E agora estava comeando 
a sentir coisas que no tinha o direito de experimentar pela filha de Joseph Jewel. Joseph confiara a ele a administrao da fazenda e de tudo que estivesse dentro 
dela, o que certamente inclua Prola, sempre sbria e srie. Mas as coisas que sentia por ela estavam longe de serem sbrias ou srias.
    Sabia que um casamento estava fora de questo. No podia esperar que uma dama como ela passasse o resto da vida presa a um caubi grosseiro e rude num lugar 
selvagem. Era capaz de apostar que Prola no suportaria um ano no Texas. E quando se fartasse dessa vida, merecia estar livre para partir sem lamentaes ou arrependimentos.
    Mesmo assim, pensar nela era o bastante para deix-lo agitado como um garanho que sente o cheiro de uma gua no cio. Desejava-a como nunca quisera outra mulher, 
e esse desejo era o prprio inferno. Habituara-se a ter sempre tudo o que queria. Joseph o ensinara a ser assim. E agora descobria que perdera o corao para a nica 
coisa que jamais poderia ter.
    Resmungando meia dzia de improprios, Cal encheu os pulmes mais uma vez antes de jogar o que restara do cigarro.
    De repente o som de um cavalo aproximando-se a galope o fez erguer a cabea.
    Reconhecendo a silhueta de um de seus melhores pees, preparou-se para fazer um sermo sobre os perigos de exigir mais do que o animal podia oferecer, mas antes 
que pudesse pronunciar a primeira palavra, o empregado da fazenda gritou:
    - Problemas, Cal! Cookie me mandou vir procur-lo. Rollie Ingram armou uma cilada para vingar-se da surra que levou de voc.
    -  mesmo?
    Cal comeou a sorrir, mas o sorriso desapareceu de seus lbios quando o jovem concluiu:
    - Para ter certeza de que vai aceitar o desafio, ele raptou a srta. Prola.
    
    O inspetor Quent Regan saiu da enfermaria do dr. Prentice e dirigiu-se  cadeia local. Havia sido uma noite tranqila, j que poucos caubis estiveram na cidade. 
Apenas um disparo, e nem fora provocado por uma mulher ou um jogo se cartas, mas pelo impasse criado depois de uma corrida de cavalos. A bebida costumava exercer 
estranhas influncias sobre a mente de pessoas normalmente pacficas. O mdico removera a bala, e agora o paciente estava mais preocupado com o momento em que teria 
de explicar tudo  mulher do que com a dor que suportava.
    Quent estudou os edifcios escuros enquanto caminhava pela cidade silenciosa. Acostumara a trabalhar durante a noite e dormir quando a maioria dos homens comeavam 
a executar suas tarefas.
    O som de um galope chamou sua ateno. Um cavalo na rua  essa hora da noite, e apressado como vinha, s podia significar uma coisa: problemas.
    - Inspetor! - Cavalo e cavaleiro pararam bem perto dele, levantando uma nuvem de poeira. - Rollie Ingram ficou maluco e raptou a srta. Prola Jewel da escola.
    - Aquele maldito Ingram novamente! - Quent ficou vermelho. - Para onde ele a levou?
    - Para as montanhas, alm da Fazenda Jewel. Parece que ele quer forar Cal McCabe a enfrent-lo numa luta armada. Cookie mandou os pees procurarem por Cal e 
comearem uma busca.
    - Ento no vou precisar de uma patrulha. - Quent virou-se na direo do escritrio. - Vou buscar meu equipamento e virei encontr-lo assim que acordar meu assistente.
    E antes do amanhecer, a esposa de Charles Spitz teria espalhado a notcia por toda a cidade. S esperava que Cal conseguisse pr as mos no sujeito antes que 
ele matasse a encantadora professora.
    
    Cal ajoelhou-se sobre as rochas e aproveitou a luz do amanhecer para procurar as marcas deixadas pela carroa. Perdera muito tempo com o curso de ao escolhido, 
mas decidira voltar  escola para seguir o rastro de Ingram.
    Agora, com a ajuda da luz do dia, podia comear a busca. McCabe montou e manteve os olhos fixos no cho, mas as marcas tornaram-se confusas no incio da subida 
da montanha. A carroa e o cavalo haviam parado repentinamente. O lugar estava cheio de pegadas, algumas pequenas e femininas. Prola teria escapado? Melhor descer 
do cavalo e seguir andando. Algumas pegadas eram maiores, masculinas. Correndo. E aqui... Cal ajoelhou-se. Algum havia sido arrastado. Deus! Uma dama como Prola 
lutara contra aquele animal! A fria ameaava sufoc-lo. Quando pusesse as mos em Rollie Ingram, ele arrependeria-se do que estava fazendo. E se ferisse Prola 
de alguma maneira, o preo por seu ato seria a prpria vida.
    Apressado, montou e continuou seguindo o rastro de Ingram, os pensamentos voltados para Prola. As palavras de uma orao que aprendera na infncia e julgara 
ter esquecido comearam a brotar de seus lbios
    
    A cabea de Prola pendeu para frente e ela acordou de um cochilo rpido. Por um momento sentiu-se desorientada, mas em seguida lembrou-se de onde estava. O 
medo congelou o sangue em suas veias. Como pudera dormir? Passara a noite forando as cordas, at os pulsos e os tornozelos feridos comearem a sangrar, mas o esforo 
fora em vo. Ainda estava amarrada e indefesa.
    Depois de certificar-se que Ingram ainda dormia, olhou para entrada da caverna. Uma estreita faixa de luz penetrava pelo cobertor sujo e muito fino. A noite 
passar depressa. 
    Rollie bocejou, espreguiou-se e sentou-se.
    - Ora, ora, se no  aconchegante! - disse. - S ns dois, professora. - Ajoelhou-se na frente dela. - Ainda sente-se melhor que o restante da humanidade? Aposto 
que no. Se pudesse ver-se... Seu vestido encantador est rasgado e manchado, e o rosto est to sujo quanto os dos vaqueiros depois de uma longa viagem. E acho 
que h um pouco de sangue em seus pulsos. - Rude, segurou o brao delicado e torceu-o com violncia. - Vejo que andou forando as cordas. Azar seu, professorinha. 
S conseguiu machucar-se, e continua presa. E vai continuar exatamente onde est, at eu conseguir o que quero. Primeiro atirarei em Cal McCabe. Espero que ele sobreviva 
ao primeiro tiro, por que no o quero morto to depressa.
    - O que... quer dizer?
    - Eu j no disse? - Ele riu. - Quero matar McCabe, mas antes quero v-lo sofrer. - Agarrando-a pelos cabelos, puxou sua cabea com tanta fora que lgrimas 
brotaram de seus olhos. A expresso de dor o fez rir ainda mais. - A melhor maneira de tortur-lo  obrig-lo a apreciar a cena enquanto me divirto um pouco com 
sua querida professorinha. E depois, quando eu terminar, McCabe ter uma morte lenta. Uma bala de cada vez. E mais tarde, quando me cansar de voc, seu destino ser 
o mesmo. Se for boazinha, prometo liquid-la sem muito sofrimento. - Ingram deslizou o dedo sobre o corao dela, divertindo-se com a repulsa estampada em seus olhos. 
- Com uma bala, bem aqui.
    - Por favor...
    Rollie adorava v-la encolher-se cada vez que a tocava.
    -  uma dessas mulheres inocentes e intocadas? Melhor ainda!
    Ento ele levantou-se e retirou alimentos e um cantil de um dos sacos espalhados pelos cho da caverna. Depois de comer depressa, bebeu vrios goles de usque.
    - Adoraria convid-la a comer, mas seria tolice desperdiar alimentos to caros com algum que no viver por muito mais tempo. Alm do mais, o trabalho me espera. 
Quando McCabe chegar, terei um armamento digno de um exrcito esperando por ele.
    Prola ouviu o som dos passos do lado de fora e esperou. O som tornou-se mais alto, como se ele caminhasse sobre a rocha que formava a caverna. Levantando a 
cabea, viu uma corda sendo passada por um buraco aberto no teto. Alguns minutos mais tarde, Rollie desceu pela corda.
    - Planejei uma pequena surpresa para o seu heri - ele contou rindo.
    Levando vrios rifles, apagou a lamparina e saiu.
    Por um momento Prola viu o sol brilhando do lado de fora, mas em seguida o cobertor voltou a tampar a entrada e ela foi cercada pela escurido, amenizada pela 
claridade que penetrava atravs de um buraco no teto.
    
    Cal incentivou o cavalo a atravessar as guas rasas do riacho do Veneno. Na margem oposta, ajoelhou-se e estudou as marcas da carroa antes de montar novamente.
    O sol da manh havia desaparecido atrs das nuvens escuras e pesadas. O ar trazia o cheiro da chuva. Cal experimentou um estranho tremor e pensou em Prola. 
Como ela estaria enfrentando o frio da montanha? E o medo? Pensar nela  merc de Rollie Ingram provocou um desespero insuportvel, e de repente ele descobriu-se 
enterrando as esporas no cavalo para faz-lo galopar no limite de suas foras.
    Tinha de admitir que Ingram era esperto, pensou, conduzindo o animal pela encosta rochosa e escorregadia da montanha. Cobrira to bem seu rastro, que poucos 
pees seriam capazes de segui-lo. Mas deixara sinais suficientes para algum com a experincia de McCabe o encontrasse, mesmo que fosse no inferno. Melhor assim. 
Quando o localizasse, teria o miservel s para si, sem ter de dividi-lo com os caubis que espalhavam-se em todas as direes numa busca frentica.
    Ele e Rollie conheciam bem essa terra perdida no nada, e tambm sabiam muito sobre lutar e sobreviver.Mas ele possua algo que Rollie no tinha. A determinao 
de salvar a mulher amada.
    Amor. A palavra o atingiu com a fora de um soco. Amava Prola mais que a prpria vida. Se chegasse tarde demais, se a encontrasse morta, no valeria mais a 
pena viver.
    Por que precisara da ajuda de um louco para compreender a verdade?
    E se a houvesse enxergado tarde demais?
    Cal praguejou em voz alta, com selvageria, at livrar-se do desespero que ameaava domin-lo. E durante todo o tempo, continuou cravando as esporas nos flancos 
do animal que subia a montanha deserta e cheia de perigos.
    
    
    Captulo 15
    
    Cal agradeceu a sorte pelos troves distantes que mascaravam o som do galope de seu cavalo.
    O caminho que seguia era ascendente e estvel h algum tempo e, apesar de estreito, comportava um cavalo e uma carroa. No podia mais ver as pistas, mas estava 
certo de que Rollie seguira por ali.
    De repente ele parou a montaria e ouviu. Um grito? Ou seria apenas os som do vento? A tempestade aproximava-se depressa, confundindo os barulhos e aromas. Mas 
era um homem que sempre havia confiado nos prprios instintos, e nesse momento experimentava um estranho arrepio na nuca. Apesar do vento e dos troves, ouvira a 
voz de Prola interrompida no meio de um grito. Tinha certeza disso.
    Pensar nas mos imundas de Rollie Ingram tocando-a, ferindo-a, foi o bastante para fazer seu corao sangrar. Sem pensar na prpria segurana, Cal desmontou 
e, empunhando o rifle, seguiu em frente cortando a escurido. Sabia que Rollie armara uma cilada e por isso olhava para os lados em busca de algum sinal suspeito. 
Mas tudo o que via eram paredes de rochas nas laterais da trilha, interrompidas em intervalos irregulares por fendas a partir das quais abriam-se abismos infinitos. 
Era como se no houvesse um nico lugar onde um homem pudesse esconder-se. Muito menos um homem levando uma mulher, um cavalo e uma carroa. A menos que...
    Sim,  claro! As montanhas abrigavam dezenas de cavernas. Cal observou com mais ateno em busca de abertura nas pedras, mas via apenas sombras indefinveis 
na escurido crescente.
    O primeiro tiro partiu da esquerda, e no o acertou por milmetros. Ele virou-se e disparou numa resposta instintiva, mas um segundo tiro da direo oposta, 
obrigou-o a atirar-se no cho.
    A gargalhada ecoou na ambiente deserto e assustador s podia ser de Rollie Ingram.
    - Tenho armas dignas de um exrcito, McCabe. Acha que pode lutar contra um batalho?
    Em vez de responder, Cal atirou na direo da voz.
    -Esse passou perto. Mas no pode brigar contra todos ns, McCabe. - Um segundo mais tarde, um terceiro disparo partiu de outro ponto e encontrou o cho bem perto 
de Cal, espalhando poeira e fragmentos de rocha por todos os lados.
    - Largue a arma, McCabe. - A voz de Ingram ecoou por entre as montanhas. - Ou meu exrcito o far em pedaos.
    Cal percebeu que, como as balas, a voz do bandido tambm vinha de diferentes direes, o que o levou a uma concluso repentina. O nico exrcito com que Rollie 
contava era ele mesmo. E um inteligente arranjo de rifles.
    Apesar do perigo, McCabe levantou-se.
    - V para o inferno, Ingram! - Gritou, atirando enquanto girava sobre si mesmo, mandando balas em todas as direes.
    Ouviu os gritos furiosos de Rollie que, pego de surpresa, foi obrigado a de desviar dos projteis.
    Depois de alguns instantes de silncio inesperado, algo moveu-se e revelou a entrada da caverna.
    - Procurando por ns?
    Cal virou-se. No interior da caverna,  luz de uma lamparina, podia vislumbrar a silhueta de Prola, amarrada e dominada. Ao lado dela estava Rollie, segurando 
uma pistola apontada para a cabea da refm. Atrs dele, uma corda girava no ar. Ento havia sido assim que ele conseguira escapar dos tiros. 
    - Solte o rifle - Rollie comandou. - Se quiser ver essa mulher viva.
    Cal obedeceu.
    - No precisa feri-la, Ingram. Essa luta  entre nos dois.
    - Tem razo. Mas no  uma luta. J nos enfrentamos, e voc venceu. Agora trata-se de um jogo. Um jogo que envolve riscos e sorte, McCabe. E dessa vez, eu pretendo 
vencer. Aprendi a jamais jogar, a menos que possa manejar as cartas a meu favor. Sendo assim... - ele fez um movimento com a arma. - Seja bem-vindo ao meu saloon. 
Entre vamos nos divertir.
    Cal deu vrios passos  frente, sem nunca tirar os olhos de Prola. O que via provocava uma dor to intensa, que temia enlouquecer.
    Os cabelos estavam soltos, pois o coque usual havia sido desfeito. O vestido estava sujo e cheio de manchas de sangue, e a viso encheu de um dio poderoso e 
incontrolvel. Se Rollie machucasse...
    - J se aproximou o suficiente! - o bandido gritou. - Agora levante as mos.
    Quando Cal obedeceu, um disparo o pegou de surpresa. A dor misturou-se ao espanto e seu brao direito caiu ao lado do corpo. O sangue jorrava de um ferimento 
na altura do ombro. O impacto o derrubou de joelhos e, gemendo, ele segurou a regio atingida numa tentativa intil de conter o sangramento.
    - Minha primeira cartada. - Ingram anunciou satisfeito. - Isso o impedir de sacar a pistola ou uma faca escondida e atacar-me. Est vendo? Sei com que mo costuma 
atira?
    Prola estava amordaada, e por isso chorava em silncio. Mas a viso do caubi encolhido, dominado pela dor, partiu seu corao e a fez mover-se, apoiando o 
corpo sobre os joelhos.
    Rollie segurou-a pelo brao e obrigou-a a levantar-se.
    - No, no mocinha. No vai desmaiar agora. Vai permanecer ereta e reta, de forma que seu heri possa v-la nitidamente. E se insistir em cair, terei de atirar 
nele outra vez. Entendeu?
    Ela piscou para conter as lgrimas e fez um movimento afirmativo com a cabea, forando as pernas a sustentarem o peso do corpo.
    - Isso mesmo. - Ingram olhou para Cal com um sorriso sdico nos lbios. - Viu como sua professorinha aprende depressa? E isso  s o comeo. Comigo ela aprender 
coisas que jamais imaginou conhecer. E sabe qual  a melhor parte? - Ele deu alguns passos at colocar-se na frente de McCabe, inclinando-se sobre ele como uma sombra 
ameaadora. - O melhor  saber que voc estar vendo tudo. E no poder fazer nada para impedir.
    Ingram levantou a pistola e apontou-a para perna do capataz da Fazenda Jewel.
    - S para que no pense em fugir.
    O disparo  queima-roupa atingiu-o com to grande impacto, que Cal foi jogado para trs e ficou cado de costas, cercado por uma poa de sangue.
    Rollie aproximou-se e segurou-o pelos cabelos, obrigando-o a levantar a cabea.
    - No vai desmaiar agora, heri. Trate de ficar acordado para assistir ao espetculo que planejei.
    Os olhos do caubi cravaram-se no homem que inclinava-se sobre seu rosto e ele conseguiu resmungar:
    - Eu vou ficar... acordado. E  melhor que faa... o mesmo, por que... vou acabar com voc... Ingram.
    - Tem certeza? Pois at agora eu sou o nico com todas as possibilidades de acabar com algum por aqui. - Inebriado com o sucesso, ele atravessou a caverna com 
passos cadenciados enquanto dizia: - Agora vamos  melhor parte. A professorinha vai divertir-se um pouco comigo. E ela sabe que, se tentar resistir, mesmo que seja 
s um pouquinho, terei de atirar em voc novamente. No  verdade, srta. Sabe-Tudo?
    Prola fez um ligeiro movimento afirmativo com a cabea.
    Rollie usou a faca para cortar a tira de pano com que a amordaava.
    - Eu disse, no  verdade srta. Sabe-Tudo?
    - Sim. - Apesar dos lbios tremerem e da garganta estar seca e contrada, ainda conseguia falar.
    - Acho que prefiro que diga sim, senhor. - Cutucou-a com o cano do revlver.
    - Sim, senhor. - Prola obrigou-se a repetir.
    - timo. Est se comportando muito bem, professora. - Ele cortou as cordas que atavam seus punhos e tornozelos e, sorrindo, levantou sua saia at a altura dos 
joelhos. - Olhe para isso, McCabe. D uma boa olhada. Vou deixar que aprecie o espetculo.
    Ingram levou os dedos  gola discreta do vestido e acompanhou o desenho com um movimento lento.
    - Sempre imaginei como seria essa pele plida e macia. Voc se esconde tanto, que acaba despertando a curiosidade dos homems.
    Viu a expresso de repulsa no rosto dela e riu. Sem dizer nada, segurou partes do vestido e rasgou-o at a cintura, revelando uma elegante combinao de tecido 
muito fino e bordado.
    - Agora estou bem perto de descobrir todos os segredos que faz questo de esconder, professorinha.
    Com o vestido rasgado, preso apenas pela costura em torna da cintura, Prola abaixou a cabea e usou as mos para cobrir os seios.
    Do outro lado da caverna, Cal lutava contra a dor e a fraqueza provocada pelo sangramento, tentando sentar-se. Tinha de chegar at ela e salv-la desse bruto. 
Pensar no sofrimento e na humilhao q que seria submetida era pior que um ferimento  bala. Ao apoiar as costas na parede da caverna e erguer o corpo, McCabe foi 
dominado por uma forte tontura e teve que fechar os olhos por alguns instantes, lutando para no perder a conscincia.
    - Desamarre essas fitas! - Rollie gritou.
    Quando Prola hesitou, ele virou-se e apontou a pistola para Cal.
    - Vou contar at trs, professora. Se no obedecer, atirarei no seu heri novamente.
    - No faa isso. Farei tudo que quiser. - As lgrimas corriam pelo rosto de Prola e as mos tremiam sobre os laos da combinao.
    - Assim  melhor. - Rindo, Rollie virou-se para apreciar a cena.
    Assim que ele ficou de costas para Cal, um disparo ecoou pela caverna e o sorriso desapareceu de seus lbios. Um ardor intenso e quente espalhava-se do centro 
de suas costas por todo o corpo. Por um momento pareceu apenas chocado. Depois, quando a dor o levou a compreender que havia sido baleado, o rosto contorceu-se numa 
mscara de raiva.
    Rollie virou-se e viu a arma na mo de McCabe.
    - Um bom pistoleiro sempre carrega um revlver extra na bota - Cal conseguiu dizer por entre os dentes cerrados. - E enganou-se quanto  mo que uso para atirar. 
Aprendi a disparar com as duas desde que era um garoto, e tive um excelente professor. Ele era um mostro, Ingram. Como voc.
    - Agora voc me irritou, McCabe. Vou ter de mat-lo. - Tomado por uma nusea intensa, Ingram fechou os olhos por um momento para suportar a dor e apoiou-se numa 
rocha. Quando voltou a abri-los e levantou a arma para disparar, descobriu que o canto da caverna onde Cal estivera at pouco antes agora estava vazio.
    Em pnico, Rollie cambaleou at a entrada da caverna.
    Os troves estalavam em cima de sua cabea, anunciando a chegada de uma furiosa tempestade. a chuva comeava a cair sobre as montanhas, tornando as rochas escorregadias.
    Vendo o rastro de sangue, Rollie arrastou-se como pde pela noite escura e molhada, disposto a no deixar escapar a chance de vingana.
    - V em frente! - gritou para a chuva e o vento. - Fuja como um covarde, mas saiba que o encontrarei, McCabe. E quando puser as mos em voc, juro que o matarei!
    Um relmpago cortou o cu quando Prola correu, chorando, at a entrada da caverna. Na mo ela carregava o rifle que Cal fora obrigado a soltar quando Ingram 
o surpreendera. Apesar de no saber manej-lo, agarrava-se a ele como se ali residisse sua nica possibilidade de salvao.
    Nesse instante, Rollie viu McCabe apoiado numa rocha, tentando manter-se em p. Um sorriso demonaco distendeu seus lbios e ele levantou a pistola, tomando 
muito cuidado ao apont-la.
    - No! No! - Desesperada, Prola correu na direo do bandido, usando o rifle como um basto.
    Rollie atirou, mas a bala se perdeu e ele teve de levantar as mos para defender-se contra o ataque. Foi ento que um segundo tiro ecoou por entre os desfiladeiros 
imitando o som dos troves.
    Prola ficou paralisada. Rollie arregalou os olhos, as mos buscando o vestido rasgado como se quisesse agarrar a vida. Devagar, os dedos crispados se abriram 
e ele caiu para trs, desaparecendo na fenda aberta entre a vegetao. Sem sequer esperar para saber o que acontecera ao bandido, Prola correu para perto de Cal. 
Queria ajud-lo, mas ele acabara de cair em meio a uma poa de sangue, levando a mo a uma nova ferida no peito.
    Um soluo escapou de seus lbios e ela caiu de joelhos ao lado dele.
    - Cal! Oh, meu Deus, Cal! Por favor, no morra. Por favor, fique comigo! Eu amo voc! Eu...
    Ele no respondeu. A tempestade castigava a terra com a fria de uma entidade vingadora, enchendo a noite com seus estrondos assustadores. Sem perceber a chuva 
caa sobre seu rosto, Cal mantinha-se num sono que lembrava o da morte.
    
    As lgrimas de Prola misturavam-se  chuva enquanto ela lutava para conseguir o que parecia impossvel. Levar o corpo inerte de Cal para a proteo oferecida 
pela caverna.
    Pelo menos conseguira remover o cobertor que cobria a entrada. Usando as cordas com que Ingram a amarrara para prend-lo  sela do cavalo. Murmurando palavras 
doces e animadoras, comeou a puxar o cavalo obrigando-o a seguir num trote lento, temendo intensificar as dores que atormentavam McCabe. Uma vez dentro da caverna, 
soltou-o e acomodou-o sobre uma pilha de cobertores secos.
    Apesar dos cobertores, os ferimentos provocavam tremores to intensos que o sacudiam.
    Reunindo toda a madeira e palha que pde encontrar no interior da caverna, usou a chama da lamparina para acender um fogo. Depois ajoelhou-se ao lado de Cal 
para examinar as feridas.
    Usando a faca de Rollie, cortou as roupas ensopadas de sangue. A bala que atingira sua perna, disparada  queima-roupa, enterrara-se na carne rgida, abrindo 
um buraco de onde o sangue jorrava abundante. Prola rasgou parte das prprias roupas para criar um torniquete e estancar a hemorragia. Agradecendo aos cus pelo 
grande suprimento de usque que Rollie levara  caverna, lavou a ferida com a bebida e cobriu-a com o pano, amarrando-a com toda a fora que tinha.
    Em seguida foi a vez dos ferimentos no peito e no ombro. As duas balas estavam alojadas em algum ponto profundo, entre msculos e nervos, e pensar em remov-las 
foi suficiente para quase lev-la ao desmaio.
    - Agora no - ela censurou-se com firmeza. Se algum dia precisara de coragem, esse dia era hoje. Desesperava-se ao imaginar a dor que seria obrigada a infligir, 
mas devia lembrar-se de que o sofrimento era o primeiro passo para o processo de cura. Cal arriscara a prpria vida por ela. O mnimo que podia fazer era engolir 
o medo e fazer o que fosse necessrio pra ajud-lo a superar esse perodo terrvel. Se no o socorresse imediatamente, ele morreria em conseqncia da perda de sangue.
    Prola segurou a faca de Rollie Ingram e manteve a lmina sobre o fogo at o metal ficar vermelho. Ento aproximou-se da pele de Cal e comeou a trabalhar.
    Ele gemeu, um som horrvel que quase a fez parar. Mas, engoliu o medo, a professora prosseguiu na difcil tarefa e empurrou a faca com mais fora, at sentir 
o contato de metal com metal. Com movimentos rpidos e nervosos, apoiou a ponta da faca sob o projtil e usou-a como uma alavanca. Assim que conseguiu remov-la, 
lavou o ferimento sangrento com muito usque.
    Cal contorcia-se de dor, movendo a brao esquerdo se forma convulsiva. Um dos movimentos encontrou o corpo debilitado de Prola, ferindo-a. Deixando escapar 
um grito assustado, ela segurou o brao musculoso antes que pudesse atingi-la novamente, mantendo-o preso ao lado do corpo de Cal. Apesar da profundidade das feridas 
por onde escapava a seiva que o nutria, McCabe ainda exibia uma fora descomunal, e ela foi forada a usar de toda a energia para cont-lo. Alguns momentos depois 
o brao ficou imvel, sinal de que ele perdera a conscincia mais uma vez. Trabalhando com rapidez e determinao. Prola repetiu o procedimento com a ferida do 
ombro e depois envolveu o corpo do caubi em cobertores.
    Apesar da exausto causada pelo esforo, ainda encontrou foras para sair da caverna. Apoiada numa rocha, chorou at livrar-se da tenso, do medo e da nusea, 
e ento ergueu o rosto para que a chuva lavasse os ltimos resqucios de pavor que ainda a atormentavam.
    Covarde! Durante toda vida havia sido essa mesma pessoa, covarde, intil e sem fibra.
    Levantando-se, inclinou a cabea para proteger-se contra a violncia da tempestade e comeou a recolher toda a madeira que encontrou. Seria necessrio manter 
o fogo aceso durante toda a noite. Sentira as mos de Cal, e elas estavam frias como o gelo.
    Enquanto trabalhava, um nico pensamento ocupava sua mente. Em algum lugar nessa noite fria e chuvosa podia estar um homem enlouquecido, determinado a liquid-los. 
Sim havia visto Rollie Ingram cair, mas no o vira morrer. E enquanto no pudesse ver seu corpo sem vida, no descuidaria da segurana nem por um segundo.
    Esse era mais um medo que teria de enfrentar.
    
    
    Captulo 16
    
    O vento batia no alto da montanha e penetrava pela entrada da caverna, espalhando brasas da fogueira em todas as direes.
    Prola levantou a cabea de repente. Passara tanto tempo ajoelhada ao lado de Cal, que havia cochilado.
    O simples fato dele estar ali proporcionava conforto. Embora temesse pela segurana dos dois, sentia-se mais forte sabendo que Cal, que havia cochilado.
    Arrepiando-se nas roupas rasgadas, correu at a entrada da caverna para fechar a abertura com o cobertor. Relutara em esconder a luz do fogo, esperando que algum 
fosse procur-los, mas o vento frio no deixava escolha. Alm do mais, a tempestade provavelmente forara qualquer pessoa que estivesse nas montanhas a buscar abrigo. 
Se o inspetor e os pees estivessem por perto, no poderiam ver nada atravs da cortina de chuva. Teriam de esperar at que o temporal passasse.
    Prola ps mais madeira no fogo e comeou a examinar o interior dos alforjes que Cal trouxera na sela. Um caubi costumava carregar tudo que podia se necessrio 
para sua sobrevivncia em capo aberto, e McCabe no era diferente dos outros. Havia um pacote de carne-de-sol, fsforos e mechas embebidas em combustvel, e uma 
faca de caa. No saco de dormir ele guardara algumas peas de roupa, uma frigideira, um bule e pequenos pacotes contendo tabaco, balas e caf.
    Em seguida foi a vez de examinar os suprimentos trazidos por Rollie Ingram. Era evidente que ele planejara uma longa estadia. Havia sacos quase cheios de farinha 
e acar, bem como generosos estoques de usque, fsforos e tabaco.
    Rapidamente, vestiu a cala e camisa extra de Cal, livrando-se do vestido sujo, molhado e rasgado. Sentada de pernas cruzadas ao lado do fogo, prendeu o cabelo 
e mordiscou um pedao de po duro, sua primeira refeio desde que fora raptada.
    Cal gemeu e ela ajoelhou-se ao lado dele, tocando sua testa e experimentando uma onda de alarme. Estava gelado! Comeo a massagear suas mos, braos e os ombros, 
O ato de toc-lo e suprir parte de suas necessidades proporcionou algum conforto, mas, apesar de friccionar a pele at sentir-se exausta, Cal continuava gelado.
    Apertando os cobertores em torno de seu corpo, acompanhou os movimentos lentos do peito enquanto ouvia a respirao irregular.
    Lgrimas brotaram em seus olhos quando ela pensou na dor que Cal estava sofrendo. Como um ser humano podia infligir tamanho sofrimento a outro? Qual era a medida 
de coragem necessria para suportar to grande tortura? E tudo por ela. Saber que havia sido o motivo do sofrimento do homem que amava a enchia de culpa.
    Um tremor o sacudiu. E outro. Choque. Prola experimentou uma onda de pnico, mas controlou as prprias emoes rapidamente. Esse no era o momento de sentir 
medo. Corajoso, Cal arriscara a prpria vida para salv-la, e tinha o dever o moral de fazer o mesmo por ele.
    Prola levantou os cobertores e deitou-se ao lado dele, determinada a aquec-lo com o prprio corpo. Abraando-o, segurou a cabea contra o peito e murmurou 
palavras doces com as quais pretendia acalm-lo e aplacar os prprios temores.
    - Agente firme, Cal. No me deixe agora. Viemos juntos at aqui. Suporte um pouco mais, por favor. Quando amanhecer e a tempestade passar, os pees nos encontraro 
e voltaremos para casa. Pense nisso, Cal, e seja forte. Por favor, seja forte.
    As palavras eram como um mantra enquanto a tempestade lavava a terra com violncia selvagem. Prola mantinha-se abraada ao corpo inerte de McCabe, rezando para 
que conseguissem superar a noite de dificuldades e encontrar a luz do novo dia.
    Prola acordou cercada por um silncio estranho. O vento ainda soprava ocasionalmente, mas os troves haviam cessado e a chuva deixara de cair. Mas no ouvia 
os sons do amanhecer. Os pssaros no cantavam, os veados no trotavam em busca de comida e os cavalos no galopavam pelos campos abertos.
    Apesar do fogo ainda arder fraco, a temperatura no interior da caverna cara consideravelmente. Sentada, afastou os cabelos dos olhos e notou que a prpria respirava 
transformava-se numa nuvem branca em contato com o ar frio.
    Esgueirando-se para fora do cobertor, alimentou o fogo com mais madeira e foi at a entrada da caverna. Ao levantar o cobertor que a protegia, piscou vrias 
vezes com ar espantado. A neve caa to intensa que era impossvel enxergar alm de alguns poucos centmetros  frente do nariz. O cho j estava coberto de flocos 
frescos e espessos, e em alguns lugares os montes alcanavam a altura de um arbusto de mdio porte.
    Neve? Em abril?
    Lavando a mo  boca, abafou uma exclamao alarmada. Carmelita a prevenira sobre as intempries que marcavam a primavera no Texas, mas no esperava nada to 
drstico. Em outras circunstncias, a viso da montanha coberta pelo manto branco tiraria seu flego, mas agora s conseguia pensar em Cal. Como poderia tir-lo 
dali em segurana? Pior, como os pees conseguiriam prosseguir na busca?
    Presos.
    A neve soterrava a paisagem, com ela, a esperana que acalentara durante toda a noite. No haveria resgate, pelo menos enquanto o tempo no melhorasse. A sobrevivncia 
dos dias dependia dela.
    Prola engoliu o medo. Dessa vez s podia contar com ele mesma, e estava disposta a agir com coragem. Cal j havia dado demais, e no o deixaria abrir mo da 
prpria vida, alm de todo o resto.
    Durante o dia, a temperatura continuou caindo. O vento soprava forte, enviando rajadas de neve contra as paredes externas da caverna. Prola pressionava um pano 
molhado contra os lbios de Cal e implorava para que ele bebesse, mas no obtinha resposta. Ele permanecia inconsciente. E os tremores que o sacudiam desde a madrugada 
pareciam mais intensos.
    Usando as botas do caubi, ela saiu caminhando pela neve em busca de madeira para o fogo. Era imperativo que mantivesse o ambiente aquecido durante todo o tempo.
    Assim que sentiu a caverna quente e providenciou um estoque de gravetos e toras, Prola acrescentou o casaco de Cal  pilha de cobertores que o envolvia. Depois, 
desesperada para aquec-lo, deitou-se a seu lado e tomou-o nos braos mais uma vez.
    Dia e noite misturava-se numa seqncia alucinante enquanto ela o segurava e lutava contra o pavor que ameaava domin-la
    
    Prola moveu-se. Estivera sonhando com um incndio que queimava a floresta e devorava tudo que encontrava no caminho. Podia sentir o calor do fogo. Assustada, 
abriu os olhos e tocou a testa de Cal. Ele estava queimando em febre!
    Apressada, levantou-se e rasgou uma tira de tecido da pea ntima que havia despido anteriormente. Depois de ensop-la na neve, comeou a banhar a pele ardente.
    Enquanto trabalhava, os lbios moviam-se numa prece silenciosa.
    - Por favor, Cal. Voc tem sido to forte. No desista agora. Lute! Viva, Cal! Por favor, lute para sobreviver.
    Enquanto banhava com o pano gelado, examinava as feridas, trocava curativos e as lavava com usque para afastar o risco de infeco.
    Feito isso, deitou-se ao lado dele mais uma vez o abraou-o, rezando para v-lo novamente em p.
    Quando Prola acordou novamente, a tarde j chegava ao fim. A neve continuava caindo, e em alguns lugares as camadas brancas alcanavam a altura de um cavalo.
    Quanto tempo poderiam sobreviver? Se Cal estivesse bem, no teria de preocupar-se. Mas a sobrevivncia de ambos dependia somente dela, e sentia-se fraca a cada 
nova surpresa.
    Depois de jogar mais uma tora no fogo, ajoelhou-se ao lado do enfermo e comeou a lavar seu corpo febril. Mas quando tentou remover o curativo que cobria os 
ferimentos em seu peito, dedos fortes agarraram seus pulsos. Os olhos ainda estavam fechados, mas um gemido fraco brotava dos lbios ressequidos. De repente ele 
a puxou conta o peito.
    - Cal! - Prola protestou assustada. - Est me machucando!
    Ao ouvir o som de sua voz ele a soltou, Rpida, Prola levantou-se e respirou fundo, apavorada com a terrvel experincia que acabara de viver. Mesmo inconsciente, 
ele ainda era forte o bastante para fraturar os ossos de seu corpo com um simples abrao. Mas a ouvira. Apesar de permanecer trancado dentro de si mesmo, reagira 
ao escutar sua voz.
    Recuperada, voltou a cuidar das feridas e tratou de manter-se alerta, pronta para lutar, se fosse necessrio.
    Enquanto trabalhava, acalmava-o com palavras doces, esperando poder acord-lo do sono profundo que o mantinha cativo. Mas Cal mantinha-se nesse outro mundo, 
enfrentando demnios que s ele podia ver.
    
    Quieto, Cal tentava organizar os pensamentos confusos. Podia ouvir o grito de Rollie Ingram na noite chuvosa, e ainda via o brilho da pistola na mo do inimigo.
    Em seguida outra imagem sobreps-se. Prola atacando Rollie com um rifle sem munio. A tola! Ento no sabia que Ingram jamais erraria um alvo to prximo? 
Suando, lembrou que havia atirado num momento de desespero e ouviu o eco do disparo entre as montanhas. Teria agido a tempo? Ou Rollie havia conseguido mat-la?
    No poderia viver sem ela. Se j suportava uma vida sem sentido antes, agora nada teria importncia. Mas tinha de manter a esperana.  certa altura tivera a 
impresso de ouvir sua voz doce, acalmando-o de algum ponto distante.
    Tentou mover-se e sentiu um peso enorme no peito. Imediatamente os olhos abriram-se e l deparou-se com a mais bela imagem que j tivera.
    Prola estava encolhida a seu lado, um brao sobre seu peito.Os cabelos dourados estavam soltos, caindo sobre um olho e espalhando-se sobre seu peito nu. O vestido 
rasgado e sujo desaparecera, substitudo por uma camisa e uma cala masculina. Botas enormes protegiam seus ps delicados.
    Vendo os movimentos lentos e ritmados de seu peito, experimentou uma profunda sensao de paz. Estava viva. E no parecia ter sido ferida. Tentou tocar o rosto 
delicado e foi surpreendido por uma dor intensa e dominou todo o brao e ombro.
    Aturdido, olhou para os curativos e ento comeou a recordar. Mas, embora pudesse lembrar os momentos em que fora ferido no peito e na perna, no conseguia determinar 
quando havia sido feito o ferimento no peito.
    Olhou em volta da caverna tentando provocar novas recordaes. Rollie no estava em parte alguma. Teria morrido? Ou apenas escapado? E o inspetor Quent Regan 
e os pees? Estariam a caminho? Ou ainda no sabiam do que se passava nesse ponto distante e isolado das montanhas? Cal suspirou. As peas perdidas eram muitas.
    E o silencio... Com exceo da madeira estalando no fogo e do vento soprando l fora, no havia nenhum rudo conhecido.
    S podia esperar. Tudo voltaria  memria mais tarde, quando estivesse melhor. No momento, era suficiente saber que Prola estava viva e perto dele.
    Minutos mais tarde, Cal adormeceu novamente.
    
    Prola acordou de repente. Teria sonhado, ou Cal havia se movido?
    Ajoelhada, tocou a testa do caubi e experimentou um profundo alvio ao senti-la fria.
    Fechando os olhos, fez uma prece de agradecimento quando voltou a abri-lo, ele a encarava.
    - Oh, Graas a Deus! Tive tanto medo...
    - Por mim? - Era difcil falar. A garganta parecia tomada por muitos rolos de arame farpado. - Por que sentiu medo?
    - Porque foi ferido, e pensei que...
    - Est chorando? Essas lgrimas so por minha causa, Prola?
    Gostaria de poder cont-las, mas era impossvel.
    - No suportei v-lo ferido. E quando Rollie atirou em seu peito...
    - Ele me atingiu no peito? Quando?
    - Quando o seguiu para fora da caverna, na tempestade. Tentei det-lo, mas foi tarde demais. Ele j havia disparado.
    - Agora lembro. Ingram teria conseguido me matar, se voc no o tivesse atacado com meu rifle.
    - Eu no o salvei, Cal. Voc mesmo salvou-se quando revidou o tiro. No sei nem se Rollie est morto ou apenas ferido. Assim que o vi caindo numa vala profunda, 
corri para ver se voc ainda estava vivo.
    Era bvio que os poucos momentos de esforo comeavam a esgot-lo. Fechando os olhos, Cal tentou sorrir.
    - E ainda estou?
    -O qu?
    - Vivo.
    - Oh,Cal - Prola pressionou o rosto contra o dele.
    Ele sentiu o sabor das lgrimas e teve certeza de jamais ter provado algo to doce. E esse foi seu ltimo pensamento consciente antes de mergulhar novamente 
num sono profundo.
    
    
    Captulo 17
    
    Prola levantou a cabea e arrepiou-se com o frio da caverna. A nica luz era proveniente do brilho das brasas.
    Abrindo mo do calor do cobertor, correu a alimentar o fogo e esperou ver as chamas ardendo novamente. Ento virou-se e foi at a entrada da caverna. Erguendo 
uma ponta da porta improvisada, olhou para a escurido que dominava as montanhas. Alguns flocos de neve atingiram seu rosto e ela correu de volta  cama que dividia 
com Cal.
    Ao deitar-se ao lado dele, tocou sua testa e experimentou um profundo alvio ao constatar que a forte febre no retornara.
    - Isso  um sorriso?
    - Oh, Cal! Voc me assustou! Estou apenas aliviada por no ter mais febre. Nunca havia removido uma bala antes, e tive medo de...
    - Quer dizer que removeu a bala?
    - Duas, para ser mais exata. No tive escolha. Sinto muito...
    - Sente? - Ele riu, apesar da dor. - Lamenta ter removido as balas que podiam ter me custado a vida? Francamente, Prola! Voc no me causou nenhuma dor. As 
balas de Ingram me fizeram sofrer, mas voc as retirou e salvou minha vida. 
    Podia sentir o corao batendo mais depressa, e um calor estranho tomava conta de seu corpo. Se fosse possvel, passaria o resto da vida nessa caverna, deitada 
ao lado do homem que amava, tocando-o e protegendo-o.
    O homem que amava. Um suspiro profundo escapou de seu peito. Reunindo coragem, segurou a mo dele e encarou-o.
    - Deve estar querendo saber por que vim dormir ao seu lado. A verdade,  que voc estava em estado de choque, tremendo muito, e por isso precisava de todos os 
cobertores. Mas, quando percebi que todos os agasalhos no eram o suficiente, decidi usar meu corpo para aquec-lo. E depois... Bem, senti uma paz to grande a seu 
lado, que decidi continuar aqui. Espero que no me julgue mal por isso.
    O silncio prolongou-se e Prola imaginou que seu comportamento atrevido o escandalizara.
    - Desculpe. Se preferir, posso...
    As palavras morreram em sua garganta. A respirao dele era lenta e profunda, e o corpo imvel indicava que havia voltado a dormir.
    Constrangida, acomodou-se novamente e agradeceu  sorte por ter sido poupada dessa humilhao. Mas o fato de ter preservado sua dignidade no trazia nenhum alvio, 
porque ainda precisava enfrentar outro dilema. Agora que Cal comeava a melhorar, e j no tinha de temer pela vida dele, era forada a lidar com um medo novo e 
muito diferente. Agora que a crise havia sido superada, logo ele voltaria a ser um homem forte e viril, um homem cuja presena a levava a pensar em coisas imprprias. 
A desejar coisas que estavam fora de seu alcance.
    Coragem, disse a si mesma, comeando a mergulhar naquele estado de torpor entre o sono e os sonhos. At agora, a coragem no a abandonara. Tinha certeza que 
poderia contar com ele para a prxima faanha, tambm.
    
    Cal acordou com o som de passos e algo pesado sendo arrastado pela caverna. Sonolento, tentou alcanar a arma e descobriu que at mesmo um movimento to simples 
o obrigava a encolher-se de dor.
    Abrindo os olhos, viu Prola vestindo seu casaco, calando suas botas e tentando arrastar uma enorme tora de madeira. Assim que conseguiu pux-la para dentro 
da caverna, rolou-a at bem perto do fogo e empurrou-a para as chamas. 
    - Foi assim que me trouxa para c?
    Ela virou-se. Enxugando as mos nas roupas, correu e ajoelhou-se a seu lado.
    - Devia t-lo rolado como uma tora. Teria sido mais simples. Sente-se melhor?
    - Tenho a impresso de que lutei com um urso. E perdi. Ei, esse vestido  lindo!
    Pela primeira vez desde o incio da aventura, Prola sorriu. Cal sentiu o corao disparar diante de to encantadora viso.
    - J que no estava usando suas roupas, pensei que no se importaria se eu as pegasse emprestadas.
    - A este  outro assunto que precisamos discutir. Notei que estou nu. Por acaso tem alguma coisa a ver com isso?
    Para encobrir o rubor que tingia seu rosto, ela tocou a testa do caubi fingindo examin-lo em busca de sinais de febre. Ele moveu-se e segurou sua mo, obrigando-a 
a parar.
    - Como me trouxe para c? Rollie e eu trocamos tiros do outro lado da montanha, bem longe daqui.
    - Eu... consegui transport-lo com a ajuda de uma corda e do seu cavalo.
    Apesar da dor, Cal levantou as das para segurar o rosto delicado.
    - Voc  uma pessoa surpreendente, Prola Jewel. E muito criativa, tambm.
    Ela balanou a cabea e afastou-se, assustada com a reao ao toque.
    - S fiz o que era necessrio.
    - Fez muito mais que isso. Como conseguiu a madeira para o fogo?
    Trouxe a maioria das toras rolando-as. Duas ou trs tiveram de ser arrastadas com a ajuda do cavalo e da corda. A neve torna tudo mais difcil.
    Neve?
    - A tempestade transformou-se numa nevasca, E pela espessura da camada que se formou l fora, duvido que algum consiga chegar at aqui nos prximos dias.
    Agora compreendia a razo do estranho silncio.
    - Quer dizer... que estamos sozinhos aqui, sem nenhuma esperana de resgate imediato?
    - Exatamente.
    - No consigo imaginar nada melhor do que estar perdido no meio de uma nevasca com voc. Prola Jewel.
    Ela virou-se e fingiu ocupar-se com o fogo, consciente das batidas aceleradas de seu corao. Se fosse honesta, confessaria estar pensando a mesma coisa.
    - Est com fome?
    - Faminto.
    - Encontrei um pouco de carne-de-sol na mochila. E temos alguns biscoitos, tambm.
    O silncio prolongado a intrigou e Lea virou-se. Mais uma vez, os olhos fechados e a respirao lenta e profunda indicaram que ele havia adormecido. Prola ficou 
onde estava por alguns instantes, observando-o. No conseguia lembrar-se de uma viso mais doce e encantadora. No havia nenhum sinal de dor nos traos relaxados, 
o que tornava a imagem ainda mais fascinante. Esse homem forte e bravo, que arriscara a sua vida para salv-la, estava recuperando-se.
    Certa de que Cal dormia de fato, Prola saiu mais uma vez, esperando encontrar alguma comida.
    Seria intil levar o rifle, j que no sabia us-lo, mas estava munida com a faca do caubi e levava sua pistola no bolso do casaco. Tivera a impresso de ter 
ouvido o som de um riacho correndo bem prximo de onde estavam. Seguindo o barulho de gua corrente, encontrou a nascente e surpreendeu-se com a quantidade de peixes. 
Mas... como apanh-los?
    De volta  caverna, vasculhou os minguados suprimento. Enfiando a angua rasgada num balde vazio, voltou  nascente do riacho. Uma hora mais tarde, tendo usado 
a pea ntima com rede, retornou  moradia provisria levando um balde cheio de peixes.
    Pouco depois o ambiente era invadido pelo aroma delicioso de carne branca sendo grelhada numa frigideira de ferro. Biscoitos douravam sobre o fogo e havia um 
bule de caf forte e quente pronto para ser consumido.
    Assim que comeou a comer, Prola sentiu a coragem renovada e o entusiasmo restaurado.
    - Parece bem disposta, srta Jewel.
    Ao ouvir a voz profunda ela levantou a cabea e, prestativa, correu para perto dele.
    - Est com fome?
    - Faminto. O que pode cheirar to bem?
    - Peixe. H uma nascente perto daqui cheia deles.
    - E como conseguiu peg-los?
    - Com minha angua. - No minuto em que as palavras saram de sua boca, ela sentiu o rosto quente. - Quero dizer, usei o tecido como rede e enchi um balde de 
peixes.
    - O que as pessoas honradas de Hanging Tree pensaro quando souberem que a professora foi pescar com sua angua?
    Prola ficou vermelha e manteve o rosto virado at ouvis o som profundo de uma gargalhada. Oh, era um som to maravilhoso! Percebendo que Cal estava brincando, 
ela riu tambm.
    - Elas ficaro ainda mais chocadas, quando souberem que estive cuidando de um homem nu.
    - Estava mesmo querendo falar sobre isso...
    Cal segurou sua mo.
    - Conversaremos mais tarde. - Ela interrompeu o contato e voltou para perto da frigideira. Depois de servir uma poro de peixe e biscoitos num prato muito fino, 
oferecendo-o ao caubi. - No momento, precisa comer alguma coisa para recuperar as foras.
    Ele aceitou o prato e comeu alguns bocados antes de deix-lo de lado.
    - Isso  tudo que consigo comer.
    Prola ajoelhou-se ao lado dele e o fez apoiar a cabea em seu colo. Depois aproximou uma xcara de caf forte nos lbios ressecados, esperando que ele bebesse 
alguns goles.
    - melhor tomar cuidado, professora. Posso me acostumar com esse tipo de tratamento.
    Sorrindo, saboreou o alvio e a satisfao provocados pelo fato de estar voltando a alimentar-se. Estava comeando a levantar-se quando sentiu a mo sobre a 
sua.
    - Pretendo recuperar as minhas foras.
    - Oh? - Sabia que ele podia sentir sua pulsao acelerada.
    - E quando o fizer, teremos que discutir algumas coisas.
    - Essa conversa vai ter de esperar at estar mais forte. - Ela levantou-se e moveu-se pela caverna antes de apanhar a angua.
    - Vai pescar novamente, professora?
    - Um de ns tem de providenciar o jantar.
    Cal fechou os olhos e ofereceu um sorriso cansado.
    - E um de ns tem de manter essa cama aquecida.
    
    Quando o dia chegou ao fim e as primeiras estrelas comearam a brilhar no firmamento, Cal havia acordado vrias vezes. Em cada uma delas conseguira comer e beber 
um pouco mais, contribuindo para a prpria recuperao.
    Prola tambm recuperava as energias. As constantes viagens  nascente e o exerccio fsico proporcionado pelas caminhadas na neve acrescentaram cor ao rosto 
plido. O alvio com a recuperao de Cal e a certeza de poder prov-los deu um novo brilho aos seus olhos.
    Agora, quando a noite cobria a terra com seu manto escuro, ala sentou-se ao lado do fogo e encolheu-se no casaco de Cal. A nica coisa que usava sob ele era 
a combinao. O vestido, que havia lavado no riacho at retirar todas as manchas de sangue, estava estendido sobre uma rocha para secar. A camisa, a cala e as botas 
de Cal, ensopadas pela neve e pela gua cristalina da nascente, secavam junto ao fogo.
    Depois de alisar os cabelos com os dedos, jogou-os sobre um ombro e comeou a tran-los.
    Cal estava deitado, os olhos semicerrados numa expresso concentrada. Observ-la a distncia era a mais doce das torturas. Imaginava aqueles dedos delicados 
deslizando sob seu corpo, acariciando-o e, experimentava sucessivas ondas de calor que o enfraqueciam.
    De repente ela levantou-se e despiu o casaco. Os contornos do corpo esguio eram claramente visveis sob o tecido fino da combinao, que mais revelava do que 
escondia.
    O calor transformou-se num incndio.
    Prola jogou vrias toras de madeiras no fogo para mant-lo acesso durante toda a noite, depois levantou as cobertas e deitou-se ao lado dele. Com impressionante 
economia de movimentos, ajeitou-se de lado e logo sua respirao tornou-se profunda e tranqila.
    Cal permaneceu acordado, observando as sombras que pareciam adquirir vida na penumbra do interior da caverna. As mos estavam cerradas, mas dessa vez a tenso 
no era causada pela dor. Tratava-se de uma agonia diferente, um sentimento que fazia todo o corpo vibrar com um misto de entusiasmo e carncia.
    O milagre que os levara to longe no seria nada comparado ao que seria necessrio para ajud-lo a superar a noite. A necessidade de toc-la e abra-la era 
to forte, que ameaava vencer o controle frreo que o tornara conhecido em todo o territrio do Texas.
    
    
    Captulo 18
    
    Prola moveu-se. Mergulhara num sonho delicioso. Mele, estava segura nos braos do pai. Haviam enfrentado uma perigosa jornada, e ele orgulhava-se de sua coragem. 
Suas palavras a aqueciam e, sorrindo, ela espreguiou-se... e congelou.
    No havia sido um sonho. Pelo menos no totalmente. Estava mesmo cercada por braos masculinos, mas no era o abrao terno de seu pai. Os olhos se abriram e 
ela deparou-se com a profundidade hipntica dos olhos de Cal.
    - Bom dia. - Embaraada, tentou afastar-se, mas ele a impediu. - Deve estar com fome.
    - Estou, mas no como imagina, Prola.
    Os lbios aproximaram-se tanto dos dela que, por um segundo, teve a impresso de poder sabore-los. Se fizesse um pequeno movimento... Sentido o corao bater 
mais depressa, imaginou se teria coragem. Pousando a mo em seu peito, sentiu que o corao do capataz da fazenda batia to depressa quanto o dela. Os olhos a devoravam.
    - No vai recuperar as foras, a menos que se alimente.
    - No sabe que um homem precisa de mais do que simples comida para sobreviver? Estava alimentando minha alma.
    - Cal... - Ela abriu a boca para falar e parou, sentindo o dedo que seguia o contorno de seus lbios.
    A intimidade do contato a pegou de surpresa e ela deixou escapar uma exclamao chocada.
    Cal tinha conscincia das reaes que provocava, e sabia que no seria necessrio muito esforo para convenc-la a aceitar a intimidade. Mas tambm podia ouvir 
o tom de aviso em sua voz, e havia visto o medo cintilando em seus olhos.
    - Estava aqui deitado, observando-a enquanto dormia. A viso me encheu de paz. T-la aqui, e saber que est segura, fez mais por minha recuperao do que todos 
os alimentos e remdios do mundo.
    Ele inclinou a cabea e tocou seus lbios num beijo suave. Por alguns momentos permaneceram assim, lbios tocando-se e afastando-se para tocarem-se novamente 
com a delicadeza de um floco de neve caindo.
    O silncio da manh os cercava, entrecortado apenas pelo estalar da madeira no fogo.
    Prola suspirou e entregou-se ao prazer proporcionado pelo beijo. Quando estava comeando relaxar, ele mudou a posio e tornou o beijo mais profundo, deslizando 
as mos por suas costas e espalhando pequenas fagulhas por toda a extenso de sua coluna.
    Tentou afastar-se, mas cal a segurou com fora e beijou seu pescoo, at que ela suspirou r inclinou a cabea para facilitar o acesso.
    O sangue comeava a esquentar em suas veias, espalhando um incndio que dominava todo o seu corpo. Algo contraa-se em seu ventre, provocando outro tipo de calor 
que, por sua vez, despertava necessidades urgentes e desconhecidas. Precisava livrar-se das cobertas que ameaavam sufoc-la.
    - Cal... - As palavras foram abafadas por um beijo mais profundo e exigente.
    Prola o abraou. As pernas enroscaram-se. E de repente ela percebeu que o corpo pressionado contra o dela estava nu. E excitado.
    - Cal, no! Pare. - Confusa, tonta, empurrou-o numa tentativa desesperada de livrar-se do abrao.
    - Voc tambm quer, Prola. No pode negar.
    - No. - Ela balanou a cabea e procurou impor mais firmeza  voz. - No. - Respirando fundo, sentou-se e empurrou os cabelos para trs. - No consigo pensar. 
Preciso de um tempo...
    Sem dar a ele chance de argumentar, levantou-se e comeou a vestir as roupas masculinas que deixara secando junto ao fogo. Depois de proteger-se com o casaco, 
apanhou o balde e a angua rasgada.
    Num piscar de olhos ela desapareceu, tragada pelo manto branco que cobria a montanha alm da entrada da caverna.
    Cal fechou os olhos e censurou-se. Como pudera ser to egosta? Prola era uma dama! Uma jovem inocente e honesta que nunca fora submetida a tratamento semelhante. 
Quando aprenderia? No tinha nem mesmo o direito de toc-la. Ela devia preservar a prpria honra e guardar-se para um homem que pudesse ao menos cortej-la de maneira 
apropriada. Um homem que se casaria com ela e a brindaria com um futuro brilhante e o respeito que jovens como ela mereciam.
    Gostaria de poder ser esse homem, mas sabia que o desejo era apenas um sonho. Nunca seria mais que um caubi, e dos menos respeitveis. Apesar do sucesso que 
alcanara, era um homem com um passa sombrio. Um passado que ainda levantava-se dos recantos mais sombrios de sua mente para atorment-lo. E que o envergonhava.
    
    Prola sentou-se perto da nascente e encolheu-se no casado de Cal. A beleza do dia, a luz que arrancava reflexos brilhantes da superfcie cristalina, no eram 
suficientes para anim-la. Os cardumes que moviam-se pela gua, enchendo o tecido fino da angua, mal eram notados.
    S conseguia pensar em Cal. O sabor de seus lbios, profundo e misterioso. O calor dos braos fortes em torno de seu corpo, o cheiro de sua pele, to sedutor 
e marcante. Perto dele, deixava de ser a moa tmida e insegura que chegara de Boston cheia de sonhos para transformar numa nova criatura, mais confiante e ousada. 
Com Cal no precisava preocupar-se com a aparncia. Podia ser quem quisesse, quando quisesse. E esse era o maior encanto desse caubi destemido e bravo. A capacidade 
de trazer  tona caractersticas que ela nem imaginava possuir.
    Como gostaria de poder dizer e mostrar a ele o quanto era especial e importante! Mas tinha medo.
    - Oh, papai! - Choramingou em voz alta. - Eu amo Cal. Mas temo esses novos e estranhos sentimentos que desabrocham dentro de mim. Por favor, ajude-me!
    De repente lembrou o dia em que caminhava ao lado do pai pelas ruas de Boston, orgulhosa e feliz.
    Como sempre, usava seu melhor vestido. O pai tambm parecia elegante como qualquer cavaleiro do leste. Mas quando dois homens aproximaram-se discutindo e brigando, 
e outros homens afastaram-se para observar a disputa, seu pai colocara-se entre eles sem pensar na prpria segurana. Quando a disputa terminou, Prola, uma menina 
de doze anos de idade, perguntou:
    - Voc nunca sente medo, papai?
    Era como se pudesse ouvir a resposta.
    - Ainda no nasceu um ser humano que no tenha experimentado o medo, Prola. Mas lidar com esse sentimento  conquistar a liberdade. Quando for mais velha, ser 
livre para escolher o caminho que vai trilhar, e ter de encarar o medo muitas vezes ao longo desse caminho. Mas voc o enfrentar. E s ento, ser realmente livre. 
Ame e respeite essa liberdade, Prola. E saiba que estarei sempre a seu lado para apoiar sua escolha. Porque a liberdade de escolha  um direito precioso.
    De repente ela riu e levantou-se. Com os braos erguidos, olhou para o cu.
    - Oh, papai! Como pude ser to cega?
    A resposta estivera sempre ali. Como Cal encontrara a liberdade de ser ou fazer o que quisesse.
    Mergulhando os ps na gua gelada, apanhou as pontas da angua e depositou os peixes no balde. Com o corao leve e a primavera no sorriso, voltou para a caverna 
levando a refeio.
    
    Cal havia conseguido dar alguns passos pela caverna. Encontrara a bolsa de tabaco e estava apoiado nos cobertores, a cabea coroada por um crculo de fumaa.
    Tomara uma deciso. Gostaria de poder contar com mais alguns dias para recuperar as foras integralmente, mas era hora de voltar para casa, mesmo correndo o 
risco de enfrentarem outra tempestade. Apesar de ainda experimentar uma certa fraqueza, podia manter-se sentado sobre o cavalo. Qualquer que fosse a intensidade 
da dor e do desconforto que tivesse que suportar, ainda seria nada se comparada ao que enfrentava nesse momento. No suportava mais ficar preso nessa caverna, to 
perto de Prola, sem poder toc-la. E se a tocasse novamente, os dois estariam perdidos.
    Ao perceber que ela entrava, Cal forou-se a desviar os olhos.
    - Trouxe mais peixes. Vou preparar o caf.
    - No precisa ter pressa. No estou com fome. Jogou o que restava do cigarro no fogo.
    - No foi o que disse h algum tempo. - Ela caminhou na direo dele enquanto despia o casco.
    Aborrecida com a atitude distante de Cal e com a insistncia em no encar-la, jogou o casaco no cho chutou uma das botas para longe.
    O baque do calado aterrissando sobre o piso de pedra chamou sua ateno.
    Surpreso, viu quando ela repetiu o gesto com o outro p da bota, que encontrou uma parede antes de cair no cho.
    Essa no era a Prola que havia conhecido nos ltimos meses. O andar transformara-se num espetculo de graa e leveza, numa dana sensual. Os lbios moviam-se 
sedutores, e havia um brilho em seus olhos que jamais vira.
    - Precisava de um tempo para pensar - ela disse -, e cheguei a uma concluso.
    - Eu tambm...
    Cal parou de falar ao v-la despir a cala e continuar caminhando em sua direo, usando apenas sua camisa e a combinao que mal escondia o corpo esguio.
    Quando ajoelhou-se ao lada da cama improvisada, os dedos buscaram os botes da camisa que ele vestira pouco antes.
    - Voc perdeu o juzo? - o capataz reagiu, segurando a mo dela com um movimento decidido.
    Em vez de ceder, desistir ou responder, ela limitou-se a sorrir.
    - Acho que acabei de encontr-lo - murmurou.
    - No entendi.
    Prola segurou a mo dele e levou-a aos lbios. O gesto era to ertico, que ele teve a impresso de que todo o ar escapava de seus pulmes.
    - Estava enganada. No devia ter recusado o que me ofereceu. Tambm quero...
    - No. - No ouviria esse absurdo. No podia! - Foi bom ter fugido, porque assim tivemos tempo para pensar. Agora sei que estava sendo egosta. Tomaria sua virtude, 
sua honra, e no teria nada para oferecer em troca.
    - Nada? Oh, Cal, voc tem muito a oferecer.
    - Ser que no entende? Se permitir que isso acontea, no serei melhor que Rollie Ingram.
    - Cal!
    O nico consolo era saber que fazia o sacrifcio por ela, pelo bem da mulher que desejava com tanto ardor. O embarao que provocava com sua rejeio brutal logo 
seria esquecido.
    No silncio que seguiu-se, Cal abriu os olhos e descobriu que ela estava terminando de despir a camisa.
    - Que diabos pensa estar fazendo?
    Ela levantou o cobertor e deitou-se a seu lado.
    - Vou ficar aqui at voc superar sua timidez.
    - Minha timidez?
    -  o nico motivo possvel para esse sbito ataque de conscincia.
    - Meu sbito ataque de conscincia, como voc chama,  apenas bom senso! Um de ns tem de ser sensato a respeito desse assunto.
    - No quero ser sensata. Tive bom senso durante toda minha vida, e sempre fui abenoada, ou amaldioada, com a necessidade e a capacidade de analisar todos os 
aspectos de uma questo, seja qual for. Nunca fiz nada por prazer, por vontade ou por impulso. E no momento, quero mostrar o quanto o amo.
    Ao ver a expresso confusa no rosto dele, Perola riu.
    - Voc... me ama?
    -  claro que sim. E voc tambm me ama, embora no queira admitir.
    - Eu amo? Oh, Prola! Eu amo! De verdade!
    A confisso encheu seus olhos de lgrimas, que ela conteve com esforo.
    - Viu? No foi to difcil admitir, foi?
    O primeiro contato com os lbios dela foi como o coice de uma mula. Enquanto assimilava o golpe, Cal desligava as mos por suas costas, pelos ombros e pelos 
braos macios.
    Macios. Ela era to incrivelmente macia! A pele era plida com a de uma deusa lendria. Mas a temperatura era morna, agradvel. E real. E estava ao seu alcance.
    Pensar nisso levou-o a experimentar uma segunda onda de choque.
    No tinha direito.
    - Prola. - Cal afastou-a um pouco, forando-a a fit-lo nos olhos. - Voc no sabe nada a meu respeito.
    - Sei que  um bom homem. Algum que meu pai amou e em quem confiou. Um homem que amo e quem tambm confio.
    - Voc no sabe nada. Nem sempre fui bom. Na verdade, at conhecer seu pai, nem sabia como ser bom e decente. Era um fugitivo.
    Prola pensou no que Travis dissera em certa ocasio na escola.
    Ouvi dizer que Cal McCabe matou pela primeira vez quando tinha minha idade.
    - No importa, Cal. O que aconteceu antes no significa nada para mim. A nica coisa que importa  que o amo, e quero mostrar a intensidade desse amor.
    Ele tocou os cabelos dourados e viu as mechas sedosas enroscarem-se em seus dedos. A fora do sentimento que iluminava os olhos dela ecoava em seu corao, despertando 
emoes igualmente profundas e verdadeiras.
    - Sabe o que est fazendo? - murmurou.
    - Nunca estive to certa de qualquer outra coisa em toda minha visa.
    Ele a tomou nos braos e beijou-a na testa.
    - No haver caminho de volta. Receio ser incapaz de para depois do primeiro passo.
    Estava oferecendo a ela uma ltima chance de retroceder, mas sabia que era intil. Teria rastejado pelas montanhas para t-la, ou corrido s cegas por entre 
uma rajada de balas. Mesmo assim, prendeu o flego e esperou, sabendo que a deciso cabia a ela. Uma palavra de indeciso, uma demonstrao de insegurana ou temor, 
e seria banido para sempre do paraso.
    Em resposta, Prola virou o rosto e roou os lbios nos dele.
    - Chega de protestos, Cal. Apenas me ame.
    - Meu Deus! - As palavras foram uma espcie de grunhido selvagem, mas o tom de voz tornou-se mais suave quando a enormidade da oferta tornou-se clara em sua 
mente. Mais uma vez, Cal murmurou como numa prece: - Meu Deus...
    
    
    Captulo 19
    
    Por alguns momentos, nenhum dos dois moveu-se. Nenhum dos dois falou. Depois, quase contra a prpria vontade, Cal puxou-a para mais perto e beijou-a com a maior 
intimidade.
    - Oh, Prola! - Suspirou, deixando os lbios provarem o sabor de cada pequena poro de pele da testa, do rosto e do pescoo plido.
    Incapaz de conter-se, ela entregava-se s carcias provocantes, atrevidas, e deixava escapar pequenos gemidos de prazer, o corpo sacudido por tremores que espalhavam 
ondas de calor por todas as clulas. Os lbios prosseguiram na viagem alucinante at alcanarem um dos seios rgidos e fartos. O tecido fino da combinao no era 
empecilho para a boca que, faminta, operava uma espcie de mgica.
    Cal a fez deitar-se sobre os cobertores e ela o abraou, puxando-o para mais um beijo inebriante.
    L fora, o vento lanava flocos de neve contra as paredes da caverna, criando um som parecido com ps pisando no cascalho. Pssaros, deixando os abrigos que 
haviam procurado durante a tempestade, entoavam um coro de esperana e alegria que embalava a busca de comida para o prximo perodo de dificuldade. Mas, no interior 
da caverna, havia apenas o estalar do fogo e o som abafado as respirao de duas pessoas perdidas nas maravilhas do amor.
    Cal lutava para refrear os prprios mpetos, urgncias que haviam crescido e agora ameaavam domin-lo. Estava disposto a conhecer cada sabor, cada aroma e cada 
toque dessa mulher. Queria fazer de sua primeira vez uma experincia inesquecvel. Afinal, era a nica coisa que tinha a oferecer a Prola.
    Sem pressa ia depositando beijos suaves em seu rosto, no pescoo e nos ombros. Os dedos seguiam a trilha deixada pelos lbios, explorando cada curva do corpo. 
E a cada toque podia senti-la mais tensa, ofegante e ansiosa.
    No pensaria no futuro e no que aconteceria quando voltassem  fazenda. Tambm no lamentaria disso, limitar-se-ia ao presente. Ao momento e  mulher que tinha 
nos braos. E ao amor que sentia por ela.
     medida em que o sangue esquentava o corao pulsava mais forte, Prola ia aos poucos livrando-se de todos os temores e incertezas. O mundo alm da entrada 
da caverna j no importava. Havia apenas esse homem e o amor que sentia por ele. No pensaria na qualidade momentnea do que estavam vivendo, era suficiente para 
saber que confiava em Cal e podia deixar-se guiar por ele. 
    Confiana. Houvera to pouco em sua vida. Mas sabia que Cal nunca trairia.
    Ele sentiu a mudana gradual na parceira. Antes estivera temerosa. Por isso obrigara-se a seguir devagar, aplacando os receios, guiando-a com beijos ternos e 
palavras doces, a um novo patamar. Mas agora, ao senti-la mais relaxada, estava livre para conduzi-la ainda mais longe.
    Seu toque afastava todas as inibies, permitindo que ela explorasse toda a paixo que at ento estivera adormecida, esperando por esse momento. Podia v-la 
em seus olhos, prov-la em seus lbios. Quente. Urgente. Pulsando no compasso da necessidade.
    Enquanto levava as mos ao lao da combinao, Cal manteve os olhos fixos nos dela, e s os desviou quando o tecido revelou a pele macia e plida.
    - Voc  ainda mais linda do que eu imaginava.
    Com grande cuidado, inclinou-se e acariciou um dos seios at o mamilo enrijecer. O suspiro de prazer tornou-se um gemido quando ele passou ao outro seio.
    Cal lutava contra o mpeto de lev-la muito longe e depressa demais, mas no sabia at onde poderia contar com seu autocontrole. As necessidades negadas por 
tanto tempo buscavam liberdade e satisfao, e logo a barragem rompera-se e ambos seriam arrastados pela corrente de emoes.
    Queria toc-lo como ele a tocava. Passando os braos em torno de sua cintura, sentiu os msculos se contrarem-se violentamente ao primeiro contato com os dedos.
    Ao ouvir o suspiro de desejo tornou-se mais ousada, deslizando as mos pelo corpo forte como ele fizera pouco antes.
    Segurando-a pelos cabelos, Cal a fez reclinar a cabea e apoderou-se de sua boca com paixo. Por um momento ela foi tomada pela tenso, assustada com a sbita 
mudana, mas em seguida o medo foi banido pela paixo desesperada em seu peito.
    Ento era isso que Cal tentava conter. Esse lado sombrio e apaixonado que at ento conseguira manter escondido. Exultante com o poder que acabara de descobrir, 
ela colou o corpo ao dele e explorou-o com os lbios e dedos, imitando cada gesto a que fora submetida.
    O corpo de Cal pulsava com a necessidade que contivera durante tanto tempo. Mas agora Prola dera vazo s prprias urgncias, sentia-se queimar de desejo e 
j no tinha a pretenso de controlar-se.
    Oh, as coisas que queria ensinar a ela! No s a liberdade das restries que a mantiveram prisioneira por toda uma vida, mas coisas mais importantes. Queria 
que ela experimentasse o vo livre e selvagem de uma ave, alcanando o pico mais alto das montanhas do Texas. Queria que ela sentisse o sabor da paixo em toda sua 
intensidade, que cedesse  loucura,  insanidade de segui-lo onde quisesse lev-la, no por medo ou senso de dever, mas por amor.
    Amor. Era s o que queria dela. Um banquete de amor.
    Com infinita ternura, beijou-a e acariciou-a at ver as mos crispadas nos cobertores sob seu corpo quente. Um calor intenso os envolvia, um incndio que dominava 
os instintos e calava a voz da razo. E mesmo assim, Cal refreava o mpeto de entregar-se por completo, de viver intensamente a paixo que o queimava, ameaando 
enlouquec-lo.
    Prola mergulhava num mundo de toques, sabores e prazer, onde nenhum pensamento tinha importncia. S Cal era importante. Sentir os dedos calejados em sua pele 
era melhor que vestir a mais fina seda. O gosto dele era misterioso e intrigante como a caverna que abrigavam-se, e sua carcias eram selvagens como a terra que 
o nutrira.
    Cal planejara ensin-la, mas estava aprendendo. Desde o primeiro contato, do primeiro beijo, fora dominado por necessidades primitivas que imploravam por satisfao.
    Sentia que ela ficava ainda mais tensa na medida em que seus lbios buscavam cada recanto do corpo faminto, e ento ela gritou seu nome ao alcanar o primeiro 
xtase. Cal no deu a ela tempo para recuperar-se, seguindo a viagem alucinante.
    Parecia impossvel que Prola quisesse mais, mas, quando penetrou-a ela agarrou-se a ele com  prpria vida.
    Era maravilhosos poder senti-la de maneira to ntima e completa, sentindo a fragrncia da nascente e das flores da montanha, e de repente soube que guardaria 
essa recordao para sempre. E seria alimentado pela lembrana.
    As ltimas migalhas de controle foram dilaceradas pelas sensaes provocadas pelos movimentos do corpo delicado sob o seu, e McCabe sentiu-se  beira do abismo. 
Esquecendo a gentileza, beijou-a com selvageria, tocando-a com se quisesse marcar para sempre a pele plida e delicada.
    - Prola, olhe para mim. - Ordenou com a voz rouca.
    Suas plpebras se abriram e ela mergulhou nas profundezas dos olhos que a fitavam.
    - Quero ver voc. S voc. E quero encontrar-me em seus olhos.
    Juntos, iniciaram a escalada. Ela o acompanhava a cada passo do caminho, seguindo seu ritmo com fora impressionante.
    Para Prola foi como se o tempo parasse. Os suspiros e gemidos de Cal tornavam-se sua voz.
    Ele murmurava seu nome, ou pensava pronunci-lo, e de repente alcanaram o pico da montanha. Os corpos tremeram convulsivamente, como se estivessem livres dos 
laos que os prendiam ao cho. Agora voavam numa jornada jamais realizada antes.
    Prola tinha a impresso de estar tocando o sol e de senti-lo explodir em seu ventre, Cal a seguia para dentro da luz cintilante que a cegava, e juntos fragmentaram-se 
em milhes de pequenos pedaos.
    Agora ele era parte de seu corpo. E ela fazia parte dele. Haviam partilhado de algo especial e inesquecvel. Algo que jamais poderia ser desfeito. Desse momento 
em diante, suas vidas seriam alteradas para sempre.
    Molhado de suor, o corpo colado ao dela, Cal tentava recuperar o ritmo da respirao. No queria solt-la. Nunca mais. Aos poucos, com languidez nunca antes 
experimentada, puxou os cobertores e, rolando para o lado, aninhou-a junto ao peito.
    Ao beij-la, sentiu o gosto salgado das lgrimas.
    - Meu Deus, eu a machuquei!
    - No. Voc jamais poderia ferir-me.
    - Mas as lgrimas...
    - So de felicidade.
    Mas sabia, mesmo enquanto falava, que no estava sendo verdadeira. Agora que dera a alma, o corpo e corao a esse homem, Cal McCabe era o nico em todo o mundo 
que poderia machuc-la.
    Prola baniu tais pensamentos da mente. No momento, tudo o que importava era o fato se estarem juntos. E por mais algum tempo, no existiriam as tarefas da fazenda, 
nem o ofcio de professora entre eles. Gostaria de passar o resto de seus dias perdida nessa caverna.
    - Quer comer alguma coisa? - ela perguntou.
    - Ainda no. - Cal a beijou lentamente, os dedos brincando com os cabelos sedosos e dourados. - Tem idia de quanto tempo esperei para segur-la assim?
    - Quanto? - Ela sentou-se, sem dar importncia  prpria nudez.
    - Desde que desceu daquela carruagem em Hanging Tree, usando um vestido abotoado at aqui. - Tocou a regio delicada de seu pescoo, provocando um arrepio. - 
E segurando aquela sombrinha ridcula.
    - Ridcula! - Prola empurrou-o indignada, mas os dedos em torno de seu pulso e a gargalhada divertida a atraram de volta.
    - S conseguia pensar em desmanchar aquele penteado perfeito e desabotoar seu vestido para ver a pele macia que mantinha sempre coberta. - Com a ponta de um 
dedo, tocou um seio e depois o outro, notando que seus olhos tornavam-se mais escuros em conseqncia do desejo renovado.
    - E eu pensava apenas em como estava carrancudo quando aproximava-se de mim. - Ela riu. - Parecia to srio que em alguns momentos chegou a me assustar.
    - Nunca estive carrancudo. - As mos agora exploravam a curva delicada da cintura e a protuberncia do quadril. - Era apenas um careta que eu usava para disfarar 
meus pensamentos pecaminosos.
    - Agora est franzindo a testa.
    - Nesse caso,  melhor admitir que estou pensando novamente nas mesmas coisas.
    Prola apoiou-se nos cotovelos e surpreendeu-o pressionando os lbios contra o peito musculoso, estendendo os beijos midos at o ventre firme e plano.  medida 
que descia, lentamente, ouvia a respirao cada vez mais rpida e ofegante.
    - Ora, ora, Cal McCabe... No precisa admitir nada. Seus pensamentos so evidentes.
    Os cabelos sedosos caram para frente como uma cortina e McCabe agarrou-se a ele enquanto sentia as mos passeando por seu corpo.Os gemidos logo se transformaram 
em suspiros de prazer e, mais uma vez, mergulharam juntos num mundo que s os amantes conhecem.
    
    - Quer comer agora?
    Haviam dormido e, ao acordarem, descobriram que o fogo transformara-se em brasas e o vento soprava novamente l fora.
    Cal respondeu com um beijo prolongado e possessivo. Ao tentar sentar-se, deixou escapar um gemido de dor que a assustou.
    -  melhor ir com calma - ela comentou com um sorriso carinhoso. - Toda essa... atividade pode ter aberto suas feridas.
    -  o primeiro exerccio que fao em dias, e no tenho a menor inteno de desistir dele s por causa de alguns buracos de balas.
    - Homens! O que mais poderia esperar de um caubi nu que retornou do mundo dos mortos e descobriu-se dormindo ao lado de uma professora muito sria e comportada?
    - Sria e comportada? Puxa, voc quase conseguiu me enganar!
    - Tenha um pouco mais de respeito - ela exigiu, levantando-se para alimentar o fogo. Ca a ajuda de alguns palitos de fsforo, logo a fogueira ardia novamente.
    Algum tempo depois, a caverna foi invadida pelo odor de biscoitos assados, peixe frito e caf fresco.
    Cal apoiou as costas na sela e saboreou o caf enquanto Prola servia a comida num prato. Depois ela sentou-se no cobertor e alimentou-o.
    -  melhor tomar cuidado. Posso me acostumar com isso, professora.
    - Espero que sim. - Ela riu. - Assim que recuperar as foras, espero que faa o mesmo por mim.
    - Minhas foras? O que est querendo insinuar? - Com agilidade impressionante, ele a segurou pelo brao e puxou-a para mais perto.
    - Cal, vai derrubar a comida!
    Ele retirou o prato de sua mo e o deixou-o de lado. Depois acomodou-a sobre o prprio corpo, e acariciou-a, beijando-a com desejo. Tomada pela paixo, Prola 
entregou-se ao mpeto primitivo de mover-se sem inibio, e logo depois ambos voltavam a esquecer o mundo e a realidade fora da caverna.
    - At que ponto sente-se recuperado? - sussurrou, os lbios roando nos dele.
    - Estava pensando em demonstrar...
    
    A segunda tempestade comeou no final da tarde. As poucas horas de sol deram lugar s nuvens carregadas que escureceram o cu, transformando o dia em noite. 
O vento era como um rugido de um urso feroz e, ao amanhecer, a montanha estava coberta por uma nova camada de neve.
    O clima permaneceu inalterado durante trs dias.
    E foram os dias mais felizes da vida de Prola. A cada instante surpreendia-se desejando que a tempestade se estendesse eternamente. Sabia que era um desejo 
irracional. Existiam pessoas preocupadas com eles, e por isso lamentava com sinceridade. Mas nunca conhecera to profunda paz, to completa satisfao.
    Acordar nos braos de Cal era o maior de todos os prazeres. O calor do amor desse homem a levara a desabrochar, a encontrar um ponto de equilbrio que jamais 
sonhara existir. Sentia-se completa ao lado dele, sem medos ou inibies, sem as preocupaes que, at conhec-lo, faziam parte de sua rotina diria. E fazer amos 
os levara a conhecer muito sobre suas verdadeiras personalidades. Agora sabia que Cal possua um lado terno e gentil que jamais revelava ao mundo. E ele descobrira 
um bom humor em Prola do qual nunca suspeitara.
    Amava a maneira como ela acordava em seus braos, sempre sorrindo como uma criana aberta para o mundo. E adorava fazer essa criana transforma-se numa mulher 
experiente com apenas beijos e carcias.
    Sua fora retornava a cada dia. Embora ainda no houvesse se aventurado a sair, podia caminhar pela caverna e at assumira algumas tarefas simples, como cuidar 
do fogo e preparar os peixes que Prola conseguia pescar.
    Ele a ensinou a cobrir o cho da caverna com folhas e ervas para torn-la mais quente. Folhas frescas haviam sido colocadas sob o saco de dormir, transformando-o 
num colcho macio e confortvel. A fragrncia da vegetao enchia o ambiente, contribuindo para anim-los
    Certa noite, depois de mais uma refeio composta de peixe e biscoito, Cal enrolou o cigarro e aproximou o fsforo aceso da ponta. Exalando uma nuvem de fumaa, 
resmungou.
    - Estou to enjoado de comer peixe, que at o cavalo de Rollie Ingram parece mais apetitoso.
    - Nem pense nisso! - Prola respondeu do outro lado da caverna. - Vamos precisar dele para puxar a carroa quando sairmos daqui.
    Conseguira consertar o vestido e acabava de coloc-lo, alisando a sai amarrotada. Sem angua, o traje revelava suas curvas de maneira discreta, porm sedutora. 
Os cabelos eram mantidos presos numa fita desbotada, e mesmo assim ela era linda aos olhos de Cal.
    - O que a faz pensar que a tempestade vai passar? - ele perguntou com tom debochado.
    - Ficaria muito aborrecido se ela se estendesse para sempre?
    Enquanto aproximava-se dele, Prola questionava se seria sempre assim. Algum dia deixaria de sentir o corao disparar ao fit-lo?
    - Desde que esteja aqui comigo, no me importo se nunca mais ver o sol.
    Ele havia vestido a cala e protegera os ps com as botas de couro, mas despira a camisa para Prola pudesse lav-la. Tomando-a nos braos, aconchegou-a contra 
o peito nu e suspirou.
    -  to bom senti-la dessa maneira. Tenho a impresso de que nascemos para estarmos assim, juntos.
    - Estava pensando a mesma coisa. - Ela sorriu, passando os braos em torno de sua cintura.
    - Que tal irmos para a cama mais cedo esta noite?
    - Pensei que quisesse fumar seu cigarro e esticar as pernas.
    - Isso pode esperar at amanh.
    Quando comearam a caminhar na direo do saco de dormir, Cal parou como se houvesse sido atingido por um golpe certeiro.
    - O que foi? - ela perguntou alarmada. - O que aconteceu?
    Com um movimento rpido, ele a empurrou para trs e empunhou o rifle. Aproximando-se da entrada da caverna, esperou com todos os sentidos em estado de alerta.
    Teria sido apenas o vento? Ou ouvira realmente algum aproximando-se? Podia ser um animal. Mas confiava nos prprios instintos. O arrepio na nuca nunca o enganara.
    Cal esperou. E ouviu o rudo novamente.
    Com o rifle preparado, apontou para o cobertor que protegia a entrada da caverna.
    O tecido moveu-se para o interior da abertura na rocha. Uma figura gigantesca e coberta de neve penetrou no crculo de luz proporcionada pelo fogo.
    Prola deixou escapar um grito de horror antes de cobrir a boca com a mo.
    Mas, ao ver que o dedo de Cal comeava a mover-se sobre o gatilho, ela atirou-se em sua direo e gritou:
    - No faa isso! No atire! No  que est imaginado!
    
    
    
    
    
    Captulo 20
    
    Pelo espao de uma frao de segundo ningum se moveu. Ningum falou.
    E ento, diante os olhos incrdulos de Cal, o gigante comeou a adiantar-se. O pesado agasalho de pelo de urso caiu e revelou a silhueta de Gilbert Ingran, segurando 
o irmo caula, Daniel, sobre os ombros.
    - Mas que diabo...?
    Prola ps a mo sobre os lbios de Cal para conter a exploso, e em seguida correu para levar os dois garotos para perto do fogo.
    - Rpido Cal. Eles precisam de cobertores. - Gritou.
    McCabe olhou para a escurido que cercava a caverna em busca de algum sinal do pai dos meninos. Convencido de que estavam sozinhos, aproximou-se do saco de dormir 
e apanhou os cobertores, observando em silncio enquanto Prola envolvia cada garoto num deles. Em seguida ela encheu duas xcaras de caf forte e fumegante e os 
fez beber. O peixe e os biscoitos que haviam restado do jantar foram devorados pelos visitantes inesperados com impressionante avidez.
    Pela condio das botas, era evidente que haviam caminhado durante muitas horas. E mesmo assim, pareciam calmos. Estavam tremendo, batendo os dentes, mas depois 
de alguns goles de caf e uns poucos bocados de alimento, j estavam em condies de responder s perguntas de Prola.
    - O que esto fazendo aqui? Como conseguiram nos encontrar, se ningum mais pode?
    - Gilbert pensou nesta caverna desde o incio. Ele sabia que papai devia ter trazido a senhorita para c. - Daniel revelou com a simplicidade das crianas. - 
Naquela primeira noite, quando chegamos  Fazenda Jewel, ele tentou dizer ao cozinheiro que podia ajudar, mas acho que todos estavam perturbados demais. E por isso 
no o ouviram. Alm do mais, o velho disse que McCabe e os pees no gostariam de ter um Ingram por perto.
    Cal afirmou com a cabea, surpreso demais para falar.
    - Mas a tempestade... - Prola comeou.
    - Ela nos atrasou um pouco - o menino admitiu. - Assim que o tempo melhorou um pouco, Gilbert e eu partimos, imaginando que chegaramos aqui depois de um dia 
de viagem. Mas no contvamos com outra tempestade, e isso nos retardou um pouco mais.
    Prola tentou no sorrir enquanto ouvia a explicao clara e direta.
    - Tivemos de buscar abrigo por duas vezes - Daniel revelou.
    - Abrigo?
    - Sim, senhorita. Existem algumas cabanas abandonadas e uma ou duas cavernas que meu irmo felizmente conhecia.
    - Como conseguiram vencer bancos de neve mais altos que vocs?
    - Gilbert enfrenta tempestades e segue rastros desde que tinha minha idade. Ele sabe localizar-se em qualquer situao - o pequeno comentou orgulhoso.
    Gilbert, que ainda no havia pronunciado uma nica palavra, passou um brao em torno dos ombros do irmo e olhou para o cho.
    - Se Gilbert no aprendesse a locomover-se em quaisquer condies climticas, j teramos morrido de fome. s vezes papai desaparece por um ou dois meses, e 
 meu irmo quem cuida da casa, dele mesmo e de mim.
    - Entendo - Prola respondeu com tom seco.
    - Falando em Ingram - Cal finalmente falou -, ele j voltou para casa?
    - No, senhor. Quer dizer que ele ainda est vivo.
    Cal observou o garoto com cautela, at convencer-se de que ele no representava.
    - A ltima vez que vimos seu pai, ele estava ferido e cado numa vala.
    O menino digeriu a nova informao com calma, a expresso pensativa. Depois fez um movimento afirmativo com a cabea.
    - Papai j sobreviveu a coisas piores. Deve estar esperando o fim da tempestade numa caverna perto daqui.
    Prola lanou um olhar nervosos na direo de Cal e viu como os olhos dele tornavam-se mais atentos.
    - Por que veio at aqui, garoto? Ele quis saber.
    Gilbert manteve a cabea baixa.
    - Foi nosso pai quem raptou a srta. Jewel. Daniel e eu decidimos que era nossa responsabilidade encontr-la e lev-la de volta em segurana, se possvel.
    - Mesmo que para isso tivessem de enfrentar seu pai?
    - Sim, senhor.
    - Por qu?
    O menino encarou-o.
    - A srta. Jewel me ensinou o significado da palavra honra. Eu... eu queria provar que estava prestando ateno.
    Prola sentiu os olhos cheios de lgrimas e virou o rosto para esconder a emoo.
    - Bem, vamos ter de fazer uma cama para vocs, meninos. Devem estar exaustos.
    Ela preparou um ninho com folhas frescas e cobriu-as com um cobertor. Guiando os recm-chegados at l, esperou que se deitassem e os cobriu com a pele que haviam 
usado para atravessar a tempestade.
    Notou que, ao adormecerem, eles encolheram-se muito prximos um do outro, o brao do mais velho como um arco protetor em torno do caula.
    - Temos de admitir que so corajosos - disse, lutando para engolir o n que ameaava sufoc-la.
    - Ou muito tolos. - Cal abriu um alforje e comeou a contar as balas
    - O que quer dizer?
    - Essa crianas podiam ter morrido  merc da tempestade, e ningum os encontraria at que a neve derretesse.
    - Acho que eles decidiram que no tinham muito a perder. A vida desses meninos nunca foi muito fcil, pelo que pude ver at aqui. No consigo nem imaginar a 
convivncia diria com um pai como o deles.
    Cal manteve-se em silncio, mas havia um brilho assustador em seus olhos e uma determinao impressionante nos movimentos das mos. Srio, ele limpava o rifle 
e preparava para o uso imediato, verificando cada parte da arma.
    - No vai se deitar? - Prola perguntou, sentindo necessidade de experimentar o calor dos braos fortes em torno de seu corpo.
    - Esta noite permanecerei acordado. Na verdade, de agora em diante, teremos de nos revezar para manter viglia constante.
    - Acredita que Rollie Ingran voltara?
    Ele no disse nada. Mas prola sabia, pelo ngulo determinado da mandbula forte, que a resposta era positiva.
    Ao encolher-se sob o cobertor, teve certeza de que o paraso que haviam construdo juntos evaporara como um sonho nebuloso sob os primeiros raios de sol. A realidade 
retornara e, com ela, o terror de que, em algum lugar na noite, um assassino esperava para entrar em ao.
    
    - Foi um caf delicioso, srta. Jewel. - Daniel anunciou.
    - Infelizmente no temos mais peixe - ela respondeu ao oferecer o prato de biscoitos. - Irei pescar mais na nascente ainda hoje.
    - No suportaria outra refeio de peixe. Cal esvaziou a xcara de caf e, pensativo, tocou a ferida do ombro. - No comemos outra coisa desde que chegamos aqui.
    - Posso caar um coelho. - Gilbert ofereceu.
    - No quero correr o risco de atrair ateno com o som dos tiros - Cal protestou.
    - Entendo. Mas no preciso de um rifle. - Ele calou as botas, cobriu-se com a pele e encaixou uma faca na cintura da cala. - Voltarei logo.
    Assim que ele saiu da caverna, Prola virou-se para Daniel.
    - Seu irmo espera caar alguma coisa com uma faca?
    O garoto sorriu. Agora que tivera uma boa noite de sono e uma refeio de verdade, sentia-se ainda mais comunicativo que o habitual.
    - Gilbert  capaz de tudo.
    - Acha que seu irmo  uma espcie de heri, no ?
    - Sim senhora. No fosse por Gilbert... - As palavras morreram em sua garganta e ele virou-se, mas no antes da professora notar a maneira como seus lbios tremiam.
    Ela passou um brao em torno de seus ombros.
    - Gilbert  um rapaz muito corajoso. E voc tambm . Ainda no acredito que tenham nos encontrado no meio de toda essa neve, quando ningum mais conseguiu chegar 
at aqui.
    - Gilbert  o melhor seguidor de trilha de todo o Texas.
    - Melhor que seu pai? - Prola perguntou, tentando calcular a extenso do perigo que corriam.
    - Meu pai conhece as montanhas. s vezes ele vem esconder-se aqui, quando est sendo procurado pela lei. Mas nem ele conhece o territrio to bem quanto Gilbert. 
Meu irmo  capaz de distinguir a pegadas de um leo da montanha do rastro de um filhote de lobo. Ele pode subir at o ninho de uma guia, ou enfiar a mo num buraco 
e capturar uma pequena marmota. Se Gilbert disse que trar carne, pode acreditar nele. Graas ao meu irmo, nunca sentimos fome.
    Para comprovar as palavras de Daniel, algumas horas mais tarde Gilbert retornou  caverna com uma refeio completa. Quatro coelhos, que ele cortou e ps numa 
panela, e uma variedade de vegetais que haviam sido encontrados sob a neve. DE um bolso, o garoto removeu um punhado de plantas.
    Ao v-lo macerar algumas folhas e jog-las na panela onde a carne era cozida, Prola no conteve a curiosidade.
    - O que  isso, Gilbert?
    O menino encolheu os ombros.
    - Minha me conhecia os nomes. S sei que produzem um sabor delicioso no guisado e na sopa, e s vezes tambm utilizo como remdios.
    A professora respirou fundo e sorriu:
    - Como quer que se chamem, tm um aroma delicioso - disse, enfiando a mo num saco de farinha e extraindo uma pequena medida para os biscoitos.
    - Por que no deixa Gilbert fazer po de frigideira? - Daniel sugeriu.
    - Tambm sabe fazer po? - Prola virou-se para o garoto, que estendia as peles dos coelhos para serem secas.
    - Sim, senhora. Minha me me ensinou. - Com movimentos seguros, ele misturou a farinha  neve derretida e fez uma massa muito fina que despejou na frigideira. 
Em pouco tempo Gilbert havia preparado meia dzia de pes parecidos com panquecas.
    Prola estava impressionada.
    - H alguma coisa que no saiba fazer, Gilbert?
    Ele limitou-se a encolher os ombros e continuou trabalhando.
    Do outro lado da caverna, Cal reparava alguns arreios e Prola improvisava agulha e linha para costurar a camisa do caubi.
    - Meninos, que tal treinarmos um pouco de adio? - Ela sugeriu, apontando para um graveto muito fino. - Daniel, vou ditar alguns nmeros. Por que no os escreve 
na areia e tenta som-los?
    O pequeno entusiasmou-se.
    - Sim, senhorita.
    - Gilbert, acha que pode fazer suas somas de cabea?
    Ele limitou-se a um movimento afirmativo com a cabea.
    As horas passaram depressa enquanto as crianas faziam contas e soletravam palavras cada vez mais complexas. Durante todo o tempo, o aroma do guisado de coelho 
pairava pela pequena caverna, enchendo-a com um calor todo especial.
    Quando sentaram-se para comer, Prola espantou-se ao ver os dois irmos darem as mos e inclinarem as cabeas. Depois de um momento de estranheza, os adultos 
os imitaram.
    - Ns agradecemos, Senhor. - Gilbert disse em voz alta. Em seguida ergueu a cabea e, encabulado, explicou: - Infelizmente, isso  tudo que consigo lembrar da 
prece que minha me costumava fazer.
    As palavras tristes provocaram uma onda de emoo que ameaou sufoc-la. Olhando para Cal, viu que ele tambm havia sido tocado pela orao simples do garoto.
    - Isso  tudo que precisa dizer. - Ela disse. - O Senhor sabe o que vai em seu corao.
    Depois de alguns bocados, Prola declarou:
    - Nunca comi nada to delicioso. Gilbert, isto  um banquete.
    O elogio provocou um rubor que tingiu o rosto juvenil.
    - Eu disse que Gilbert  capaz de tudo! - Daniel exclamou orgulhoso.
    - No sou. - O mais velho tocou a faca que levava na cintura. - Vi um veado enquanto estava caando, mas estava muito longe. Se pudesse usar o rifle... Talvez 
ele volte  nascente amanh, e ento teremos um verdadeiro banquete.
    - Guisado de coelho est bom demais - Cal falou com tom casual. - Especialmente um guisado to delicioso.
    O elogio simples provocou um sorriso de prazer que iluminou o rosto do menino. Ao v-lo, Prola pensou em como o reconhecimento de um adulto era importante para 
um jovem dessa idade, e em como ele guardaria para sempre a aprovao que acabara de receber.
    - Acho que vou me servir de mais um pouco do molho. Esses temperos so deliciosos. - Cal mergulhou a colher na panela e, enquanto colocava uma poro de molho 
no prato, virou-se para Prola - E quanto a voc?
    - Tambm gostaria de mais um pouco, por favor. - E ofereceu o prato, divertindo-se com a expresso de surpresa que via no rosto do caubi.
    Depois do jantar, Cal enrolou um cigarro e foi sentar-se na entrada da caverna, onde ficou olhando para a escurido. L dentro, Prola e Daniel levavam a neve 
ao fogo para derret-la e lavar as poucas panelas velhas de que dispunham. Depois, pensando numa forma de aproveitar a gua quente, ela sugeriu:
    - Gostaria de tomar um banho, Daniel?
    - Um... banho? - o menino repetiu com um misto de surpresa e repulsa.
    - Sim, um banho. Voc nunca se lava?
    - No, senhorita. Meu pai diz que isso  perda de tempo. Vamos nos sujar outra vez...
    -  verdade. No entanto, s vezes  muito agradvel sentir-se limpo e aquecido. E enquanto estiver se lavando, posso costurar suas roupas.
    - E o que usaria para dormir?
    - Que tal um cobertor?
    - Se acha que vai ser bom para mim... - Ele aceitou com resignao.
    - Tenho certeza de que vai gostar da experincia - Prola afirmou com um sorriso doce.
    Usando um cobertor, ela improvisou uma cabana para que ele pudesse despir-se. Depois ensinou como lavar-se com o pedao de tecido retirado da angua e o sabo 
que encontrara num dos alforjes de Cal. Quando terminou, Daniel mostrou as mos com espanto e orgulho.
    - Vejo, srta. Jewel. Estou limpo!
    - Tem razo. - Ela riu. - Mas ainda falta um pequeno detalhe. - Fazendo-o inclinar-se sobre a vasilha com gua, ela ensaboou seus cabelos e os enxaguou com uma 
caneca.
    Rindo, Daniel esperou com pacincia at que a professora conclusse a tarefa e o embrulhasse novamente no cobertor.
    - E ento? - Prola perguntou, acomodando-o sobre os joelhos e abraando-o. - No disse que ia gostar?
    - Sim, senhorita.  muito divertido. - Olhou para o outro lado da caverna. - Devia experimentar, Gilbert. Vai gostar de tomar banho.
    - Prefiro deixar a diverso para voc - o mais velho respondeu sem interesse.
    Ao ouvi-lo, Cal livrou-se da gua suja e encheu a vasilha com neve fresca, que levou ao fogo para aquecer.
    - Agora  minha vez - disse, piscando para Prola. - Estava ansioso para me lavar.
    Gilbert virou-se para estudar o caubi, que j havia despido a camisa e apanhado o sabo. Assim que a neve derretida transformou-se em gua morna, ele comeou 
a limpar-se.
    - Pode lavar meus cabelos, srta. Jewel? - pediu.
    Vermelha, ela acomodou o pequeno Daniel na cama improvisada e foi ajud-lo, repetindo a operao que havia realizado com o garoto.
    Seria impresso, ou massagear o couro cabeludo de Cal McCabe era a mais deliciosa e sensual experincia que j tivera? Gostaria de poder acarici-lo e sentir 
seus braos em torno do corpo, mas os meninos acompanhavam seus movimentos com ateno, e por isso ela obrigou-se a esconder as emoes.
    Quando terminou, Cal sacudiu a cabea como um co peludo e ajeitou as mechas midas com os dedos.
    - Sinto-me renovado - disse em voz alta. - Que tal ficar limpo tambm, Gilbert? Garanto que vai gostar.
    O menino engoliu em seco. A experincia parecia realmente agradvel. E se Cal McCabe dispunha-se a tomar banho, talvez no fosse perda de tempo esfregar as mos, 
e pescoo e as orelhas.
    - Acho... acho que vou experimentar.
    - timo. Enquanto isso aproveitarei para lavar suas roupas e as de Daniel - Prola anunciou.
    - Mas... no tenho outras para vestir!
    Prola estava prestes a sugerir outro cobertor, mas Cal a socorreu.
    - Por que no usa minha camisa esta noite? Amanh suas roupas estaro secas.
    - Voc... no se importaria?
    - Fique  vontade.
    Assim que terminou de lavar-se, Gilbert vestiu a camisa de Cal e ouviu o caubi comentar:
    - Em pouco tempo estar cabendo em minhas roupas.
    O menino no respondeu, mas o brilho orgulhoso em seus olhos revelara mais do que qualquer palavra.
    Prola aqueceu mais neve e esfregou as roupas encardidas at que, depois de vrios enxges, o tecido tornou-se mais claro. Depois estendeu-as sobre as rochas 
da caverna para que secassem.
    
    No silncio da noite, Cal enrolou um cigarro e fumou em silncio, as costas apoiadas na sela de couro.
    Cantarolando uma velha melodia de sua infncia, Prola esvaziou a panela onde haviam aquecido gua e despejou o que restava do caf numa xcara, e dividiu com 
Cal.
    - Obrigado - ele agradeceu antes de beber sua parte.
    Por um momento olharam-se em silncio.
    Apesar do sono, Daniel mantinha os olhos abertos para no perder um s movimento da professora e do capataz. Escolhido no cobertor, ele olhou para o irmo e 
sorriu.
    - Ainda no dormiu? - Gilbert perguntou num sussurro amoroso.
    - No quero que isso acabe.  to bom...
    -  verdade. - Gilbert abraou o irmo e puxou-o para perto. - Como nossa casa costumava ser quando mame ainda vivia.
    Ouvindo-os, Prola sentiu a garganta contrair-se num n apertado e virou-se, temendo que os meninos pudessem ver as lgrimas que brotavam de seus olhos.
    Cal tambm ouvira a conversa rpida entre os irmos, e teve de cerrar os punhos e controlar-se antes de retomar a tarefa de emendar os arreios.
    
    
    Captulo 21
    
    O sol encontrou o caminho por entre as nuvens, lanando dedos de luz para o interior da caverna escura. Prola bocejou, espreguiou-se e abriu os olhos. Por 
um momento, ao sentar-se, teve a sensao de que o corao parava de bater. Cal no estava na entrada da caverna, onde o vira pela ltima vez na noite anterior.
    Mas s precisou olhar para saber que ele estivera cuidando das necessidades do grupo enquanto todos dormiam. Momentos mais tarde ele entrou, os braos carregados 
de toras.
    - Bom dia, dorminhoca - cumprimentou entusiasmado.
    - Parece feliz. Sente-se mais forte?
    - Forte o bastante para ir caar um veado. - Ele olhou para a cama improvisada onde Gilbert e Daniel acabavam de acordar. - Posso acompanh-lo e sua caada?
    Gilbert arregalou os olhos.
    - Sim, senhor.
    - Ento, assim que terminarmos nosso caf, sairemos e veremos o que podemos encontrar.
    Os meninos vestiram-se depressa, admirando as roupas limpas e costuradas. Pouco depois reuniram-se em torno do fogo para uma refeio de guisado, biscoito e 
caf.
    Algum tempo mais tarde, quando preparava-se para sair, Cal chamou Daniel para uma conversa privada.
    - Sabe manejar uma pistola?
    - Sim, senhor. Gilbert me ensinou a atirar h muito tempo.
    Considerando que o garoto tinha apenas seis anos de idade,a resposta era, no mnimo, surpreendente. Mesmo assim, Cal entregou uma pistola  criana.
    - Quero que fique na entrada da caverna enquanto seu irmo e eu estivermos fora. Se notar algo suspeito, dispare para o alto. Ouviremos o sinal e voltaremos 
imediatamente.
    - Sim, senhor. Eu cuidarei da srta. Jewel.
    Pouco depois Cal e Gilbert desapareciam em meio  neve batida pelo sol.
    Enquanto ficaram fora, Prola sacudiu os cobertores e os enrolou, guardando-os num canto da caverna. Depois cortou ervas frescas e espalhou-as por toda a caverna, 
enchendo-a com o aroma fresco de uma floresta de pinheiros.
    Satisfeita com a arrumao, preparou massa para novos biscoitos e deixou a vasilha junto ao fogo para que a mistura crescesse.
    Daniel permanecia abaixado na entrada da caverna.
    - Ei, esse cheiro  delicioso - ele gritou da porta.
    - Tem razo.  engraado. Acabo de descobrir que qualquer lugar pode ser transformado num lar.
    - Sim, senhorita. Desde que seja ocupado pelas pessoas certas...
    
    Horas mais tarde Daniel e Gilbert retornaram dividindo o peso de um fardo, que deixaram na entrada da caverna. Em seguida Gilbert retirou do bolso uma pequena 
bola de plos.
    - O que  isso? - Daniel perguntou excitado.
    - um filhote de coiote.
    - Posso ver?
    O mais velho ajoelhou-se e colocou o pequeno animal entre as mos do menino.
    - Oh! - Prola exclamou enternecida. - Onde o encontrou?
    - Perto do riacho. Deve ter nascido no meio da nevasca. A me estava morta alguns metros  frente, e ele tremia de fome e frio. No sei se poderemos salv-los, 
mas temos de tentar.
    Como algum que havia sido to maltratado podia abrigar tamanha ternura do corao?
    O fardo que os dois carregavam ao chegar era um veado, que foi limpo e preparado para o cozimento em pouco mais de uma hora. Enquanto Gilbert e Prola temperavam 
e coziam a carne, Cal e Daniel cuidavam da pele, que seria seca para futuro aproveitamento.
    - Isso vai dar uma bela jaqueta para voc ou seu irmo - Cal comentou enquanto trabalhava.
    - Quer dizer que vai dar a pele para ns? - o pequeno perguntou encantado.
    - Foi Gilbert quem caou o veado.
    - Ento a usaremos para fazer uma cala. Assim Gilbert poder us-la no prximo inverno, quando sair para caar. Isto ... se ele sobreviver at o prximo inverno.
    - O que quer dizer?
    - Quando meu pai nos encontrar aqui, Gilbert apanhar como nunca. E dessa vez...
    O silncio que seguiu-se era uma confisso de medo e angstia. Por isso Cal perguntou:
    - Alguma vez ele bateu em voc?
    - No, senhor. S em Gilbert. - Havia um profundo desespero nos olhos do pequeno.
    Do outro lado da caverna, Prola ouvia a conversa e rezava em silncio, pedindo a Deus por essas duas crianas que j haviam conhecido as amarguras da vida em 
to tenra idade.
    O jantar foi o banquete que Gilbert prometera. A carne de veado, temperada com ervas aromticas e servida com vegetais frescos, tinha um sabor delicado e um 
aroma irresistvel, e os biscoitos serviram para secar at a ltima gota do molho espesso e saboroso que o menino havia preparado. Daniel retirava pequenas pores 
do prato para alimentar o filhote de coiote que permanecia sentado entre ele e o irmo.
    - J escolheram um nome para o bichinho? - Prola perguntou.
    - Acho que devamos cham-lo de Nevasca. Por que ele nasceu na neve - Daniel lembrou. - E voc, Gilbert? O que pensa sobre o assunto?
    - Acho que no devemos dar um nome ao animal.
    - Por qu?
    - Porque isso s vai dificultar a separao quando tivermos de partir.
    - E por que no podemos lev-lo conosco?
    - Porque papai o mataria assim que o visse.
    - Ento o esconderemos. Papai nunca por os olhos no coiote.
    - Onde esconderemos um filhote de coiote em nossa casa? Sabe que est apenas tentando enganar-se, Daniel. Ele  uma criatura selvagem. No pode mud-lo, e tambm 
no pode mudar a natureza de nosso pai.
    - Mas ele gosta de mim. Veja. - Daniel estendeu a mo e o filhote a lambeu. - Se o deixarmos sozinho, ele morrer de fome.
    - Talvez no. Aqui ele ter ao menos uma chance. Se o levarmos conosco, ele no sobreviver ao primeiro encontro com nosso pai.
    Triste, Daniel pegou o pequeno animal e aninhou-o junto ao peito.
    - Venha, Nevasca. Pelo menos por enquanto voc est seguro. E esta noite dormir comigo.
    Enquanto os dois meninos brincavam com o coiote num canto da caverna. Prola lavava os pratos e as panelas e servia o que restava do caf numa xcara, que ofereceu 
a Cal. Ele estava parado na entrada da caverna, fumando em silncio. Gostaria de saber por onde andava a mente desse caubi quando seu rosto tornava-se to triste 
e pensativo.
    Ao ouvir seus passos ele ergueu a cabea.
    - Est muito quieto.
    - Tenho muito em que pensar.
    - Algo que queira dividir comigo?
    Cal negou com um movimento de cabea. Prola sentiu-se desapontada, mas no insistiu. Afinal, um homem tinha direito a preservar os prprios segredos. Adoraria 
poder oferecer alguma medida de conforto, mas os olhos dele eram como barreiras muito altas.
    Algum tempo mais tarde, quando os meninos foram dormir, Prola os cobriu com a pele e beijou-os na testa.
    - Boa noite, Daniel. Gilbert.
    - Boa noite, srta. Prola - Os dois responderam em unssono.
    O filhote de coiote estava aninhado entre eles.
    - Minha me costumava nos beijar todas as noites - Gilbert comentou. - Daniel  jovem demais para lembrar-se mas ainda posso v-la em minha mente. Posso at 
sentir seu perfume.
    - Isso  o que h de mais maravilhoso em nossas mentes - Prola explicou, notando que Daniel j adormecera.- Ningum pode nos privar de nossas lembranas.
    - s vezes... s vezes no consigo ver o rosto dela, e isso me assusta.  como se minha me estivesse desaparecendo. Mais ainda sou capaz de lembrar como me 
sentia seguro e protegido quando ela vivia conosco.
    - Apesar da imagem se apagar, seu corao nunca esquecer. No futuro, ainda ser capaz de recordar as coisas que ela ensinou a voc.
    - Quando mame estava morrendo, prometi a ela que cuidaria de Daniel. Mas s vezes  to difcil! Meu pai... - calou-se. - Estou falando demais, como meu irmo.
    S agora Prola compreendia porque esse menino, quase um homem adulto por porte fsico, suportava as surras que levava do pai, em vez de partir e construir uma 
vida para si mesmo. No era um covarde com medo do mundo e da luta pela sobrevivncia, nem permanecia por lealdade para com o sujeito cruel que o torturava. Gilbert 
permanecia e suportava os maus tratos por causa da promessa que fizera ao lado do leito de morte da me. Pensar no sacrifcio do jovem partia seu corao.
    Prola segurou as mos dele e afagou-as, lutando contra as lgrimas.
    - Voc  muito corajoso, Gilbert. E um dia ser um homem honesto e bom.
    - Como meu pai? - De repente a voz assumia um tom duro e sarcstico.
    - No. Voc nunca ser como seu pai. Por tudo que tenho visto, sou capaz de deduzir que a influncia de sua me foi muito forte. Voc  como ela, Gilbert. Bondoso, 
gentil e decente.
    - Ningum na cidade sabe disso. Tudo que sabem sobre os Ingram  que nosso pai  um ladro mentiroso. Por isso esperam que sejamos iguais.
    - H pouco tempo, um homem sensato me disse que aqui, no Texas, uma pessoa no  julgada pelas cartas que recebe, mas pela maneira como as joga.
    Ao fitar os olhos profundos de Gilbert, ela viu a luz da compreenso e sorriu.
    - Por que no vai dormir?
    Prola beijou-o mais uma vez e, ao levantar-se, viu que Cal permanecia quieto e pensativo, os olhos perdidos na noite escura. A expresso de sofrimento no rosto 
bronzeado partiu seu corao.
    Ao aproximar-se dele, enlaou-o pela cintura e a voz rompeu-se num soluo.
    - Oh, Cal! No suporto ver tanta dor nos olhos de um menino.
    Sem dizer nada, ele a puxou para mais perto e beijou-a com uma paixo que a deixou trmula.
    Ficaram assim por mais de uma hora, nos braos um do outro, olhando para a noite escura e silenciosa. E quando finalmente Prola foi deitar-se, sentia-se satisfeita 
por ter conseguido banir parte da tenso. Quando estavam juntos, ela e Cal encontravam alguma paz.
    
    Na manh seguinte, quando acordaram, todos sentiram a mudana no ar. O vento, que por dias soprava forte do norte, agora era uma brisa morna e gentil vinda do 
sul. O sol, ofuscante contra a paisagem branca, j comeava a derreter as espessas camadas de neve.
    - Se o tempo continuar assim, dentro de um ou dois dias poderemos voltar para cs - Cal anunciou ao entrar com a madeira para o fogo.
    Era estranho, mas palavras no foram recebidas por aplausos e assobios de alegria. Em vez disso, Prola e os meninos permaneceram em silncio, perdidos num mundo 
de pensamentos.
    Prola sentia uma intensa dor no corao. E agora, o que aconteceria? O amor que ela e Cal haviam descoberto na caverna sobreviveria  realidade da fazenda? 
E quanto aos filhos de Ingram? Como poderia devolver crianas to doces a um adulto que as maltratava? E se Rollie estivesse morto? O que aconteceria aos pobres 
rfos? Aprendera a gostar muito deles, mas sabia que no tinha nenhum direito sobre seus destinos. No podia interferir no curso de suas vidas. Podia?
    Oh, papai! Preciso de sua ajuda para encontrar o caminho em meio de toda essa confuso!
    Concentrada na tarefa de preparar o caf, Prola esqueceu os prprios receios. A refeio tornou-se uma ocasio festiva para todos, que logo seguiram a disposio 
entusiasmada de Cal.
    - Depois do caf Gilbert e eu iremos verificar a trilha. Talvez elas j possa sustentar o peso da carroa e do cavalo.
    - Quer dizer que est pensando em partir hoje? - Prola perguntou.
    - Talvez. Depende do estado dos caminhos. Se ainda estiverem escorregadios, esperaremos at amanh.
    - O que posso fazer, sr. McCabe? Daniel perguntou
    - Pode ficar aqui e proteger a srta. Jewel.  uma misso importante, filho. Sente-se capaz de execut-la?
    - Sim, senhor. E quanto ao Nevasca, Gilbert?
    - Mantenha-o aqui - pediu o irmo mais velho. - E fique atento. Se o vento trouxer o cheiro da me dele, o filhote sair para tentar encontr-la.
    - Vou cuidar bem dele. E da srta. Jewel - o garoto prometeu com tom solene.
    Algum tempo depois, assim que Gilbert e Cal partiram, Prola comeou alimpar a caverna.
    Enquanto trabalhava, ela sugeriu:
    - O que acha de praticarmos um pouco mais de adio, Daniel?
    - Sim, senhorita. Deixando o animal dormindo ao lado do fogo, o garoto apanhou um graveto e comeou a rabiscar na areia os nmeros que a professora ditava.
    Depois de uma hora ele levantou a cabea, olhou em volta e franziu a testa numa expresso preocupada.
    - Srta. Jewel, onde est Nevasca?
    Procuraram por todos os cantos em vo. O filhote no estava em parte alguma.
    - Acredita que ele pode ter retornado ao riacho?
    Prola fez um movimento afirmativo com a cabea.
    - Gilbert nos preveniu contra isso - Ela lembrou, jogando o coberto sobre os ombros. - Venha, vamos tentar encontr-lo.
    Os dois dirigiram-se ao riacho, e Prola surpreendeu-se com a facilidade com que locomoviam-se, agora que o ar gelado fora substitudo por uma brisa morna e 
gentil. Apesar do terreno ainda estar coberto por grossas camadas de neve, o ambiente j no parecia to hostil quanto antes. Pouco depois localizaram o filhote 
de coiote  beira do riacho, encolhido ao lado do corpo inerte da me.
    - Oh, Nevasca! - Com imensa ternura, Daniel tomou o pequeno animal nos braos.
    - Venha, vamos lev-lo de volta. - Prola decidiu, tomando o caminho para a caverna. - Prepararemos um caldo de carne de veado e tentaremos confort-lo.
    O menino parou para aninhar o filhote dentro da camisa, sempre murmurando palavras doces com as quais pretendia acalm-lo. Quando levantou a cabea, Prola j 
ia longe na trilha cortada na neve.
    Pouco depois ela afastava o cobertor que fazia s vezes de porta e penetrava na caverna. A luz brilhante do sol refletida na neve tornava a escurido do ambiente 
ainda mais intensa, e por um momento ela no conseguiu ver nada. Mas logo os olhos ajustaram-se e ela pde identificar um vulto do outro lado da caverna.
    A risada estridente de Rollie Ingram chegou at ela como uma sentena de morte.
    - Ora, ora, que lugarzinho aconchegante! J estava comeando a pensar que no voltaramos a nos encontrar, mas vejo que me enganei. Depois de alguns dias de 
atraso, estamos novamente juntos, srta. Sabe-Tudo. E parece que o velho Ingram est no comando outra vez.
    
    
    Captulo 22
    
    Daniel sentou-se no alto da encosta gelada e, segurando Nevasca junto ao peito, deslizou pela superfcie lisa.
    - No  divertido? - perguntou ao animal quando a breve jornada chegou ao fim. - No importa o que Gilbert diz. Voc ir conosco. Prometo que nunca deixarei 
meu pai machuc-lo.
    Ele escondeu o filhote dentro da camisa e caminhou at a entrada da caverna.
    - A srta. Jewel est preparando um caldo de carne. Depois disso vai sentir-se mais forte.
    Ele afastou o cobertor que servia de porta e entrou. Por alguns instantes ficou parado, esperando que os olhos se ajustassem  escurido. E quando conseguiu 
enxergar atravs da penumbra, viu Prola numa postura rgida e atenta do outro lado da abertura na rocha.
    - Srta. Jewel, o que...? - E parou horrorizado, identificando a figura ameaadora do pai atrs da professora. Na mo dele havia uma faca, e a lmina afiada estava 
encostada no pescoo da jovem.
    O rosto de Rollie contorceu-se numa mscara de fria.
    - Que diabos est fazendo aqui, garoto?
    - Eu... - Daniel tentou falar, mas o n em sua garganta o sufocava. Cal McCabe o encarregara de cuidar da segurana da professora, e havia fracassado terrivelmente.
    Com lgrimas nos olhos, virou-se e correu para fora da caverna. Uma vez l fora, sacou a pistola que levava no bolso e disparou. O som do tiro ecoou pelas montanhas. 
Em seguida a criana sentou-se na neve e enterrou o rosto nos plos do filhote de coiote, chorando como se quisesse livrar-se de todas as angstia e aflies.
    
    O corao de Cal ameaava explodir, mas ele continuava correndo. O sinal s podia ter um significado. Rollie estava vivo. Conseguira sobreviver aos ferimentos 
e ao tombo na fenda profunda da encosta, e voltara em busca de vingana.
    Ele e Gilbert corriam pela neve, e estavam ofegantes e trmulos quando alcanaram a caverna.
    Daniel permanecia sentado no mesmo lugar, o rosto marcado pelas lgrimas.
    -  meu pai - ele disse entre um soluo e outro. - Est l dentro com a srta. Jewel, e mantm uma faca no pescoo dela. Eu... a deixei sozinha enquanto fui procurar 
por Nevasca e...
    - Tudo bem, filho - Cal interrompeu com gentileza. - Pelo menos consegui nos alertar.
    O menino balanou a cabea.
    - Papai vai mat-la. Eu sei que vai. Vi no rosto dele.
    - Gilbert, fique aqui com seu irmo. O que quer que acontea, no entre na caverna. - E antes que o rapaz pudesse argumentar, desapareceu alm da porta improvisada.
    - Chegou bem na hora. - Ingram sorriu ao v-lo. - Sabia que o disparo o traria de volta, e estou feliz por no ter demorado. No podia mais esperar para comeara 
a me divertir.
    - J pensou no que vai fazer depois de nos matar? - Cal perguntou.
    - Vou tomar um gole para comemorar.
    - E depois? - Enquanto falava, calculava a distncia que o separava do oponente. Tinha de mant-lo distrado at aproximar-se o bastante para saltar sobre ele 
e desarm-lo. Ver a lmina pressionada contra o pescoo de Prola o enchia de um dio incontrolvel. - No poder voltar para casa. Vai ter de recomear em algum 
outro lugar. E seus filhos? Espera que eles guardem segredo sobre o que sabem?
    - Aqueles dois imprestveis faro o que eu mandar.
    - Tem certeza?
    - O que est querendo dizer?
    - Voc no conhece seus filhos, Ingram.
    - E voc os conhece?
    - Quase to bem quanto a mim mesmo. Estive l, Rollie. 
    Prola notou a mudana no tom de voz e pressentiu que algo importante estava por acontecer.
    - Tive um pai como voc - Cal continuou. - Na verdade, ele era meu padrasto. Meu verdadeiro pai morreu logo depois que eu nasci, e minha me ficou viva aos 
quinze anos de idade, com um beb nos braos e uma fazenda num territrio isolado do Missouri. Durante anos tive certeza de que ele a surrava, mas nunca testemunhei 
nada. At o dia em que ele a espancou com tanta violncia, que mame no suportou. Eu tinha doze anos. Peguei o rifle que havia sido de meu pai e atirei no bastardo. 
Depois de certificar-me de que ele estava morto, abracei minha me e fiquei com ela at a vida escapar de seu corpo. Depois de enterr-la num tmulo ao lado da sepultura 
de meu pai, comecei a fugir e no parei at encontrar essas montanhas do Texas. Vivi como um animal, Ingram, sem nunca sair  luz do dia, temendo acender uma fogueira 
por medo de atrair algum. E quando Joseph Jewel me encontrou escondido em suas terras, eu parecia uma criatura selvagem sada de alguma lenda, com cabelos at o 
meio das costas, unhas compridas e olhos aterrorizados. Minhas roupas eram peles de animais. Quando ele finalmente conseguiu me convencer a contar toda a verdade, 
entrou em contato com a polcia em Missouri e descobriu que toda a cidade sabia sobre os espancamentos. Ningum procurava por mim. Na verdade, todos haviam comemorado 
a morte do desgraado, como a sua ser celebrada.
    - Ora seu... - Rollie apertou a faca contra o pescoo de Prola.
    Notando a expresso, Cal voltou a falar tentando ganhar tempo.
    - Joseph Jewel devolveu-me a vida e o auto-respeito.
    Durante toda a narrativa, Prola havia prendido o flego enquanto imaginava quanto ele devia ter sofrido. E ainda sofria.
    - Uma histria muito triste... - a voz de Ingram destilava sarcasmo. - Est insinuando que um dia Gilbert se voltar contra mim e matar o prprio pai por causa 
das surras que levou?
    - Acho que no prestou ateno, Rollie. No  Gilbert que teve temer.  Daniel.
    Durante alguns instantes o silncio caiu sobre os trs como um manto pesado. Cal e Rollie encaravam-se.
    Prola sentia a lmina fria contra o pescoo e tentava no mover-se. Mas, pelo canto do olho, notou um movimento na entrada da caverna e soube que Daniel e Gilbert 
estavam ouvindo do lado de fora.
    De repente o cobertor que servia de porta caiu e revelou a cena dantesca. Duas crianas brigando pela pistola de Cal.
    - No, Daniel! - Gilbert gritou.
    Mas o caula livrou-se das mos que o seguravam e parou diante do pai.
    - Solte essa faca - ordenou com voz assustada. - Ou vou estourar sua cabea.
    - Ora, seu pequeno... - Rollie jogou Prola no cho e deu alguns passos na direo do filho.
    Nesse instante Cal lanou-se para a frente e agarrou o rifle. Mas, antes que pudesse fazer pontaria, Rollie jogou-se sobre ele e os dois homens comearam a lutar 
pela posse da arma.
    - Pare, pai! - Daniel mal podia enxergar por causa das lgrimas que corriam. Mas, apesar delas, levantou a pistola e fez pontaria.
    Num piscar de olhos Ingram levantou-se e apontou o rifle para o peito de Cal.
    - Vou gostar muito disso - riu, o dedo movendo-se sobre o gatilho.
    O som de um disparo ecoou pela caverna com a fora de um trovo. Por um momento ningum se moveu. Ento Rollie soltou o rifle e levou as mos ao estmago. O 
sangue jorrava por entre seus dedos, respingando a rocha do piso. Com um olhar de espanto e terror, ele caiu de joelhos.
    - Daniel? - gaguejou. - Voc... fez isso?
    - No. - A arma caiu da mo trmula de Prola. - Fui eu. No podia permitir que seu filho carregasse esse peso na conscincia pelo resto da vida.
    - Sua... - Rollie Ingram caiu antes de completar o insulto. O rosto era a mesma mscara de dio que ele carregara ao longo de toda a vida.
    Os dois meninos abraaram-se, desviando os olhos do corpo inerte e ensangentado.
    Para poup-los, Cal os levou para fora da caverna e ordenou que Prola ficasse com ele. Os trs permaneceram abraados num silncio triste at que, pouco depois, 
Cal saiu conduzindo a carroa e o cavalo do morto. No fundo do veculo, s um cobertor, jazia o corpo do homem que quase os matara.
    
    A viagem de volta devia ter um certo clima de festa, mas o silncio reinava absoluto entre os ocupantes da carroa. Apesar da angstia de saber que havia assassinado 
um ser humano, Prola buscava consolo da certeza de que agira para proteger um inocente. S assim conseguira evitar que Daniel repetisse a histria de Cal e carregasse 
para sempre o peso da culpa.
    Onde encontrara foras para disparar?
    A resposta foi imediata. O pai no havia prometido que estaria sempre a seu lado?
    - Obrigado, papai - murmurou.
    - O que disse, srta Jewel? - Daniel perguntou.
    - Eu... estava apenas agradecendo a Deus pelo fim a tempestade. E pelo tempo, que acabar nos consolando e fechando todas as feridas.
    Numa cidade pequena com Hanging Tree, as notcias viajavam com a velocidade de um incndio numa floresta seca. Pouco depois do retorno do grupo  fazenda, todos 
os pees j comentavam sobre a coragem da filha de Joseph Jewel e a ousadia dos filhos de Ingram, que haviam se mostrado diferentes do pai como a gua do vinho.
    - Lavnia Thurlong e Glayds Witherspoon devem estar se divertindo com tudo isso. - Esmeralda suspirou.
    Ela o marido haviam voltado de Maryland a tempo de presenciar a excitao dos empregados da fazenda pela volta do grupo, e agora estavam sentados na grande mesa 
da cozinha cercados por, Jade e Rubi e Carmelita.
    - Parece que em todos os lugares no se fala em outra coisa - ela concluiu aborrecida.
    Adam parou atrs da esposa e beijou sua testa num gesto de ternura.
    - Voc mesma disse, meu bem. As irms Jewel so o que Hanging Tree possui de mais prximo da realeza. Deixe as pobres pessoas da cidade se divertirem um pouco.
    - Por que tem sempre de simplificar tudo?
    - Porque a vida pode ser simples, se quisermos. Carmelita, est preparando esses ovos para mim?
    - No exatamente, mas fiz o bastante para todos. - A cozinheira acrescentou pimentas verdes e vermelhas ao prato e separou a mistura para remover uma assadeira 
de espigas de milho do forno.
    O som de passos atraiu a ateno de todos. Prola entrou na cozinha exibindo roupas impecveis, como sempre. Os cabelos haviam sido penteados e eram mantidos 
no lugar por uma fita cor-de-rosa.
    Atrs dela vinha Gilbert e Daniel, limpos e descansados. Usavam roupas novas e os cabelos, bem cortados, ainda exibiam os sinais de um banho recente.
    - Ei, vocs parecem timos! - Carmelita exclamou surpresa. - Sentem-se, e vou tentar compens-los por toda a comida que deixaram de ingerir nesses dias.
    - E quanto a Cal? - Prola quis saber. - No vamos esperar por ele?
    - Oh, o seor Cal partiu h horas.
    - Partiu? - Prola empalideceu. - Para onde?
    - Ele disse que passaria pela escola para reparar os estragos feitos por Ingram, e depois seguiria para a fronteira norte. Acredito que s voltar dentro de 
algumas semanas.
    - Semanas?
    - Foi o que ele disse.
    Prola agarrou a sombrinha e, apressada, dirigiu-se  porta.
    - Ei, onde vai? - esmeralda perguntou preocupada. - Ainda nem tomou seu caf!
    - No estou com fome. Daniel e Gilbert podem comer a minha parte.
    
    Cal recolheu os fragmentos de vidro e levantou mesas e cadeiras, grato pela chance de dar trabalho aos msculos tensos. No queria pensar. Na verdade, no fizera 
outra coisa desde que havia retornado da montanha, e seus pensamentos enfocavam apenas num assunto: Prola.
    Amava-a. Como nunca havia amado algum em toda sua vida. Mas estava convencido de que amor no era o bastante. Por mais que analisasse os sentimentos por Prola, 
acabava sempre chegando  mesma concluso. Eram definitivamente inadequados um para o outro. Apesar dos esforos hericos durante o perodo de emergncia, Prola 
era uma dama. Uma jovem culta e bem preparada que logo se cansaria dos sacrifcios da vida no Texas e retornaria  civilizao, a uma cidade onde houvesse um salo 
de beleza, uma costureira e uma confeitaria em cada esquina. E apesar de todo amor que sentia por ela, jamais poderia segui-la. Morreria de tristeza se tivesse de 
deixar a terra que amava.
    Ao ouvir o som de uma carruagem aproximando-se, ele abandonou o trabalho e foi at a porta. Quando viu Prola saltar do veculo, franziu a testa e pensou em 
como havia esperado passar algumas semanas fora antes de encar-la mais uma vez.
    Por outro lado, talvez fosse melhor assim. Tornaria o rompimento definitivo e claro, e depois teria o resto da vida para cuidar do corao partido.
    - Carmelita disse que o encontraria aqui.
    - S queria arrumar tudo por aqui antes de partir para a fronteira. Assim, poder voltar a lecionar quando quiser. Isto , se ainda pretende ficar aqui at o 
fim do ano letivo.
    - E por que no ficaria? A menos,  claro, que tenha decidido banir a escola da fazenda...
    E por que eu faria tal coisa?
    - Caso tenha esquecido, fizemos um acordo antes de a escola comear a funcionar. Se o fato de dar aulas aqui ocasionasse algum problema relativo  segurana 
da propriedade, eu desistiria de lecionar.
    - Prola, no foi a escola que trouxe Rollie Ingram  nossa porta. Ele j criava problemas muito antes de sua chegada ao Texas, e todos sabiam que um dia ele 
acabaria morto por uma bala. Apenas lamento t-la envolvido naquela cena horrvel. De qualquer maneira, tenho certeza de que os filhos de Ingram s se redimiram 
graas  sua influncia. Sem suas aulas sobre honra, quem sabe o que teriam se tornado?
    - No exagere.
    - Estive pesando. Depois de tudo que passou, deve estar ansiosa para voltar  civilizao. Boston deve ser o paraso comparado s coisas que viu por aqui.
    - Quando se chega to perto da morte, muitas coisas assemelham-se ao paraso, Cal. Coisas que antes teriam passado despercebidas de repente tornam-se muito importantes. 
Por exemplo, um certo caubi que costumava me deixar furiosa, agora faz meu corao bater mais depressa.
    - O que vivemos na montanha... Bem, foi especial e lindo, mas no sou tolo o bastante para acreditar que ser eterno.
    - Por que no?
    - Porque voc  uma dama, e eu no passo de um caubi rude que matou um homem aos doze anos de idade. Voc merece o que a vida tem de melhor, e s posso oferecer 
trabalho duro sob um sol que a tornar velha antes de completar trinta anos de idade. Um homem capaz de pedir a uma mulher para acompanh-lo nesse tipo de vida  
mais baixo que uma serpente, e por isso...
    - J chega - ela o interrompeu. - Disse o que tinha a dizer, e agora  minha vez de falar. Quando eu era menina, meu pai costumava falar muito sobre seu lar 
no Texas. Oh, as coisas que ele descrevia! Ainda posso me lembrar como sonhava com esse lugar, com as aventuras fascinantes e a paisagem maravilhosa. E ento, contingncias 
amargas me trouxeram para c, fui obrigada a encarar minha prpria fragilidade. Ao contrrio de papai, sempre to corajoso e destemido, descobri que no passava 
de uma mulher tmida, fraca e intil. At conhec-lo.
    - No estou entendendo...
    - Em seus braos, tornei-me uma nova pessoa. Agora no sou mais aquela menina indefesa e intil que sempre fui. Com voc, descobri que posso fazer qualquer coisa. 
Escalar montanhas, vencer inimigos, sobreviver num ambiente hostil e contar apenas com meus prprios recursos...
    De repente Cal ficou quieto. Era verdade! Prola havia mudado muito durante o tempo que passaram na montanha.
    - Mas no por minha causa - disse, como se falasse sozinho. - Voc encontrou essa fora dentro de si mesma.
    - Talvez, mas foi voc quem me fez descobrir o significado e o valor da liberdade, de poder ser a pessoa que eu quiser. Foi o seu amor que me libertou. Por que 
acha que vou desejar voltar para a priso onde passei toda minha vida?
    - Quer dizer... que se pedir para ficar e ser minha esposa... no vai me considerar mais baixo que uma serpente?
    - Pensei que nunca perguntaria! - Ela riu, abraando-o e colando os lbios nos dele. - Venha, vamos contar aos outros. Temos que falar como reverendo Wade Weston. 
E com os meninos, tambm. A propsito, estava pensando em falar com voc a respeito deles. Acha que podemos adot-los? E tambm gostaria de viver aqui com voc. 
Afinal essa cabana foi o primeiro lar de meu pai, e sinto algo especial por ela.
    - Vamos com calma. Sou a favor de adotarmos Daniel e Gilbert, e concordo em morar aqui, desde que antes faamos uma reforma para aumentar um pouco o espao disponvel. 
Mas quanto a irmos contar aos outros... Ser que isso pode esperar? Seria um desperdcio no aproveitar toda aquela palha macia. Tenha piedade! S preciso de algumas 
horas com voc, e depois...
    Prola sorriu e abraou-o. Em silncio, Cal tomou-a nos braos e levou-a para cima, onde a deitou sobre a palha que um dia servira de cama para Joseph Jewel.
    - Agora que meus ferimentos esto curados, quero ensin-la algumas coisas diferentes - disse enquanto a beijava.
    - Mal posso esperar para aprender. Caso ainda no tenha notado, sou uma tima aluna.
    
    
    Eplogo
    
    - Acho que nunca o vi to nervoso, Cal. - Cookie ajeitou o cachimbo na boca e sorriu. - S mais alguns minutos, e tudo estar acabado.
    - Eu sei. Eu sei. - Cal estava em p ao lado do velho amigo na varanda da cabana reformada, olhando para as carroas cheias de gente que chegavam uma aps as 
outras.
    Ao passarem por ele, todas as pessoas pareciam falar sobre o fato dos recm-casados deixarem a fazenda para irem morar na modesta casinha que havia sido se Joseph 
Jewel, e continuaria servindo como escola para as crianas da cidade.
    Cal e Prola insistiram em celebrar a cerimnia em casa, em vez de usarem a grande sede da fazenda. Para desnimo de Lavnia Thurlong e Glayds Witherspoon, soa 
as famlias dos alunos haviam sido convidadas para o que toda a cidade chamava de o maior evento social do ano.
    Carmelita e Cookie haviam passado dias cozinhando, e o delicioso aroma de temperos e assados proveniente da cozinha aguava o apetite dos convidados.
    Esmeralda, estava horrorizada, certa de que as fofoqueiras locais no deixariam de comentar o espetculo. Tentara convenc-los a aceitar uma cerimnia simples 
e privada, apenas para a famlia e os amigos mais ntimos, mas fora derrotada numa votao rpida. E, o que era pior, estava sendo forada a usar um vestido deslumbrante, 
totalmente diferente da cala comprida e da camisa que preferia vestir em seu dia-a-dia.
    Jade e Rubi, esplndidas em seus trajes de gala, seguiam ao lado dela na carruagem. A noiva estava sentada sozinha no segundo banco, o vestido branco bem espalhado 
sobre a prancha de madeira para que o tecido no fosse amarrotado ao longo da breve jornada. Nas orelhas ela levava os brincos que ganhara do noivo na noite anterior, 
uma delicada combinao de ouro e prolas que havia sido o desfecho perfeito para o encontro mais romntico de sua vida. Havia sido a primeira noite que passaram 
juntos na cabana reformada, e jamais esqueceria as juras e amor que trocaram entre beijos e carcias.
    O reverendo Wade Weston chegou levantando uma nuvem de poeira sob as rodas de sua enorme carroa, e cumprimentou o noivo.
    - Preparei um sermo inesquecvel - disse.
    - Cuide apenas para que seja breve - Cal pediu aflito. Pretendia dizer mais alguma coisa, mas nesse momento viu Daniel e Gilbert saltarem da carruagem que conduzia 
as irms Jewel. Os meninos correram em sua direo exibindo roupas impecveis.
    - Vamos ter de falar alguma coisa? - Daniel perguntou excitado.
    - No. A nica coisa que Gilbert ter que fazer ser entregar o anel no momento certo. Lembrou-se de traz-lo, no?
    - Sim, senhor. - Gilbert retirou uma aliana de ouro no bolso.
    Ao ver a jia que pertencera a sua me, Cal sentiu o peito apertado. Ela teria aprovado a noiva que escolhera. Teria ficado t orgulhosa...
    -  bom saber que no vamos ter de falar na frente de todas essas pessoas. - Daniel espiou pela porta e viu uma multido to grande quanto a que reunia-se todas 
as semanas para o culto dominical. - Todos eles vieram para ver voc se casar com a srta. Prola?
    - Acho que sim. - Cal suava frio, desejando que tudo acabasse depressa. E era s o comeo. Logo Prola estaria depositando um beb em seus braos, pedindo para 
que fosse tirar a roupa do varal e censurando-o por ter deixado camisas sujas no cho. Mas nesse momento Esmeralda, Jade e Rubi afastaram-se, deixando-o entrever 
o rosto doce da mulher que logo seria sua esposa. Imediatamente seus temores dissolveram-se. Seria capaz de rastejar pela cidade diante de toda a populao s para 
satisfazer Prola.
    Ela correu para juntar-se ao noivo e aos meninos.
    _ J contaram a ele?
    - Estvamos... esperando por voc - Gilbert respondeu, os olhos fixos no sapato brilhante.
    - E agora, o que  isso? Cal no sabia se poderia suportar tantas surpresas.
    - Ontem, quando fomos  cidade para apanhar nossas roupas, aproveitamos para cuidar de um outro... assunto - Gilbert revelou.
    - Que assunto?
    Gilbert ps a mo no bolso e produziu um documento com aparncia oficial, que entregou a Cal.
    - Ma... isto , a srta. Prola... isto ... Bem, estivemos com o juiz e pedimos a ele para mudar nossos nomes. Agora ele  Daniel McCabe, e eu serei chamado 
de Gil McCabe. Gil  mais adulto que Gilbert. Como Cal. Quero dizer, se no fizer objees...
    - Objees? - Cal tinha um n na garganta do tamanho de um ovo de galinha. Fechando os olhos, abraou os dois irmos e virou-se, temendo que os pees da fazenda 
o vissem chorar. - Esse  o dia mais feliz de minha vida. Tenho uma esposa e dois filhos, os melhores que um homem pode desejar.
    Prola enxugou uma lgrima, certa de que o corao explodiria com tanto amor.
    Sentindo um estranho volume sob a jaqueta de Daniel, Cal afastou-o e estreitou os olhos num gesto desconfiado.
    - O que  isso? Mais uma surpresa?
    - No, senhor.  s Nevasca. No queria que ele ficasse fora de um evento to importante. Afinal, agora, ele tambm faz parte da famlia.
    Nesse momento o rgo emitiu as primeiras notas da marcha nupcial e o ministro tomou seu lugar. Todas as cabeas voltaram-se para a porta, onde os noivos esperavam 
o momento de entrar. Mas, em vez de uma procisso solene, viram um filhote de coiote fugir dos braos de um garoto e correr para o meio da multido. Daniel atirou-se 
no cho para resgat-lo, rastejando por entre os bancos em busca do animal fugitivo.
    Cal e Prola abraaram-se e riram.
    - Tem idia do tamanho da confuso em que est se metendo, sr. McCabe? - ela perguntou.
    - Nenhuma, futura sra. McCabe. Mas  evidente que voc est adorando toda essa agitao.
    - tem razo.
    - Voc  realmente parecida com seu pai.
    - Esse  o maior elogio que me poderia ter feito, Cal.
    - Tenho certeza de que essa sua vida to sria e regrada nunca mais ser aborrecida, Prola.
    - Promete?
    - Prometo. - Ele sorriu
    Oh, papai, Prola pensou ao dar o brao a Cal McCabe e comear a caminhar rumo ao altar. Voc sempre soube. Tinha certeza de que eu acabaria vindo para c e 
encontrando, no s esse caubi maravilhoso, mas minha verdadeira personalidade. Obrigado, papai. Espero t-lo feito orgulhoso, porque voc me fez a mulher mais 
feliz do Mundo.
    
    FIM
    
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